“O pensador de ocasião” – E.M. CIORAN

Há um duplo sentido implícito na fórmula: “Pensador de ocasião” tanto no sentido de não sê-lo por profissão ou por qualquer formalidade exterior, senão ocasionalmente, por acidente, ao ritmo de seus padecimentos e de suas tristezas, como também no sentido da expressão idiomática francesa que significa “usado”, “de segunda mão”, como os livros vendidos e comprados nos sebos.


“As ideias são os sucedâneos dos desgostos.”
MARCEL PROUST

Vivo na espera da Ideia, a pressinto, a cerco, apodero-me dela, e não posso formulá-la, ela me escapa, não me pertence ainda: a terei concebido em minha ausência? E como, de iminente e confusa, torná-la presente e luminosa na agonia inteligível da expressão? Que estado devo esperar para que ela floresça e murche?
Antifilósofo, abomino toda ideia indiferente: nem sempre estou triste, logo não penso sempre. Quando olho as ideias, elas me parecem ainda mais inúteis que as coisas; desse modo, só adorei as elucubrações dos grandes enfermos, as ruminações da insônia, os relâmpagos de um pavor incurável e as dúvidas atravessadas de suspiros. A quantidade de claro-escuro que uma ideia encobre é o único indício de sua profundidade, como o acento desesperado de sua alegria é o indício de sua fascinação. Quantas noites em claro esconde seu passado noturno? É assim que deveríamos abordar todo pensador. Aquele que pensa quando quer não tem nada a dizer-nos: está acima, ou melhor, à margem de seu pensamento, não é responsável por ele, nem está em absoluto comprometido com ele, pois não ganha nem perde ao arriscar-se em um combate em que ele mesmo não é seu próprio inimigo. Não lhe custa nada crer na Verdade. Não acontece o mesmo com um espírito para quem o verdadeiro e o falso deixaram de ser superstições; destruidor de todos os critérios, ele se constata, como os enfermos e os poetas; pensa por acidente: a glória de um mal-estar ou de um delírio lhe basta. Uma indigestão não é, por acaso, mais rica em ideias que um desfile de conceitos? As disfunções dos órgãos determinam a fecundidade do espírito: quem não sente seu corpo jamais será capaz de conceber um pensamento vivo: esperará inutilmente a surpresa vantajosa de algum inconveniente.
Na indiferença afetiva as ideias se delineiam; entretanto, nenhuma toma forma: cabe à tristeza oferecer um clima para sua eclosão. Necessitam de uma certa tonalidade, de uma certa cor para vibrar e iluminar-se. Ser durante muito tempo estéril é espreitá-las, desejá-las sem poder comprometê-las em uma fórmula. As “estações” do espírito estão condicionadas por um ritmo orgânico; não depende de “mim” ser ingênuo ou cínico: minhas verdades são os sofismas de meu entusiasmo ou de minha tristeza. Existo, sinto e penso ao azar do instante e apesar de mim mesmo. O Tempo me constitui; oponho-me em vão a ele – e sou. Meu presente não desejado se desenvolve, me desenvolve; como não posso controlá-lo, limito-me a comentá-lo; escravo de meus pensamentos, brinco com eles, como um bufão da fatalidade…

CIORAN, E.M., “O pensador de ocasião”, Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 1989.

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