Aforismos & textos comentados: “Obsessão do Essencial”

 

Todos os itinerários para fora do mundo reconduzem de volta a ele: o centrífugo é centrípeto. O tema desta primeira vídeo-análise de aforismos & textos de Cioran é “Obsessão do Essencial”, um texto-chave importantíssimo no conjunto do Breviário de decomposição, livro de estreia em francês do autor de origem romena, pois uma chave de compreensão do seu pensamento e da sua obra em diversos aspectos, camadas, níveis discursivos e reflexivos. Aqui desponta a influência de Lev Chestov sobre Cioran e é possível traçar outros paralelos e diálogos inauditos, a partir deste texto crucial, entre o autor do Breviário de Decomposição e outras figuras mais ou menos próximas a ele, como Maurice Blanchot (Escritura do desastre) e também Georges Bataille (A Experiência Interior).

 

“Obsessão do Essencial” [Hantise de l’Essentiel] é um dos muitos textos do Breviário de decomposição (1949):  livro decisivo e especialmente representativo – como um divisor de águas – no conjunto da obra de Cioran, dividida entre dois idiomas distintos. Tanto o Précis ocupa um lugar especial no conjunto da obra como um todo (como livro de virada, reviravolta, renascimento e recriação), como este texto – “Obsessão do Essencial” – também é especialmente importante no conjunto e na composição poética do Breviário de decomposição.

Muitos outros textos do Breviário, ou em qualquer livro de Cioran, são – como “Obsessão do Essencial” – claramente autorreferenciais (este na verdade nem tanto, ao menos não explicitamente, como sucede eventualmente em outros lugares em que Cioran emprega abertamente o pronome pessoal da primeira pessoa singular em francês, o “je”, quando não o on[1] ou mesmo do nous aberto). O Breviário, e a obra francesa em geral, mantém muitas passagens subterrâneas que vão dar em qualquer um dos livros romenos de Cioran, por exemplo, Nos cumes do desespero. Muitas vezes, a criação implícita, subtextual, dessas passagens se deve a uma necessidade de reparação, retratação, correção, ajuste de contas, às vezes a completa abjuração de algumas ideias e crenças, pensamentos e palavras, entretidas por Cioran em sua juventude “nos cumes do desespero”.

“Obsessão do Essencial”, que não é exceção a essa regra, é um texto especialmente importante no conjunto do Breviário, porque condensa e diz, em pouco mais de uma página, muito do próprio Cioran – e o faz, a exemplo do título, de maneira “essencial”: suas preocupações e seus dramas íntimos, sua concepção da atividade do pensamento e da busca filosófica pelo conhecimento da “verdade” (e o conhecimento que importa para Cioran, a exemplo de Chestov, a referência externa mais significativa aqui, não é o científico, objetivo, visto por eles como expressão de uma vontade de poder pelo saber, logo de dominação titânica). Há um texto de título “Dualidade”, no Breviário, mas “Obsessão do Essencial” comunica tanto quanto a respeito dessa dualidade quanto o referido texto.

Lev Chestov (1866-1938), o filósofo da existência judeu ucraniano, uma das influências mais importantes de Cioran e também das mais subestimadas (via de regra a favor da trivial influência nietzschiana[2]). Pois o “Essencial” em questão é a maneira cioraniana de designar isso que Chestov chama, tomando a fórmula grega de Plotino, to timiotaton,[3] “o mais importante”, “o que mais importa”, “o mais valioso” – ou seja, as questões e coisas primeiras e últimas,[4] em matéria de vida e morte e do elo existencial entre uma e outra, o sentido (ou sem-sentido) da existência, o mistério a unir, como siamesas, a vida e a morte… Poderíamos fazer recuar esse to timiotaton de Plotino à “filosofia primeira” de Aristóteles, ou seja, a metafísica, ainda que o neoplatonismo de Plotino possua um elemento fortemente místico (insondável, abismal) que está ausente da filosofia de Aristóteles.

Cumpre assinalar que a “obsessão do Essencial” (note-se a maiúscula alegórica) não é a única. Há muitas outras (pode-se mesmo pensar que tudo em Cioran é do plano da “obsessão”, da “paixão”, da “tara”), inclusive a obsessão divina, e também a diabólica (duas formas distintas de angústia e desespero segundo Kierkegaard), e a “obsessão do Essencial” seria assim como a última das obsessões, e talvez também, ao mesmo tempo, a última das ilusões: ponto-limite, possivelmente de não-retorno, que é um não-lugar, o vazio hipostasiado, aí onde o Essencial mal se distingue da Ilusão suprema (ilusão perigosa, desfavorável, prejudicial, à diferença de todas as outras).

“Obsessão do Essencial” pretende comunicar uma antinomia, um paradoxo, uma aporia, uma exigência infinita e uma impossibilidade última – de onde, como consequência existencial e espiritual, o fracasso, o naufrágio, o perfeito desastre (que não é senão a realização de si mesmo através da própria criação). Ou recuar a tempo…

NOTAS:

[1] Funciona tanto como a partícula reflexiva e neutra “-se”, acoplada ao final dos verbos (“reflete-se”, “contempla-se”), quanto no sentido de “a gente” para se referir a “nós” (primeira pessoa plural). Assim: On verra, “A gente verá” (“Veremos”). Cioran é um pensador existencial que fala, escreve e pensa por conta própria, de modo solitário, não como porta-voz de um grupo. Cioran não fala em nome de outrem, de ninguém que não ele mesmo: “O plural implícito de ‘se’ [on] e o plural confessado do ‘nós’ constituem o refúgio confortável da existência falsa. Só o poeta assume a responsabilidade do ‘eu’, só ele fala em seu próprio nome, só ele tem o direito de fazê-lo”, escreve ele no Breviário de decomposição (“Exegese da decadência”).
[2] Trata-se tampouco de desmerecer ou subestimar a influência (enorme) de Nietzsche sobre Cioran, menos ainda Nietzsche em si. Influência “trivial” por ser uma platitude, senso comum (beirando às vezes o patetismo e a mediocridade do cliché, da caricatura, do estereótipo que, como o nome mesmo diz, é estéril) em se tratando de hermenêutica cioraniana. Há muitas outras influências que co-incidem sobre a formação intelectual de Cioran para além de Nietzsche (que alguns intérpretes fazem parecer que é a única), muitas tão importantes e decisivas quanto o “filósofo do martelo”, como Chestov (leitor de Kierkegaard, Dostoiévski, Tolstói e Nietzsche, algumas de suas principais influências).
[3] Superlativo do adjetivo grego timios: “valioso”, “importante”.
[4] É interessante notar que Chestov publicará em russo, em 1908, um livro de título “Penúltimas palavras”.
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