Sobre Intuições, Pessimismos e Rótulos: a propósito de Bergson & Cioran

Schopenhauer afirmou que “ler significa pensar com uma cabeça alheia, em vez de pensar com a própria.” No fundo, pensa o filósofo alemão, “apenas os pensamentos próprios são verdadeiros e têm vida, pois somente eles são entendidos de modo autêntico e completo. […] Quem pensa por si mesmo só chega a conhecer as autoridades que comprovam suas opiniões caso elas sirvam apenas para fortalecer seu pensamento próprio, enquanto o filósofo que tira suas ideias dos livros, por sua vez, tem essas autoridades como ponto de partida.” (A arte de escrever)

Este ponto de vista manifestado por Schopenhauer pode ser descrito como intuitivo, intuicionista, adepto da intuição enquanto método e fonte principal de conhecimento, de descobertas. Henri Bergson é outro importante proponente do intuicionismo, embora na contramão do pessimismo schopenhaueriano. Entre os dois, intensivamente lidos e estudos, Cioran: ele também um filósofo da intuição, que, em favor da experiência intuitiva, viva e direta, sempre mais rica do que todos os conceitos e símbolos poderiam comunicar, foge dos rótulos, tanto de”pessimista” quanto de “niilista”. “Lá ele”, como se diz na Bahia.

O filósofo alemão, autor do Mundo como vontade e representação, fala dessa “necessidade metafísica” do ser humano, cuja racionalidade precisa encontrar um sentido, um significado para a existência que, em si, não possui nenhum sentido, nenhum significado.

Paralelamente a esta necessidade, seria o caso de pontuar uma outra, complementar: a necessidade linguística do ser humano. Penso na relação de dependência que nós mantemos com as palavras, sem a qual não existe nenhum mundo, nenhum ser, ou ao menos existe em suspenso, na virtualidade do silêncio.

Somos animais simbólicos, de linguagem. Desenvolvemos uma linguagem simbólica e abstrata não apenas em virtude de sua função comunicativa, mas como uma membrana, uma película, uma tela de proteção entre nós, nossa consciência subjetiva, e o caos sem nome nem sentido do mundo exterior.

Tudo o que nos interessa, tudo o que nos importa, e que nos é essencial, vital, nós dotamos de uma palavra, de um código de reconhecimento imediato pelo qual possamos nos sentir familiarizados com a coisa, numa relação segura, significativa e aparentemente imediata. A linguagem é um dispositivo – um artifício – de colonização – e domesticação abstrata – do real.

Cioran diz que é por falta de um apoio sólido que nos agarramos às palavras, essas “sombras de realidade”. O filósofo de origem romena é, em termos gerais, como Henri Bergson, um pensador intuitivo, “intuicionista”, por assim dizer: a modalidade de conhecimento que mais lhe importa não é o analítico, o especulativo, o positivamente científico, mas a intuição: o conhecimento direto e interior, conhecimento na experiência, experimental, que se caracterizaria antes como um processo de familiarização por coabitação, do que como um processo de exploração por análise e inquirição.

Segundo Bergson, a metafísica, na sua concepção, intuitivamente concebida, é a “ciência que pretende dispensar os símbolos”. O que significa que o intuicionismo bergsoniano pretende conhecer o máximo de coisas sem recorrer ao “apoio sólido” das palavras, no dizer de Cioran, ou ao menos dependendo o mínimo delas. A quantidade de conceitos e novos termos não pode superar a quantidade, a qualidade e a profundidade do conhecimento, das intuições.

Bergson foi um objeto de estudo filosófico privilegiado do jovem Cioran, estudante universitário na Universidade de Bucareste, tanto é que sua monografia de conclusão de licenciatura foi sobre o conceito de intuição bergsoniana. Mas o interesse do filósofo romeno pelo filósofo francês não resistiria à provação da insônia, atravessada naqueles mesmos anos universitários, e que faria Cioran deixar de acreditar, perder a fé na filosofia (nas soluções da filosofia, na filosofia como consolo), como ele mesmo conta, por exemplo, nas entrevistas. Cioran vira as costas a Bergson porque, segundo ele, “Bergson não viu que a vida, para manter-se, deve destruir-se”.

Mas, divergências trágicas ou pessimistas à parte, Cioran permanecerá sendo sempre um filósofo da intuição, como Bergson, mas de maneira invertida (negativa, niilista). Uma demonstração da afinidade eletiva entre os dois. Em sua Introdução à metafísica (primorosamente traduzida por Franklin Leopoldo e Silva), Bergson escreve:

Um empirismo verdadeiro é aquele que se propõe apegar-se o mais possível ao original mesmo, aprofundar-lhe a vida e, por uma espécie de auscultação espiritual, sentir palpitar sua alma; e este empirismo verdadeiro é a verdadeira metafísica. […] Um empirismo digno deste nome, um empirismo que só trabalha sob medida, se vê obrigado a despender um esforço absolutamente novo para cada novo objeto que estuda. Ele talha para o objeto um conceito apropriado somente ao objeto, conceito de que se pode dificilmente dizer que seja ainda um conceito, pois somente se aplica a uma única coisa. […] Enfim, a filosofia assim definida não consiste em escolher entre conceitos e em tomar partido entre as escolas, mas em procurar uma intuição única da qual descendemos aos diversos conceitos, pois nos colocamos acima das divisões de escolas.

