“La vie en prose”: a prosa como gênero ideal para uma comunhão de almas dilaceradas

Au lecteur,
C’est ici un livre de bonne foi, lecteur. Il t’avertit, dés l’entrée, que je ne m’y suis proposé aucune fin, que domestique et privée. Je n’y ai eu nulle considération de ton service, ni de ma gloire. Mes forces ne sont pas capables d’un tel dessein. Je l’ai voué à la commodité particulière de mes parents et amis : à ce que m’ayant perdu (ce qu’ils ont à faire bientôt) ils y puissent retrouver aucuns traits de mes conditions et humeurs, et que par ce moyen ils nourrissent, plus altiére et plus vive, la connaissance qu’ils ont eue de moi. Si c’eût été pour rechercher la faveur du monde, je me fusse mieux paré et me présenterais en une marche étudiée. Je veux qu’on m’y voie en ma façon simple, naturelle et ordinaire, sans contention et artifice : car c’est moi que je peins. Mes défauts s’y liront au vif, et ma forme naïve, autant que la révérence publique me l’a permis. Que si j’eusse été entre ces nations qu’on dit vivre encore sous la douce liberté des premières lois de nature, je t’assure que je m’y fusse très volontiers peint tout entier, et tout nu. Ainsi, lecteur, je suis moi-même la matière de mon livre : ce n’est pas raison que tu emploies ton loisir en un sujet si frivole et si vain. Adieu donc ; de Montaigne, ce premier de mars mil cinq cent quatre vingts.
Michel de Montaigne, Essais

Em “Vantagens do exílio”, Cioran define a experiência existencial do exílio como uma “escola de vertigem”, uma “situação limite e como que o extremo do estado poético.” Cioran não faz poesia nem pretende ser poeta; mas seus escritos não deixam de emanar uma notável musicalidade lírica que deriva da natureza orgânica, vivida ao nível fisiológico, de todo o seu pensamento (fazer “filosofia lírica” é dedicar-se a uma modalidade pensativa e criativa cujas ideias possuem raízes tão profundas quanto as da poesia).

A Poesia, como a Música, como ademais a Mística (maiúsculas propositais), são para ele modelos de estilo. Cioran já havia escrito, num de seus livros romenos, Amurgul gândurilor (“O crepúsculo dos pensamentos”) que “a infelicidade é o estado poético por excelência”, o que nos leva à correlação: exílio metafísico, tristeza automática – de onde a figura do “robô elegíaco”. Enfim, o autor de “La fin du roman” vê na prosa, adaptando-se plasticamente a diferentes formas, como o aforismo, o fragmento e o ensaio – em todo caso, formas prosaicas, propícias a um discurso mais ou menos convivial, dialogal, e em que a função fática é essencial – o gênero por excelência que permite, em meio ao “hermetismo da esquizofrenia” reinante nas artes contemporâneas, manter alguma inteligibilidade, alguma comunicação. É o que Cioran enxerga, por exemplo, em Blanchot (opinião que não compartilhamos, e cujas razões buscamos entender): a perfeição ininteligível, uma profundidade artificial, um nada demasiado literário, indireto, demasiado perfeito para convencer; o tipo de prosa a que Cioran se inclina, e o estilo que lhe corresponde, é todo o contrário disso: é a perfeição como absoluto da imperfeição, uma simplicidade provinciana e naïf diante do Mistério, a falta de modos, o cheiro de estrume, a “negação soluçante“, a indiscrição e a impaciência de exibir, ou transmitir, a própria alma sem fazer romance nem teoria literária. Uma vez mais, o estilo é “uma máscara e uma confissão”, tão mais eficaz na dissimulação e no esvaziamento de seus segredos – de suas vergonhas – quanto mais cultivado e depurado ele é. Só se poderia falar de grande estilo na prosa, no ensaio e no aforismo. Gêneros discursivos que não deixam de ser uma forma de confissão disfarçada, uma espécie de denudatio mística de sua alma. É isso que ele julga, da sua lucidez de “exilado metafísico”, mais apropriado e necessário em termos de escritura.

Escrever para que, senão para salvar-se enquanto se perde a cara? Comparando não os poetas, mas os prosadores de diferentes nações, Cioran descobre que não é abundância dos primeiros o que denota o grau de refinamento de um povo, mas antes que a escassez dos segundos é o que denota o grau de atraso histórico, nos dizeres do próprio autor, de uma nação. A cultura da prosa, enquanto gênero literário evoluído a partir do ensaio de Montaigne, é o índice do grau de refinamento de uma cultura, e logo de sua decadência. As “vantagens do exílio” – as quais os poetas estrangeiros que, como Cioran, aventuraram-se no francês, mas que, diferentemente dele, buscaram inaugurar alguma vanguarda artística, não descobriram – são justamente as possibilidades de se experimentar com a decadência de forma lúcida e sóbria, sem entusiasmo nem deslumbramento, ser mais decadente do que todos pela recusa mesma da decadência que é a “idolatria” de um estilo alheio às corrupção do tempo, às modas artísticas, à morte a que toda língua está condenada. Os espíritos ávidos de inovação e vanguarda não descobriram, pois, as vantagens de praticar um gênero tão despretensioso, tão antiquado, e cada vez mais raro, fadado ao silêncio e logo à desaparição, como a prosa (que pode ser mais ou menos poética). Os homens do futuro não serão “robôs elegíacos“, mas apenas robôs, reproduzindo memes e repetindo lugares-comuns com um número limitado de caracteres (“Olavo tinha razão”) . O espírito? Um preconceito, uma superstição, uma questão de programação neurolinguística. Até os robôs são capazes de pintar quadros e de fazer poesia. Inclusive filosofia. Referindo-se aos émigrés, esses “”forçados da pluma”, Cioran escreve:

Que sejam tão bons poetas quanto maus prosadores, decorre de razões bastante simples. Examinai a produção literária de qualquer pequeno povo que não teve a puerilidade de se forjar um passado: a abundância da poesia é seu traço mais notável. A prosa exige, para se desenvolver, certo rigor, um estado social diferenciado; e uma tradição: ela é deliberada, construída; a poesia surge, ela é direta, ou então totalmente fabricada; apanágio dos trogloditas ou dos refinados, ela só floresce aquém ou além, sempre à margem da civilização. Enquanto que a prosa exige um gênio definido e uma língua cristalizada, a poesia é perfeitamente compatível com um gênio bárbaro e uma língua informe. Criar uma literatura é criar uma prosa. (“Avantages de l’exil”, La tentation d’exister)

Foto: Cioran & Vasco Szinetar, poeta e fotógrafo venezuelano, numa selfie avant la lettre (1982)

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