“Fitzgerald: a experiência pascalina de um romancista americano” (E.M. Cioran)

A LUCIDEZ, em alguns, é um dado primordial, um privilégio e mesmo uma graça. Não têm necessidade de adquiri-la, de procurá-la: são predestinados a ela. Todas as suas experiências contribuem para torná-los transparentes diante de si mesmos. Atingidos pela clarividência, não sofrem com isso, de tanto que ela os define. Se vivem numa crise permanente, a aceitam com naturalidade: ela é imanente à sua existência. Em outros, a lucidez é um resultado tardio, o fruto de um acidente, de uma rachadura interior que ocorre em dado momento. Até então, fechados numa agradável opacidade, aceitavam suas evidências sem avaliá-las nem lhes pressentir o vazio. Ei-los desiludidos e como que involuntariamente engajados no caminho do conhecimento. Ei-los tropeçando entre verdades irrespiráveis, para as quais nada os preparara. Por isso, experimentam sua nova condição não como um dom, mas como um “golpe”. Nada preparara Scott Fitzgerald para enfrentar ou suportar essas verdades irrespiráveis. O esforço que fez para se acomodar a elas não deixa, contudo, de ser patético.

“Ao que tudo indica, viver é desmoronar progressivamente. Os golpes que derrubam você mais espetacularmente, os grandes golpes repentinos que vêm – ou parecem vir – do exterior, aqueles de que se lembra, por que se sente em tudo responsável e dos quais fala aos amigos nos momentos de fraqueza, esses, sobretudo, não deixam vestígio. Mas existe um outro tipo de golpe, vindo do interior, e que se percebe tarde demais para remediar. Apodera-se então de você, irrevogavelmente, a revelação de que nunca mais será o que era antes.”

Estas não são considerações de um romancista famoso, da moda… Este lado do paraíso, O grande Gatsby, Suave é a noite, O último magnata. Se Fitzgerald tivesse se limitado a esses romances, só ofereceria um interesse literário. Felizmente, também é o autor desta obra Crack-up, de que acabamos de dar uma amostra e onde descreve a sua ruína, sua única grande vitória.

Uma única obsessão o domina quando jovem: tornar-se um “successful literary man”. Consegue isso. Conhece a notoriedade e até uma glória merecida. (Coisa incompreensível para nós: T. S. Eliot lhe escreve dizendo ter lido três vezes O grande Gatsby!) O dinheiro o obseda: quer ganhá-lo e fala disso sem pudor. Em suas cartas, assim como em suas notas, repete isso o tempo todo, a tal ponto que, às vezes, nos perguntamos se estamos diante de um escritor ou de um homem de negócios. Não que eu deteste a correspondência em que se confessam problemas materiais. Prefiro-a mil vezes àquela – falsamente etérea – que os escamoteia ou os dissimula com poesia. Mas há a maneira e o tom. Como as cartas de Rilke, de que tanto gostava antigamente, agora me parecem exangues e insípidas! Nenhuma alusão é feita nelas ao lado mesquinho da pobreza. Escritas para a posteridade, sua “nobreza” me repugna. Nelas, os anjos estão perto dos pobres. Não acha que existe alguma descortesia ou uma ingenuidade calculada em discorrer sobre isso em cartas endereçadas a duquesas. Fingir-se espírito puro beira a indecência. Não acredito nos anjos de Rilke; e menos ainda nos seus pobres. “Distintos” demais, são desprovidos de cinismo, este sal da miséria. Enquanto isso, as cartas de um Baudelaire ou de um Dostoievski – cartas de pedintes – me comovem pelo tom suplicante, desesperado, arquejante. Sentimos que, quando falam de dinheiro, é que não conseguem ganhá-lo, que nasceram pobres e continuarão assim, aconteça o que acontecer. A pobreza lhes é consubstancial. Ambicionam muito pouco o sucesso, já que sabem que não poderiam alcançá-lo. Ora, o que nos constrange em Fitzgerald, no Fitzgerald do início, é que ele aspira a isso e o alcança. Mas, felizmente, o sucesso será apenas um desvio, um eclipse de sua consciência, antes do despertar para si mesmo, para a revelação de que não será nunca mais o que era antes.