Introdução à Metafísica (1903) – grifos nossos

Dito isso, o intuicionismo preconizado por Bergson, mas também aquele de Cioran, é a coragem de pensar por conta própria, de não se valer de empréstimos de terceiros, teorias, conceitos, ideias, para chegar a uma conclusão filosófica sobre o que quer que seja: a alma, a liberdade, o tempo, a vida e a morte, Deus… O intuicionismo faz se perguntar: o que eu penso, e o que sinto quando penso sobre determinada coisa? Como o concebo? O que significa para mim? Como dizê-lo?

Digamos que essa intuição única de que fala Bergson seja, no caso de Cioran, a intuição original da Queda, ou mais exatamente, da Queda no tempo, conforme ao título de um de seus mais importantes livros franceses. Não significa que Cioran pegou essa ideia de algum lugar, de um livro ou de um autor que já a tivesse pensado e formulado nestes termos (aliás, Camus tem um livro de título “A queda”). Cioran chegou à intuição da Queda por experiência, introspecção, ruminação solitária e independente.

Enfim, tudo isso para colocar em pauta, e problematizar, a questão do pessimismo. Em um jornal brasileiro, no ano de 1989, Cioran e Clément Rosset são juntados e misturados por um jornalista numa mesma gaveta, sob uma mesma etiqueta, de nome “pessimismo chique”, numa demonstração flagrante de uma atitude não intuitiva e contra-intuitiva por excelência, equívoco de quem antes recorre indiscriminadamente a pré-conceitos, clichés e classificações pré-concebidas e estéreis.

É claro que Cioran é um pessimista filosófico (metafísico), a exemplo de Schopenhauer, e um ponto, aliás, este, o pessimismo, pelo qual o filósofo romeno se aproxima e se distancia de Nietzsche. Mas entende-se bem porque Cioran recuse e negue, para si, esta descrição, esta classificação, quando um jornalista ou qualquer outro interlocutor, digamos nas entrevistas, a proponha como forma de definir a essência do pensamento de Cioran. Assim como nega, ainda mais, outro rótulo, outra classificação, ainda mais problemática e escorregadia, perniciosa, do que pessimismo: “niilismo”.

Na entrevista a Hans-Jurgen Heinrichs, Cioran diz: “Dizem de mim que sou pessimista – não é verdade! Essas categorias escolares são grotescas. Sei exatamente o que é o pessimismo.” Olha só Cioran negando que seja pessimista, e dizendo que sabe de que se trata o conceito em questão: ele tem em mente o pessimismo filosófico strictu senso, ou seja, a tradição de pensamento filosófico pessimista alemã, inaugurada pelo maravilhoso Schopenhauer. À qual, muito embora Cioran a tenha estudo a fundo e assimilado, ele mesmo não pertence. Cioran não é um filósofo ao modo dos filósofos pessimistas alemães, construtores de sistemas. Ele continua, e diz ao entrevistador:

Mas, como você acaba de dizer, há uma diferença fundamental entre o pessimismo como sistema e a experiência de vida de um ser vivente. Não se pode ser pessimista na vida, enquanto se vive: não tem nenhum sentido. Se é como todos os outros, e falo daqui das coisas vividas. Eu fiz a apologia do ceticismo e também a do pessimismo, mas isso não é importante. O que importa é o que se vive, o que se experimenta, e como isso é sentido.

Entrevista a Hans-Jurgen Heinrichs

Numa outra entrevista, Cioran – que, mesmo falando francês, costuma empregar palavras e conceitos em alemão para exprimir-se, haja visto Privat Denker, “pensador privado” –, numa outra entrevista, ele afirma: “Não sou pessimista, mas antes – como se diria? – um… experimentador, em francês o termo é consommateur, e o equivalente em alemão empregado, Geniesser: alguém que prova, experimenta, degusta, saboreia, mas sempre como diletante, sem mergulhar, sem aderir, sem transformar em sistema e em doutrina.

Para concluir, refutando e neutralizando a etiqueta cretina de “pessimismo chique”, e isso devolvendo-lhe um pessimismo intuitivo e inaudito, ainda pior do que o imaginado pelo jornalista contra-intuitivo, essa passagem do Inconveniente de ter nascido:

Deveríamos repetir a nós próprios todos os dias: Sou um daqueles que, entre milhares, se arrastam pela superfície do globo. Essa banalidade justifica qualquer conclusão qualquer comportamento ou acto: deboche, castidade, suicídio, trabalho, crime, preguiça ou rebelião.
…E daí se conclui que todos nós temos razão em fazer o que fazemos.

Do Inconveniente de ter nascido (1973)

Rodrigo Inácio R. Sá Menezes, 24 de maio de 2020

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