“Da dissolução” – Marco LUCCHESI

Revista Filosofia – Ciência & Vida, n. 161, abril 2020. Texto originariamente
publicado no livro Carteiro Imaterial. Editora José Olympio, Rio de Janeiro.

Lido por pensadores e escritores modernos, o filósofo romeno é conhecido por suas ideias sobre a morte, o desespero e o vazio. Mas como bem definiu Susan Sontag, o seu filosofar era “pessoal, aforístico, lírico e antissistemático”

Uma noite de inverno em Bucareste. Um amigo draculíneo destila ideias a respeito de Cioran, com algumas cartas do filósofo em mãos. Um copo de tsúica e a reiteração da matriz romena de Cioran e do diálogo deste com Ionescu e Eliade. Mas também Constantin Noica, de As seis doenças do espírito contemporâneo, Alexandru Dragomir, discípulo de Heidegger, e do profundo e incontornável Lucian Blaga. Parecia fundamental atingir os fantasmas romenos, de que estão impregnadas as ruínas de Cioran.
Nascido em Rășinari, em abril de 1911, no sul da Transilvânia, Cioran atinge sólida formação em Bucareste e na Alemanha. Segue depois para a França, em cuja língua passa a escrever desde então (esse idioma emprestado, com suas palavras sutis, carregadas de fadiga e pudor), deixando atrás de si uma importante bibliografia romena. De suas primeiras obras, ainda mal conhecidas entre nós, sublinho O livro das ilusões (Cartea amăgirilor), a que daria o subtítulo de um de seus capítulos: Mozart e a melancolia dos anjos. Considero aquelas páginas uma fantasia para cordas, como se fosse o primo consanguíneo de A origem da tragédia, nas grandes linhas melódicas que unem e separam as partituras dessas obras solitárias. Sobretudo na aurora (ou ocaso) de uma subjetividade prestes a se dissolver: “Somos tantos os que perderam o individual, a existência, que nossas solidões crescem sem raízes, como as algas abandonadas à mercê das ondas”.

Educação longitudinal

Das obras romenas, O livro das ilusões é aquele onde se define sua linguagem madura: as síncopes ou staccati de tirar o fôlego, os oximoros de alto impacto conceitual e as constelações de fragmentos, iluminados por suas virtudes potenciais. Um livro dolorosamente arrebatado, com a melodia-pensamento pautada da primeira à última frase na poesia de Eminescu.

Há em Cioran um cerrado confronto metafísico na esfera do trágico, em seu diálogo com Botta e Eliade, uma espessa dialética vizinha ao pensamento de Blaga. E certamente Nietzsche, Schopenhauer, Dostoievski. A educação filosófica de Cioran, além de longitudinal, revela-se articulada e cosmopolita. No fim da vida, reconhece uma herança gnóstica de velha cepa, que remonta à cultura balcânica: “por mais que desejasse libertar-me de minhas origens não consegui. Ninguém alcança libertar-se de si mesmo”.

Na história das formas breves, que dominaram o século XX, Cioran ocupa lugar de destaque. Disse de si mesmo que era um homem do aforismo. Seus fragmentos – como os cristais das Banalidades, de Dragomir, ou os grumos do Tractatus, de Wittgenstein – respiram uma condensada história da filosofia. Não passam de esplêndidas ruínas, arrancadas de passagens reflexivas, mediante o martelo filosófico de Nietzsche: cheias de brilho feroz, varadas pela sinergia das coisas incompletas.

Aposta na dúvida

Cioran não espera o socorro de um horizonte conceitual devastado, através de possível solução totalizadora, nem clama por um anjo capaz de preencher lacunas, ou de soprar, com sua trompa dourada, a melodia de um todo esquecido. Ao contrário, o filósofo ilumina a tensão de um pensamento propositadamente aerado ou disperso e advoga, como ninguém, a volúpia do insolúvel: “nunca tentei aplainar, reunir ou conciliar o irreconciliável”. Uma poderosa nuvem de fragmentos, portadora de tensão efervescente, jamais um sistema pronto e acabado. Daí sua inclinação pelas cartas de Nietzsche, onde brilha um discurso impreciso e tateante, fora do profético ou do absoluto de Zaratustra, diante de quem Cioran já não vibrava como outrora.

O programa desse não programa surge com o ensaio Uma forma especial de ceticismo, quando o jovem filósofo romeno dos anos 1930 aposta no excesso da dúvida:

“O valor do cético na Antiguidade media-se a partir da tranquilidade da alma. Por que não deveríamos criar, nós, que vivemos a agonia da modernidade, um ethos trágico, onde a dúvida e o desespero se confundissem com a paixão, com a chama interior, num jogo estranho e paradoxal?”