Fitzgerald morre em 1940, aos 44 anos. Sua crise se situa por volta de 1935/36, época em que redige os artigos que formarão o Crack-up.[3] Antes dessa data, o acontecimento capital de sua vida continua a ser o casamento com Zelda. Juntos, levam a existência artificial dos americanos na Côte d’Azur. Mais tarde, qualificará sua estada na Europa: “sete anos de dissipação e de tragédia”, sete anos em que passaram em revista todas as extravagâncias, como que obcecados por um desejo secreto de se esgotarem, de se exaurirem interiormente. O inevitável acontece: Zelda mergulha na esquizofrenia e somente sobrevive ao marido para morrer no incêndio de um asilo de alienados. Dela, ele dissera: “Zelda é um caso, não uma pessoa.” Certamente queria dizer com isso que ela só interessava à psiquiatria. Ele, ao contrário, seria uma pessoa: um caso que pertence à psicologia ou à história.

“Muitas vezes, antigamente, a felicidade que sentia se aproximava de tal êxtase que não teria conseguido partilhá-la nem com a pessoa mais querida. Precisava levá-la comigo ao longo de ruas tranquilas e destilá-la em ínfimos fragmentos nas pequenas frases que escrevia. Creio que minha capacidade de ser feliz era excepcional. Não tinha nada de natural, era tão anormal quanto o período de prosperidade para a América. Do mesmo modo o que acaba de me acontecer corresponde a esta maré de desespero que engoliu a nação ao sair dos anos de opulência.”

Deixemos de lado a complacência de Fitzgerald em se julgar a expressão de uma “geração perdida” ou em interpretar sua própria crise a partir de dados exteriores. Porque esta crise, se decorresse unicamente de uma conjuntura, perderia toda importância. Pelo que têm de especificamente americano, as revelações do Crack-up só interessam à história literária, à história simplesmente. Enquanto experiências íntimas, no entanto, participam de uma essência, de uma intensidade que transcende as contingências e os continentes.

“O que acaba de me acontecer…” O que aconteceu à Fitzgerald? Ele vivera na embriaguez do sucesso, desejara a felicidade a qualquer preço, aspirara a se tornar um escritor de prestígio. No sentido próprio e no figurado, tinha vivido no sono. Mas eis que o sono o abandona. Começa a despertar e o que descobre em suas vigílias o enche de horror. Uma esterilidade lúcida o engole e paralisa.

A insônia nos concede uma clareza que não desejamos, mas para a qual tendemos inconscientemente. Exigimo-la apesar de nós, contra nós. Através dela – e à custa de nossa saúde – procuramos outra coisa, verdades perigosas, nocivas, tudo o que o sono nos impediu de vislumbrar. Entretanto, nossas insônias só nos libertam de nossas complacências e de nossas ficções para nos colocar diante de um horizonte fechado: elas esclarecem nossos impasses. Condenam-nos enquanto nos libertam: equívoco inseparável da existência da noite. Fitzgerald tenta, em vão, escapar dessa experiência. Ela o atormenta, o esmaga, é profunda demais para o seu espírito. Recorrerá a Deus? Detesta a mentira. Logo, não tem nenhum acesso à religião. O universo noturno se ergue diante dele como um absoluto. Também não tem acesso à metafísica. No entanto, será forçado a ela. Visivelmente não estava maduro para suas noites.

“Eis que sobrevém o horror como a tempestade. E se essa noite prefigurasse a que sucede à morte? Se o além fosse apenas um arrepio interminável à beira de um abismo para onde nos empurra tudo o que em nós é vil e corrompido e onde nos precedem a vileza e a corrupção do mundo? Nenhuma escapatória, nenhuma saída, nenhuma esperança, apenas as perpétuas repetições do sórdido e do semitrágico (…) Ou talvez esperar indefinidamente nos confins da vida, sem nunca poder transpor o limiar que nos separa dela. Quando o relógio toca quatro horas, sou apenas um espectro.”

Na verdade, com exceção do místico ou do homem entregue a uma grande paixão, quem está verdadeiramente maduro para suas noites? Podemos desejar perder o sono se somos crentes. Mas, sem nenhuma certeza, como permanecer horas e horas em colóquio consigo mesmo? Podemos acusar Fitzgerald de não ter percebido a importância da noite como ocasião ou método de conhecimento, como desastre enriquecedor, mas não podemos ficar insensíveis ao patético de suas vigílias, onde as “repetições do sórdido e do semitrágico” eram para ele a consequência de sua recusa de Deus, de sua incapacidade para ser cúmplice da maior fraude metafísica, da suprema mentira de nossas noites.

