Frederico Nietzsche (Renato Almeida)

Cad. Nietzsche, São Paulo, v.36 n.1, p. 187-195, 2015.

Resumo: Artigo publicado no diário carioca A Manhã, em 1944.* Tal como outros editados no mesmo ano, vem a público a propósito da celebração do centenário de nascimento do filósofo. Alegando certo irracionalismo e misticismo na obra de Nietzsche, o autor procura associar sua obra à política nazista. Em sua abordagem, se vale de comentadores como Spengler e Simmel.
Palavras-chave: Nietzsche – irracionalismo – misticismo – nazismo

Publicado no jornal A Manhã. Rio de Janeiro, 15 de Outubro de 1944, p. 04-06.
Autor: Renato Almeida (1895-1981), formado em Direito, folclorista, colaborou em vários periódicos, foi um dos fundadores da Comissão Nacional do Folclore.

Frederico Nietzsche nasceu há justo um século, em Röcken, não será celebrado hoje na Alemanha nazista, donde foi renegado por ser suspeito de sangue judeu. No entanto, sua moral, segundo a qual a força justifica todas as coisas, é a prática da Gestapo. Desde 1938, Himmler vem servindo o banquete dos eleitos, no qual os feches nazistas se veem repastando a tripaforra. Os cordeirinhos nacionais, a princípio, algumas aves circunvizinhas e depois o gado europeu, tudo foi abatido para o grande regabofe, no qual os fracos foram devorados impiedosamente.

E, sob a vigilância das brigadas da SS, os alemães tiveram de conciliar a existência do altruísmo sobre os princípios agnósticos, para satisfazer o bem coletivo, e do egoísmo sobre o altruísmo, para se superar e atingir a essa raça privilegiada, que deveria dominar o mundo. Essa moral pregada por Nietzsche não pode ser mantida exclusivamente pelas energias individuais, que acabam por se baralhar e se confundir, mas tem de ser garantida pelas forças de assalto e pelos gabinetes de tortura da Gestapo. Só dessa forma se criarão os fanáticos capazes de suster e morrer por essa ordem de coisas.

A loucura genial de Nietzsche, que desejou não ter escrito com palavras, mas com relâmpagos, tentou, em aforismos e epigramas, sintetizar a estranha teoria germanista da força e, ainda que lhe tivesse emprestado uma grande beleza estética, pois Nietzsche foi antes de tudo um artista, não lhe tirou nem a brutalidade nem a crueza. A apologia da rapina conduziria o mundo ao desencadear dessas forças, que Keyserling chama de telúricas, sob as quais os deuses do Wahalla nazista e seus profetas se afundarão no sinistro crepúsculo que se aproxima. A voz de Nietzsche será sempre ouvida pela sua vibração artística, mas a sua essência repugnará os homens do futuro, que só se terão superado se dominarem pela inteligência e pelo sentimento, os imperativos do instinto.. [PDF]

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