“Tédio e decomposição” (Augusto Frederico Schmidt)

1950 Correio da Manhã ano XLIX no

Há poucos dias aqui nestas colunas citei uma passagem do livro de E. M. Cioran, “Précis de décomposition”, livro que é uma espécie de breviário de desespêro e da negação, escrito por um jovem romeno, um homem que naturalmente viu muitas coisas, que assistiu a essa demonstração Incrível da bestialidade dos seres humanos, a última guerra, que surpreendeu Cioran no início da sua mocidade.

Para êsse terrível autor a culpa das desgraças, das misérias, das contorsões dêste nosso tempo e dos outros tempos tem sua origem sempre nos homens de fé, nos que afirmam e nos que crêem. Dos céticos, dos espiritos sem sol ou sombra nunca vieram males maiores; são os ardentes, os afirmativos que geram os grandes males. São os reformadores que suscitem se demências, a volta às barbáries que pareciam ultrapassadas mas de repente retornam com as provocações dos que Cioran denomina os idólatras.[1]

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É um livro horrível o dêsse romeno admirador de Paul Valery, um livro desagregador, em cujas páginas não se sente sequer a tristeza da revelação de tão grandes desgraças, nem a infelicidade que vem dêsse duro conhecimento de que a humanidade é apenas um pouco de nada a espera continuamente, nas suas gerações sucessivas do nada. Cioran destrói as estrelas, os continentes e as almas, com um tom entre o lírico e o cínico.

A conclusão a que êle chegou sobre as coisas, como que representa uma vitória pessoal quanto ao resto, êsse resto que é a humanidade e as suas conquistas, o cristianismo e os seus mártires. Tôda a história do homem sobre a terra é farsa e amargura, resume Cioran, mas a descoberta dêsse segredo como que faz levitar o homem indiscreto que ousou arrancar a máscara de hipocrisia que esconde a verdadeira fisionomia do homem no mundo.

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Entre o que fizeram de mal os puros e o que praticaram os homens sem princípios, a balança da justiça se inclinaria do lado em que estão acumuladas as obras dos primeiros. Os desastres das épocas corrompidas têm menos gravidade que os flagelos causados pelas épocas ardentes, diz-nos, mal traduzindo, ou mesmo não traduzindo, Cioran na sua defesa da corrupção. E tudo é assim, uma sucessão de verdades sôbre a miséria, a vaidade, a inutilidade de todo o esfôrço, o bem que semeado faz frutificar, o equívoco, a desgraça, o mal; a Santidade é uma perversão, os Santos grandes perversos, as Santas grandes voluptuosas, e uns e outros transformaram a Cruz num vício. O que há, porém, de menos perigoso em Cioran é que no fundo de tôda essa luta para nada deixar de pé, podemos descobrir uma alegria feroz de ousar dizer tudo, de vencer as limitações e a grande timidez, de sentir-se desprendido de todos os sentimentos, nu diante de tudo, sem nenhum compromisso com o céo e a terra, dessacralisado inteiramente, o que sempre reflete uma certa ingenuidade nesse homem que se julga o mais lúcido e desabusado dos seres.

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Lendo êsse livro que não deve ser lido, porque é dos poucos que realmente fazem mal, lendo êsse triste livro em que tantas verdades são ditas, e em que a Verdade não raro se vela e esconde, lendo êsse livro pensei bem mais no ser que o escreveu do que nas coisas por êle escritas, nas afirmações, nas blasfêmias, nas realidades que contém êsse tratado da decomposição. Que espécie de menino, que infância terá tido E. M. Cioran? Quais os seus mortos, os que encontrou neste mundo ridículo e apodrecido ao nascer? Por que processo de decomposição terá passado êsse espirito para refletir na sua maturidade uma paisagem tão cheia de águas podres e de germinações azêdas? Que ofensas terá sofrido na sua infância e na sua adolescência êsse homem que se dispôs, em função de um ressentimento terrível, a perturbar e destruir, as ilusões que tecem a vida humana, que apagam os traços e sinais da presença do mal?

Terá conhecido Cioran algum amor desinteressado, alguma ternura materna — terá possuído um ser ao seu lado realmente solidário com as suas tristezas e suas desesperanças?

Quem ensinou a êsse lírico tantas coisas que melhor fôra não saber jamais? Quem pôs, nessa alma humana êsse Tédio quer seguindo o próprio possuído é o martírio dos que não vivem ou morrem por nenhuma crença? Uns matam o corpo dos outros; Cioran pretende matar a alma escrevendo o que escreve, mas o que faz realmente é confessar-se, é exibir a todo o mundo, as suas próprias chagas.

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SCHMIDT, Augusto Frederico, “Tédio e decomposição”, Correio da Manhã, Rio de Janeiro, ano XLIX, no 17453, 5 de fevereiro de 1950.

[1] Schmidt tem em mente o texto inaugural do Breviário de decomposição, “Genealogia do fanatismo”, em que se lê: “Idólatras por instinto, convertemos em incondicionados os objetos de nossos sonhos e de nossos interesses. […] No momento em que nos recusamos a admitir o caráter intercambiável das ideias, o sangue corre… Sob as resoluções firmes ergue-se um punhal; os olhos inflamados pressagiam o crime. Jamais o espírito hesitante, afligido pelo hamletismo, foi pernicioso: o princípio do mal reside na tensão da vontade, na inaptidão para o quietismo, na megalomania prometeica de uma raça que se arrebenta de tanto ideal, que explode sob suas convicções e que, por haver-se comprazido em depreciar a dúvida e a preguiça – vícios mais nobres do que todas as suas virtudes –, embrenhou-se em uma via de perdição, na história, nesta mescla indecente de banalidade e apocalipse… Nela as certezas abundam: suprima-as e suprimirá sobretudo suas consequências: reconstituirá o paraíso.” CIORAN, E.M., Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 1995, p. 11-12.

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