“O meio habitual de nos segurarmos, quando afundamos, é pensar naqueles que lutam contra a verdadeira miséria ou contra a doença: essa é uma forma cômoda de euforia ao alcance de todos nos momentos de depressão e um remédio salutar durante o dia. Mas às três horas da manhã o esquecimento de um embrulho assume proporções tão trágicas quanto uma condenação à morte: o remédio se torna inoperante. Ora, na verdadeira noite da alma, são eternamente três horas da manhã, dia após dia.”

As verdades diurnas não têm mais valor na “verdadeira noite da alma”. E Fitzgerald, em vez de abençoar essa noite como uma fonte de revelações, a amaldiçoa, a identifica com a sua desgraça e lhe retira todo valor de conhecimento. Faz uma experiência pascalina sem espírito pascalino. Como todas as pessoas frívolas, receia ir mais fundo nele próprio. Entretanto, uma fatalidade o impele para isso. Repugna-lhe dilatar o ser até os seus limites e os atinge involuntariamente. O extremo que alcança, em vez de ser o resultado de uma plenitude, é a expressão de um espírito partido: é o ilimitado da rachadura, a experiência negativa do infinito. Seu mal penetra até as próprias fontes da afetividade. Ele próprio falará disso, num texto que nos dá a chave de suas inquietações:

“Tudo o que buscava era a mais perfeita tranquilidade para descobrir por que me comportava tristemente diante da tristeza, melancolicamente diante da melancolia, tragicamente diante da tragédia, por que me identificava agora com os objetos do meu horror e da minha compaixão.”

Texto capital, texto de doente. Para compreender sua importância, tentemos definir por contraste o comportamento do homem são, do homem ativo. Concedamo-nos, para este fim, um excedente de saúde.

Por mais contraditórios e intensos que sejam os nossos estados, normalmente os dominamos, conseguimos neutralizá-los: a “saúde” é a capacidade que possuímos de guardar certa distância deles. Uma pessoa equilibrada sempre consegue escamotear suas profundezas ou atravessar seus próprios abismos. A saúde – condição da ação – supõe uma fuga diante de si, uma deserção de nós mesmos. Não há ato verdadeiro sem o fascínio do objeto. Quando agimos, nossos estados interiores só importam por sua relação com o mundo exterior. Não têm valor intrínseco. Desse modo, nos é permitido dominá-los. Se nos acontece estarmos tristes, nós o estamos por causa de uma determinada situação, de um incidente ou uma realidade precisa.

O doente procede de forma inteiramente diferente. Vive seus estados neles mesmos, sua tristeza tristemente, sua melancolia melancolicamente e toda tragédia ele a adota, experimenta tragicamente. É apenas sujeito e nada mais. Se se identifica com os objetos de seu horror ou de sua compaixão, esses objetos só constituem para ele modalidades diversas de si próprio. Ser doente é coincidir totalmente consigo mesmo.

“O menor gesto – escovar os dentes, jantar com um amigo – exigia agora de mim um esforço (…) Percebi que não sentia o amor que dedicava a meus semelhantes, mas me esforçava por senti-lo, e que nas minhas relações com o exterior (…) só utilizava a lembrança de gestos antigos.”

Se Zelda chegaria a conhecer o divórcio com o real em seu caráter irreparável, Fitzgerald teve a sorte de experimentá-lo sob uma forma atenuada: uma esquizofrenia para literatos… Acrescentemos que foi – nova sorte para ele – perito em selfpity. O abuso que fez dela preservou-o de uma ruína total. Não enuncio, com isso, um paradoxo. O excesso de autopiedade conserva a nossa razão porque essa concentração nas nossas misérias provém de um alarme da nossa vitalidade, de uma reação de energia, ao mesmo tempo que exprime um disfarce elegíaco do nosso instinto de conservação. Não tenha nenhuma piedade dos que têm piedade de si próprios. Eles nunca desmoronarão totalmente.

Fitzgerald sobrevive à sua crise sem superá-la completamente. No entanto, espera encontrar um equilíbrio entre o “sentido da inutilidade de qualquer esforço e o da necessidade do combate, entre a convicção do fracasso inevitável e o imperativo do êxito”. Seu ser, pensa, continuaria então seu trajeto como “uma flecha entre dois pontos do vazio e que só a gravidade poderia fazer retornar à Terra”.

Estes acessos de orgulho são acidentais. No fundo, gostaria de voltar, nas suas relações com os homens, aos subterfúgios da existência convencional. Gostaria de recuar. Para consegui-lo se imporá uma máscara.

