“O veneno abstrato” – CIORAN

MESMO nossos males vagos, nossas inquietudes difusas, quando degeneram em  fisiologia, convém, por um processo inverso, reconduzi-los às manobras da inteligência. E se alçássemos o tédio – percepção tautológica do mundo, tênue ondulação da duração – à dignidade de uma elegia dedutiva, se oferecêssemos a ele a tentação de uma prestigiosa esterilidade? Sem o recurso a uma ordem superior à alma, esta se perde na carne – e a fisiologia revela-se a última palavra de nossas perplexidades filosóficas. Converter os venenos imediatos em valor de troca intelectual, elevar à função de instrumento a corrupção sensível, ou cobrir por meio de normas a impureza de todo sentimento e de toda sensação, é uma busca de elegância necessária ao espírito, comparada à qual a alma – essa hiena patética – é apenas profunda e sinistra. O espírito em si só pode ser superficial, pois sua natureza está preocupada unicamente com a ordenação dos acontecimentos conceituais, e não com suas implicações nas esferas que significam. Nossos estados só lhe interessam na medida em que são transmutáveis. Assim, a melancolia emana de nossas vísceras e alcança o vazio cósmico; mas o espírito só a adota purificada do que a une à fragilidade dos sentidos; ele a interpreta; refinada, torna-se ponto de vista: melancolia categorial. A teoria espreita e capta nossos venenos, e os faz menos nocivos. É uma degradação para o alto, pois o espírito, amante das vertigens puras, é inimigo das intensidades.


CIORAN, E. M., Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 1989.

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4 comentários em ““O veneno abstrato” – CIORAN”

  1. […] Outra boa pergunta vinda do público é se a estilística de Cioran pode ser vista como uma forma de sublimação da visão negativa que ele mesmo sustentava a respeito da existência. Evocou-se aqui a figura de Wilhelm Worringer, autor de Abstração e empatia (1907), um dos muitos autores alemães lidos pelo jovem Cioran, a respeito da importância vital da faculdade de abstração, na filosofia, nas artes e na vida em geral, no intuito de construir-se isso que Gustavo Romero, remetendo a Peter Sloterdijk, chama de “bolhas” protetoras e reguladoras. Segundo Paolo Vanini, “o pensador romeno é fortemente fascinado pelas reflexões de Worringer, na qual a questão estética encontra-se imprescindivelmente ligada à inquietude metafísica e melancólica frente ao absoluto” (Cioran e l’utopia, prospettive del grotesco, Mimesis, 2018, p. 77). Um exemplo dessa improvável empatia pela abstração enquanto tal se encontra em Razne, um dos últimos textos de Cioran escritos ainda em romeno, já vivendo em Paris, pouco antes de adotar o francês como língua de escrita, prefigurando o Précis de décomposition (e particularmente o texto intitulado “O veneno abstrato“): […]

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