Cioran & Parmênides – Clément ROSSET

A Deusa de Parmênides faz do homem faz do homem um condenado à realidade, e um condenado inapelável, pois não existe nenhum tribunal habilitado para conhecer suas petições ou admoestações. O que existe é, de um lado, irrefutável em si e, de outro, refuta tudo o que seria outro: não há nenhum halo de alteridade ou de mistério que possa prestar assistência à estreita singularidade do que existe. Note-se que, contra os historiadores que costumam situar Parmênides e Lucrécio nos dois polos opostos da filosofia (ontologia e materialismo), a Deusa sob cuja invocação começa o De rerum natura de Lucrécio, Vênus, preludia a enunciação de uma verdade tão implacável e cruel como a anunciada pela Deusa de Parmênides: a natureza das coisas consiste nas coisas, e nelas apenas.

Este retorno forçado ao uno – ainda que se trate, como amiúde se admite, de uma entidade ontológica que transcender qualquer forma particular de existência, ou que se trate, como eu me inclinaria a pensar, da simples e irrefutável singularidade do que existe aqui e agora, hic et nunc – é expressado por Parmênides nos termos de um constrangimento absoluto, de uma lei da qual é impossível escapar. Um pacto inviolável, que Parmênides chama sucessivamente de Justiça, Necessidade, poderosa necessidade, lei, destino, faz com que o que é se subtraia tanto às injúrias quanto ao auxílio do que não é. Esta lei inapelável e ineludível não é outra que a lei geral da realidade, que encurrala infalivelmente toda coisa ou pessoa que com ela se misture, isto é, toda coisa ou pessoa desde o momento em que existe e se expõe assim ao inconveniente de ser, ou de ter nascido, como diria Cioran: expor-se a ser é condenar-se a não ser nenhuma outra coisa (por isso, como adverte uma vez mais Cioran, o que não existe oferece talvez menos realidade mas também muito mais “espaço” do que o que existe). As armadilhas ordinárias, por mais que se tenham aperfeiçoado, estão longe de serem infalíveis; podem funcionar mal e, em todo caso, na melhor das hipóteses, só pegam uma ou outra presa com o preço de deixar escapar tantas outras. A armadilha do real, por sua vez, não apenas funciona em todos os casos como não perdoa ninguém. Armadilha, portanto, duplamente traiçoeira, ainda que seja difícil falar de traição a propósito de uma armadilha que pega todo mundo por sua própria definição, e que portanto não pega ninguém de surpresa: mas o espírito dos homens está feito de tal modo que eles se consideram quase sempre traídos e surpreendidos por uma realidade que, não obstante, já se havia anunciado de antemão, e com todas as letras.

ROSSET, Clément, Principios de sabiduría y de locura. Trad. de Santiago E. Espinosa, Barcelona: Marbot ediciones, 2008.

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