“Um sorriso – sim, vou fabricar um sorriso para mim. Continuo a me empenhar nisso. Quero colocar nele toda a arte do hoteleiro, da velha corja mundana, do diretor de escola num dia de distribuição dos prêmios, do ascensorista negro…, da enfermeira que chega numa nova casa, da modelo que posa nua pela primeira vez, do figurante otimista que empurraram para a frente da câmera (…)”

Sua crise não deveria conduzi-lo nem à mística nem a um desespero final ou ao suicídio, mas à desilusão. “Um aviso Cave Canem está permanentemente pendurado na minha porta. Mas pelo menos tentarei comportar-me como um animal bem adestrado. Se você me jogar um osso com um pouco de carne em cima, irei até lamber a sua mão.” É suficientemente esteta para suavizar sua misantropia com a ironia e para dar uma nota de elegância à economia de seus desastres. Seu estilo desenvolto nos deixa entrever o que poderíamos chamar de o encanto da vida partida. Acrescentaria até que se é “moderno” enquanto se é sensível a este encanto. Reação de desiludidos, sem dúvida, de indivíduos que, incapazes de recorrer a um segundo plano metafísico ou a uma forma transcendente de salvação, se apegam a seus males com complacência, como a derrotas consentidas. A desilusão é o equilíbrio do vencido. E é como vencido que Fitzgerald, após ter concebido as verdades implacáveis do Crack-up, vai para Hollywood em busca do sucesso – sempre o sucesso, no qual, aliás, não podia mais acreditar. Ao cabo de uma experiência pascalina, escrever roteiros! Dir-se-ia que, nos seus últimos anos, só deseja comprometer seus abismos, depreciar suas neuroses, como se, no íntimo, se sentisse indigno da derrocada que acabara de sofrer. “Eu falo com a autoridade do fracasso”, dissera um dia. Mas, com o tempo, ele o degrada, faz com que perca todo o seu valor espiritual. Não devemos nos surpreender de forma alguma com isso: na “verdadeira noite da alma”, ele se debate mais como vítima do que como herói. Isso ocorre com todos os que vivem seu drama unicamente em termos de psicologia. Incapazes de perceber um absoluto exterior contra o qual lutar ou ao qual se submeter, recaem eternamente em si mesmos para vegetar, afinal de contas, abaixo das verdades que vislumbraram. São, repito, desiludidos. Porque a desilusão – recuo após um desastre – é a particularidade do indivíduo que não consegue se destruir por uma infelicidade, nem suportá-la até o fim para vencê-la. A desilusão é o “semitrágico” hipostasiado. E como Fitzgerald não conseguiu se manter à altura de seu drama não se poderia incluí-lo entre os grandes atormentados. O interesse que oferece para nós consiste precisamente nessa desproporção entre a insuficiência de seus meios e a dimensão da inquietude que viveu.

Um Kierkegaard, um Dostoievski, um Nietzsche sobrepujam suas próprias experiências, como também suas vertigens, porque valem mais do que aquilo que lhes “acontece”. Seu destino precede a sua vida. Não é o caso de Fitzgerald: sua existência é inferior ao que ela descobre. Ele só vê, no momento culminante de sua vida, um desastre que não o consola, apesar das revelações que extrai daí. O Crack-up é a “temporada no inferno” de um romancista. Com isso, não queremos de forma alguma diminuir a importância de um depoimento por si só perturbador. Um romancista que só deseja ser um romancista sofre uma crise que, durante certo tempo, o projeta para fora das mentiras da literatura. Desperta para algumas verdades que abalam suas evidências e o repouso de seu espírito. Acontecimento pouco frequente no mundo das letras, onde o sono é obrigatório, acontecimento que, no caso de que tratamos, não foi sempre compreendido na sua verdadeira significação. Assim, os admiradores de Fitzgerald deploram que tenha insistido em seu fracasso e que, de tanto se debruçar sobre ele e ruminá-lo, tenha estragado sua carreira literária. Nós, ao contrário, deploramos que não tenha sido bastante fiel a ele, que não o tenha aprofundado e explorado suficientemente. É próprio de um espírito de segunda categoria não poder escolher entre a literatura e a “verdadeira noite da alma”.

1955

3. The crack-up, textos autobiográficos, notas e aforismos publicados postumamente por New Directions (Nova York).

CIORAN, E.M., Exercícios de admiração. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.

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