“O desespêro como mercadoria” – Pierre-Henri SIMON

Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, ano IV, no 785, 19-20 de julho 1952

Há épocas em que se gosta das coisas adocicadas. Os homens de 1900 ainda não tinham acabado de chupar as uvas do fauno malarmeniano, de mordiscar as peras do pomar de Anna de Noailles, de aspirar os doces polens das florezinhas campestres de Francis James. A própria ironia de Anatole France tinha um sabor de sobremesa: e até mesmo o niilismo soluçante de Pierre Loti e o romantismo de meu querido Barres tinham um não sei que de açucarado. Por volta de 1920, com o ceticismo radical de Valery, com a imaginação jansenista de Mauriac, e sobretudo com os produtos de farmácia surrealista, apareceu o sabor amargo: entretanto o novo produto não sabia bem a todos, visto que, Giraudoux ainda gostava de misturar a doçura das coisas simples ao picante das imagens sutis. Duhamel faz propaganda dos bons confeitos fabricados com os frutos de seu jardim, e o abade Brémond destia as flores dos dois São Francisco para produzir o “chartreuse” do humanismo devoto. Mas a próxima geração tem o paladar duro: Malraux, Sartre, Camus. Anouilh só lhe oferecerem bebidas amargas e acres que excitam ao queimar. Estava no seu direito. pois queriam despertar os homens. Mas, se não lhes proporcionamos nada mais do que isso, eis que os homens firam imunizados, adormecerão de novo, desta vez no coma de uma embriaguez triste, entrecortada de náuseas e pesadelos.

Onde quero chegar? Ao seguinte, que, se o tema da angustia, da dúvida radical e total sôbre o principio e o fim de tôdas as coisas, fôr manejado por espíritos subalternos, e que fabricam o desespêro como uma especialidade encomendada, pode provocar a desordem nas consciências fracas e irritar os leitores de boa fé. Assistimos ao triunfo literário de Job: mas entre tantos jobianos não existirão alguns farsantes?

Não quero dizer que E. M. Cioran seja um farsante: nem quero, à priori, suspeitar de sua sinceridade: teria um grande remorso se amanhã eu soubesse que ele se suicidara, visto que nos seus “Syllogismes de l’Amertume” faz-nos uma ameaça: para ele a água tem sempre “couleur de noyade” e declara-nos categoricamente: “No vivo porque está no meu poder morrer quando bem me aprouver: sem a idéia do suicídio já me teria matado há multo tempo”. É verdade que depois desta meditação tenebrosa ele se prende a um princípio menos extremo: “Sôbre o globo que forme nosso epitáfio, tenhamos bastante compostura para nos portarmos como cadáveres educados”. E. M. Cioran. que há dois anos, com seu “Précis de Décomposition” recebeu o prêmio Rivarol, exercita-se nesta brincadeira macabra fazendo frases que a bem dizer são construídas com maestria: cunhadas em forma de máximas, com imagens brilhantes e exatas. Cioran, que não crê em nada, crê certamente na literatura e especialmente na sua e, graças a Deus! pois esta futilidade talvez sirva para contrabalançar sua angústia e salvá-lo da vala comum.

Raramente tenho encontrado exemplo mais flagrante deste caso funesto: o de um jovem melhor dotado para escrever que para pensar e que pretende o contrário. Donde um tilintar de fórmulas soantes, tècnicamente bem feitas mas que não dizem nada de valor. “Todo problema, escreve por exemplo nosso Job rumeno, — pois este terrível desprezador dos valores do Ocidente descobriu-os na sua cultura e não no seu sangue — “todo problema profana um mistério: e por sua vez o problema é profanado pela solução”. Admito que um espírito que substitui um mistério por um problema cometa uma profanação: mas que significa a segunda parte da antítese, que a solução profana o problema? Exatamente nada. Desta maneira é querer persuadir-me que a atividade de meu pensamento não tem sentido, e que uma pedra no meu crânio seria melhor que um cérebro; sei perfeitamente que, se resolvi uni problema, fiz uma ação que tem um valor humano: eu lucrei e não profanei.

Nunca se terminaria de citar frases que ressoam muito mas que nada quebram. Já no “Precis de Décomposition” M. Cioran nos propõe esta poderosa definição do homem: “Um gorila que ao perder os pêlos substitui-os por ideias”. Hoje, aprendemos que o homem é “uma alma num escarro”; que a metafísica e a poesia são “impertinências de um piolho”. Deus não recebe um tratamento melhor: é o “fracassado dos altos”, o “último dos importunos”, e nem mesmo vale a pena dar-se ao trabalho de desfazer-se de Deus para cair em si, porque “de que vale esta substituição de cadáveres?”. Aprendemos também, ao ler Cioram [sic], que, o que faz um livro é a sua ferocidade: e como prova: “O prestígio do Evangelho, livro agressivo e peçonhento”. A piedade? “Vasculhe as catedrais: nelas só se ajoelha a inépcia”. E para vergonha de um pobre pensador que ousou apresentar este resumo da história da Igreja, imponho-me copiar estas seis linhas imbecis: “Para governar os homens, é preciso praticar seus vícios e juntar outros. Veja os papas: quando se entregavam ao incesto, assassinavam, êles dominavam o século; e a Igreja era toda poderosa. Desde que começaram a respeitar os princípios não fizeram senão decair; a abstinência, conto a moderação, lhes teria sido fatal: tornando-se respeitáveis ninguém mais os teme. Crepúsculo edificante de uma instituição!”

Tôda esta retórica do nada, todo êste cinismo forçado carece de densidade: deixamos a cem léguas da gravidade de Camus, da intensidade de Malraux, da cultura de Sartre. Ferro pintado de zarcão e na verdade ferro vermelho, mas este não queima! Tais são os “silogismos” desesperados de Cioran. Quanto ao seu ceticismo, é de um tal parti-pris que não chega a ser dramático. Que pensar de um espirito que afirma: “Nada estanca minha sede de dúvidas: tivera eu bastão de Moisés para fazê-las torrar do próprio rochedo!” Um espírito bem formado pode ter dúvidas mas nunca aspira tê-las, e tem pelo menos uma certeza, de que tudo não é incerto: razão pela qual o ato de pensar encontra sua dificuldade, sua utilidade e sua grandeza.


SIMON, Pierre-Henri, “O desespero como mercadoria”, Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, ano IV, no 785, 19-20 de julho 1952.

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