“O corpo do desconhecido” (Augusto Frederico Schmidt)

1950 - Correio da Manhã ano XLIX no 17448 31jan1950Há um trêcho do livro de Cioran (E. M.) — “Précis de décomposicion”, que é uma espécie de breviário da desesperança, em que êsse pasmoso escritor romeno nos fala do Cristo (e do Cristianismo) como de alguma coisa que está tocando ao seu fim: “Jesus se esvai: não só os seus preceitos corno a sua doçura irritam; seus milagres e a sua própria divindade prestam-se ao sorriso. A cruz começa a cair: de símbolo torna-se matéria… e como matéria retoma o caminho da decomposição em que perecem todas as coisas, as indignas e as honradas”.[1]

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Não sei, não conheço livro tão penetrado pelo desespêro em estado de indiferença como o de Cioran. O eco desse autor, em quem o lê, deve ser semelhante à surpresa que Nietzsche provocou nos seus contemporâneos, nos que de repente se encontravam com o espetáculo que nascia do pensamento do homem de Zaratrusta e da Genealogia da Moral. Mas Nietzsche suscitava a afirmação de certos valores perenes; um frêmito se desprendia dêsse temerário. Cioran, porém, convida ao abandono de qualquer indignação, à Indiferença gelada. Em lugar do Super-Homem, o homem-vazio, o homem sem mais curiosidade, resignado ao seu destino de apodrecer como os continentes e as estrelas…

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Espanta-se Cioran de ter sido cristão. A paisagem cristã é realmente desoladora. Mas quem desolou essa paisagem foi o próprio homem. Não houve uma decadência do cristianismo, mas decadência do homem cristão. O cristianismo se o pudéssemos ainda receber como os antigos o receberam, verificaríamos que não se adoçou demais nem se esvaziou. Há qualquer coisa de amargo ao contrário, no cristianismo e isso conservou até aqui intacta e pura a água da fonte que jorra há dois mil anos sôbre a humanidade. A desgostosa doçura, o que se decompôs enfim, foi o homem que insiste em chamar-se cristão sem o ser de verdade.

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O cristianismo é uma semente e o seu destino é morrer continuamente na terra humana, desfazer-se, perder-se e apodrecer para frutificar. Mas o que, no caso hoje apodreceu, foi a própria terra ou seja a alma do homem.

Essa sociedade mascarada de cristã, e que provocou o estado de enfermidade espiritual, de Cioran, é exatamente o contrário do cristianismo. É uma sociedade em que todos se perdem porque todos se querem salvar, não importa como, e sempre sòzinhos. “O cristianismo era urna comunhão”, escreveu alguém que bem conhecia a sociedade do Cristo, na sua realidade essencial, Péguy.

Todos se reuniam e eram um só na comunhão do Filho de Deus. O que importava salvar era o homem e não um homem, e por isso os seres se redimiam com as suas almas individuadas, como disse Newmann.

O cristianismo de nossos dias é o frontespício de uma casa que não mais existe: sem fundos, com o aspecto exterior apenas visível.

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Realmente a Cruz se Inclina. Mas há um Corpo que nela está pregado, e que se não decompôs e permanece na sua agonia noturna. Acontece, que é o Corpo de um Desconhecido.

SCHMIDT, Augusto Frederico, “O corpo do desconhecido”, Correio da Manhã, Rio de Janeiro, ano XLIX, no 17448, 31 de janeiro de 1950.

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[1] Trata-se do parágrafo inicial de “A cruz inclinada”: “Jesus torna-se cada dia mais insosso; tanto seus preceitos como sua mansidão irritam; seus milagres e sua divindade provocam sorrisos. A Cruz se inclina: de símbolo, volta a ser matéria…, e entra de novo na ordem da decomposição na qual perecem sem exceção as coisas indignas ou honoráveis.” CIORAN, E.M., Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 1995, p. 137.

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