“A árvore da vida” (E.M. Cioran)

NÃO É BOM que o homem se lembre a cada instante de que é homem. Debruçar-se sobre si já é um mal; debruçar-se sobre a espécie, com o zelo de um obsesso, é ainda pior: é dar às misérias arbitrárias da introspecção um fundamento objetivo e uma justificação filosófica. Enquanto se tritura seu eu, tem-se o recurso de pensar que se cede a um capricho; quando todos os eus se tornam o centro de uma interminável ruminação, encontram-se generalizados, por um desvio, os inconvenientes de sua condição, seu próprio acidente erigido em norma, em caso universal.

Nós percebemos primeiro a anomalia do simples fato de ser, e só em seguida aquele de nossa situação específica: o espanto de ser precede o espanto de ser homem. Entretanto, o caráter insólito de nosso estado deveria constituir o dado primordial de nossas perplexidades: é menos natural ser homem que simplesmente ser. Isto, nós o sentimos instintivamente; de onde essa volúpia todas as vezes que nos desviamos de nós mesmos para identificar-nos com o bem-aventurado sono dos objetos. Não somos realmente nós mesmos senão quando, colocados em face de si, não coincidimos com nada, nem mesmo com nossa singularidade. […]

Já que tudo o que foi concebido e empreendido desde Adão é ou suspeito ou perigoso ou inútil, que fazer? Dessolidarizar-se da espécie? Seria esquecer que nunca se é tão homem como quando se lamenta sê-lo. E este lamento, uma vez que se apodera de nós, não há como eludi-lo: torna-se tão inevitável e tão pesado quanto o ar… Certamente, a maioria respira sem se dar conta, sem refletir sobre; quando um dia o alento lhes faltar, verão como o ar, de repente convertido em problema, os obcecará a cada instante. Coitados daqueles que sabem que respiram, ainda mais dos que sabem que são homens. Sem condição de pensar em outra coisa, terão isso em mente por toda sua vida como obsessos, oprimidos. Mas merecem seu tormento, por ter buscado, apreciadores do insolúvel, um assunto torturante, um assunto sem fim. O homem não lhes dará sequer um momento de descanso, o homem tem caminho a percorrer… E como avança em virtude da ilusão adquirida, para deter-se seria necessário que a ilusão ruísse e desaparecesse; mas ela é indestrutível à medida que ele permanece cúmplice do tempo.

CIORAN, E.M., “L’arbre de vie”, La chute dans le temps (1964)

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