“Reflexões sobre a questão do sofrimento a partir de Emile Cioran e Emmanuel Lévinas – ontologia, ética, substituição e subjetividade” – Ricardo Timm de SOUZA

Revista Veritas, nº 147, Porto Alegre, setembro de 1992, p. 387-395.

O presente texto se ocupa em tentar sintetizar rapidamente alguns aspectos sob os quais os pensadores contemporâneos Emile Cioran e Emmanuel Lévinas enfocam a questão do sofrimento.[2] Isto é feito a partir de textos nos quais ambos externaram expressamente ideiais a respeito do problema. A partir disso tentamos ir adiante destes textos, esboçando pontos de contato e conexões entre o esquema geral de pensamento destes autores com a questão em estudo; adiante, por fim, efetuamos uma tentativa de, a partir da questão da inutilidade do sofrimento em geral, nos acercamos do difícil problema da fundação da subjetividade por Lévinas, bem como do restante de seu pensamento, utilizando estes dados para tentar ampliar o aspecto de sentido dos elementos trabalhados.

Cioran e o “monopólio do sofrimento”

O escritor Emil Cioran apresente em variados textos o que entende por sofrimento. É verdade que não costuma utilizar, em suas reflexões, linguagem e terminologia estritamente filosóficas, em sentido tradicional do termo; isto não impede, porém, que suas agudas observações possam valer como algumas das mais representativas postulações sobre o tema do século vinte.

Para Cioran o sofrimento não pode ser classificado como alguma espécie de status provisório da condição humana. Em muitos momentos praticamente identifica Cioran o sofrimento com a vida mesma, o que significa que, para ele, penetrar nas raízes do sofrimento significa tocar as raízes da condição humana enquanto tal. E isto ele o faz em sentido grandiosamente ontológico sem que, como acima referido, se enquadre dentro dos padrões da linguagem filosófica – e sim, com a liberdade criativa e expressiva de um grande escritor e de um grande estilo.

Entender o mundo como um gigantesco enigma insolúvel não é incomum, especialmente em obras filosóficas e literárias que surgem em meados deste conturbado século XX; mas rara porém é a tendência de, exatamente neste ponto da analítica da existência, suster a dinâmica de interpretação da existência em seu decorrer e concentrar nesta instância todas as energias criativas de um alto talento literário. É isto que faz Cioran. E o fato de que em alguns pontos de sua obra possam ser encontradas expressões que sugerem a crença em algum tipo de “ordem metafíca”[3], não significa que o tom altamente preponderante em toda a sua obra não tenda a uma espécie de revolta de difícil descrição, uma melancolia intensiva e que destila filosofia e arte através deste intensidade.[4]

As formulações de Cioran a respeito da questão do sofrimento devem ser entendidas a partir desta sua postura geral em relação ao mundo e ao homem. Elas se concentram em torno a observações fenomenologicamente livres do sofrimento e do sofredor. O sofrimento indica, em princípio, uma radicalização da condição de ser-humano, ou dehumanamente-ser; a dor une imediatamente tudo que há de humano ao mais profundo de si mesmo: “… La douleur est pour nous ce qu’il y a de plus nous-mêmes, de plus soi”.[5] No sofrimento é o sofredor de certa forma este sofrimento mesmo. E através disso reconhecer-se humano em sentido pleno e não se pode livrar desta extrema humanidade. Sofrer significa ter de ser o “ser” do ser humano. O sofrimento cinde o humano do não-humano, o vivo do não-vivo e o vivo que sofre é humanamente vivo:  “Ce n’est pas par la génie, c’est par la souffrance, par elle seule, qu’on cesse d’être une marionette.”[6] Por outro lado, o sofrimento não é nenhum bem ordenado estágio em um algum perfeito “concerto cósmico”,  e sim a subversão justamente de qualquer tipo de hierarquia da valores: “Im Leiden gibt es Keinerlei Rechtfertigung von Werten. Die Begründung dês Leidens auf eine Rangordnung ist unmöglich”.[7] O acontecimento do sofrimento fecha o sofredor em si mesmo; ele se percebe como único sofredor e a verdadeira dor é também, de certa forma, este isolamento radical. Esta solidão condena o sofredor a si mesmo, ao seu irrenunciável “humanamente-ser”, como se o peso da Humanidade inteira se tivesse concentrado em sua mais profunda interioridade. Por isso, é cada dor, cada sofrimento verdadeiro por essência intransferível, completo, absoluto – ele possui um “monopólio” absoluto, o “monopólio” do sofrimento.[8] A dor, o sofrimento não se deixam de forma alguma idealizar e não se permitem ser compreendidos como irrealidade: quando a dor existe, é ela de certa forma a realidade mesma, o ser da Ontologia. No sofrimento se concentra a efetivação de toda “teoricamente possível realidade”. “ Point de douleur irréele: la douleur existerait même si le monde n’existait pás. Quand il serait démontré qu’elle n’a aucune utilité, nous pourrions encore lui en trouver une: celle de projeter quelque sustance dans les fictions qui nous environnent. Sans ele, nous serions tous des fantoches; sans elle nul contenu nulle part; par as simples présence, elle transfigure n’importe quoi, même um concept.”[9] O sofrimento enquanto realidade ontológica eminente conduz Cioran a questões fundamentais da Ontologia – à questão da paradoxalidade do mundo, que é por assim dizer apenas ontologicamente compreendida: “Hat es überhaupt Sein geben müssen? Gibt es einen Grund dazusein? Oder hat die Existenz nur einen immanenten Grund? Existiert das Dasein nur als Dasein? Ist das Sein nur Sein? Warum nicht einen endgültigen Triumph des Nichtseins annehmen, warum nicht annehmen, dass das Dasein zun Nichtsein führt und das Sein zum Nichts? Ist die eizige absolute Wirklichkeit nicht doch das Nichtsein? Eine ebenso grosse Paradoxie wie die Paradoxie der Welt.”[10] Onde está o fundamento do ser e do não-ser? Não será o não-ser o ser por excelência? Qual o fundamento do ser? Tem a existência algum fundamento? Movemo-nos aqui em meio a uma intensa rede conceitual ontológica; implicitamente está Cioran a afirmar, de acordo com vastíssima tradição, que mundo, ser e existência somente a partir da realidade entendida como Ontologia poderiam ser senão compreendidos, pelo menos pressentidos. E assim, se houvesse algum sentido na questão do sofrimento, este seria apenas no desdobramento do ser (ou do não-ser?) apreendido, exatamente na Ontologia – no sentido mais geral do termo – porque para Cioran apenas a positividade ou negatividade ontológica permitem que se compreenda a realidade como real. E quem sofre (bem como quem simplesmente existe) paira com toda sua “espessura ontológica” (L.C. Susin) por sobre um abismo[11] ontologicamente interminável – o abismo do ser… [+]

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s