Para alguns estudiosos, aquele paradoxo levou o filósofo a atingir as afecções e as tonalidades emotivas da alma, assumindo um lirismo mitigado e uma inquietação irreversível, isenta de paz, sob uma ótica lúcida, diante do paroxismo das coisas que nos cercam. Não havendo salvação no plano da história ou da metafísica.

Únicas utopias legíveis

Nesse vasto percurso, como em Silogismos da amargura ou História e utopia, a dimensão do devir e a reserva de esperança deixam de fazer sentido na filosofia da história, nos modelos de Hegel ou Marx, para não falar das teologias da história, igualmente anódinas e ilusórias. “Há mais honestidade e rigor nas ciências ocultas do que nas filosofias que atribuem um sentido à história”. Cioran foge das grandes sínteses em que o sujeito se desfaz nos mares da abstração.

Nada se pode esperar. Nada se pode oferecer aos altares vazios da duração e da utopia. Acabou o tempo em que os faraós inscreviam seu nome na memória das rochas. Para Cioran os ciganos são o verdadeiro povo eleito: “triunfaram do mundo por sua vontade de não fundar nada nele”.

Aqui está todo um sentimento. Mais que um sistema. Cioran vive. Porque não reúne nem organiza. Dissolve. Apenas dissolve. E não corre poucos riscos aquele que dissolve, quando afirma que “as únicas utopias legíveis são as falsas, as que escritas por jogo, diversão ou misantropia, prefiguram ou evocam as Viagens de Gulliver, bíblia do homem desenganado, quintessência de visões não quiméricas, utopia sem esperança. Através de seus sarcasmos, Swift varreu a estupidez de um gênero até quase anulá-lo”.

Tarefa de Cioran

O que nos resta fazer, afinal, senão dissolver a tessitura da utopia, desfibrar-lhe os pontos de sua trama, purificá-la dos últimos resíduos de moralina? A utopia e o Apocalipse formam a dupla face dos tempos que correm. Ambos se contaminam mutuamente, criando, assim, um modo capaz de traduzir nosso inferno, ao qual havemos de responder com um sim, correto e desprovido de ilusão. Irrepreensíveis diante da fatalidade.

Cabe ressaltar ainda a boa tradução de José Thomaz Brum do pensamento de Cioran, com quem se correspondia em 1991, quando lhe publicou o primeiro livro no Brasil – Silogismos da amargura – alterando inclusive trechos do original, a pedido do autor, quando o visitou no apartamento da Rue de L’Odéon. Dentre outros estudos de Brum, sublinho O pessimismo e suas vontades: Schopenhauer e Nietzsche – tese de doutorado defendida em Nice e orientada por Clément Rosset. O que nos diz da forte ligação do tradutor com a sagrada família a que de algum modo pertence, sem de todo pertencer, o inclassificável Cioran.

Tiro de Breviário da decomposição o seguinte fragmento: “Uma caverna infinitesimal boceja em cada célula… meu sangue se desintegra quando os brotos se abrem, quando o pássaro floresce. Invejo os loucos sem remédio, os invernos do urso, a secura do sábio, trocaria por seu torpor minha agitação de assassino difuso que sonha crimes além do sangue”. Um assassino difuso para conter a febre das utopias e o delírio da história. Eis a tarefa de Cioran, que não hesitaria subscrever o poema Autorretrato, de Nichita Stănescu sobre o precário da humana condição: “Sou apenas uma mancha de sangue que fala”.

Humor à prova de franco

Emil Mihai Cioran morreu em Paris em 20 de junho de 1995. Seu obituário, publicado no jornal inglês Independent, foi assinado pelo também já falecido James Kirkup, poeta e membro da Sociedade Real de Literatura. Nele, Kirkup conta uma passagem da vida do filósofo que revela muito de sua personalidade. Trata-se de um fato ocorrido durante o regime franquista espanhol, cujo governo o acusou de ser ateu, blasfemador e anticristão. Tais declarações eram uma reação à sua obra O funesto demiurgo. O comentário de Cioran foi: “A Inquisição ainda não está morta”. Segundo Kirkup, ele alegou que o budismo era a sua única religião e a única filosofia que valia a pena. “Quando pontuei que ele havia nascido no mesmo dia de Buda, ele deu uma súbita rara e imediata risada de pura alegria. ‘Jesus está se vingando de nós por não ter morrido em um sofá’”.

Da redação

O AUTOR: Marco Lucchesi é poeta, escritor, ensaísta, tradutor e professor titular de Literatura Comparada na UFRJ. Foi editor das revistas Poesia Sempre, Tempo Brasileiro e Revista Brasileira. Curador de inúmeras exposições. Traduzido para mais de doze línguas. O vasto conjunto de suas obras recebeu diversos prêmios no Brasil e no exterior. Atualmente, entre outras atividades, é sócio honorário do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e presidente da Academia Brasileira de Letras. Ocupa a cadeira de no. 15.

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