Aforismos & textos comentados: “Adeus à filosofia”

Em homenagem ao aniversário de 25 anos do falecimento do filósofo (8 de abril de 1911 – 20 de junho de 1995)

Trata-se de uma leitura aprofundada e expandida, crítica e comentada, do texto de Cioran intitulado “Adeus à filosofia”, parte integrante do Breviário de decomposição, seu primeiro livro escrito em francês, uma vez tendo abandonado para sempre seu idioma materno, o romeno. Como “Obsessão do Essencial”, que tivemos a oportunidade de ler e comentar anteriormente, “Adeus à filosofia” é um texto importantíssimo no conicaesforçará para dominar e usar com maestria).

Como “Obsessão do Essencial”, “Adeus à filosofia” é uma chave hermenêutica especialmente importante de acesso ao pensamento vivo de Cioran, recomeçando sua obra em francês. O “Adeus à filosofia” em questão não equivale em absoluto ao abandono definitivo, de uma vez por todas, de toda e qualquer forma de filosofia, de toda e qualquer preocupação filosófica: trata-se do “Adeus” a uma certa filosofia (acadêmica, escolástica, universitária, em última instância profissional), de Platão a Heidegger, e, uma vez que essa filosofia (“oficial”, “clássica”, “grande filosofia”) é vista por seus proponentes, a despeito de quaisquer divergências entre suas teorias, a única forma válida e como que a totalidade da filosofia, toda outra expressão de logos filosófico é desqualificada, invalidada de antemão. Este preconceito não é incomum na Academia – para o seu azar, tanto quanto senão mais do que para azar aqueles e aquelas que são “cancelados” ou “censurado” na Academia (que se assemelha assim, por sua carga ideológica, à Igreja com sua fiscalização de consciências).

Primeira observação importante: este texto serve para sinalizar que o “Adeus” em questão não equivale em absoluto à suposta misologia (aversão e ódio ao conhecimento, à razão, ao logos) de um suposto irracionalista de plantão. Nada mais capcioso, pernicioso, do que acusar Cioran de irracionalismo e misologia, quando ele mesmo, antes de sofrer tais acusações, já havia se apresentado e afirmado como um crítico dos racionalismos diversos, de Platão a Aristóteles a Descartes, Kant e Hegel, e também um crítico do cientificismo, do fetiche do saber instrumental que facilmente degenera em “saber é poder” – lema por excelência do capitalismo informacional, do mundo industrial 4.0, e sua ascendente ideologia tecnocrática do “dataísmo”.[1]

Misologia é o que se encontra no nosso ex-ministro da deseducação, o sr. Weintrouble, o perfeito filisteu e misólogo, inimigo da filosofia e das ciências humanas, do saber pelo saber, e o perfeito tecnocrata de viés economicista. Que mal terrível este desgoverno Bozo – com sua equipe técnica de notáveis – está causando para o Brasil! Nem uma legião de Ciorans seria capaz de tanta destruição! Irracionalista (e fanático) é o bolsonarismo, não Cioran. Milosogia é repetir “Olavo tem razão, talkey?” (sic). Quanta cretinice, quanto filistinismo! A propósito: existem 2 tipos de cretinos olavistas: os que leram Olavo, e os que não leram.

Segunda observação importante: o “Adeus à filosofia” não é de hoje, quero dizer que não é uma decisão, um movimento de ruptura contemporâneo da composição do Précis de décomposition e portanto inatual no contexto dos escritos romenos de juventude. Como “Obsessão do Essencial” e tantos outros textos ou aforismos de tantos outros livros franceses, “Adeus à filosofia” possui muitas passagens subterrâneas e secretas com mais de um livro romeno de Cioran: por exemplo, Nos cumes do desespero (1934) e O livro das ilusões (1936).

Assim, esse goodbye ou farewell já se encontra anunciado – não com este título, nem nos mesmos exatos termos – em Nos cumes do desespero. Veja-se, por exemplo, os dois textos consecutivos, neste livro, intitulados “Êxtase” e “O mundo em que nada se resolve” (p. 50-54) Ele será reafirmado a cada novo livro, a começar pelos seguinte, O livro das ilusões. Vale a pena evocar as palavras de Cioran a Sylvie Jaudeau, na entrevista publicada em português pela editora Sulina. É uma anamnese, uma reminiscência de seus anos de juventude, da provação da insônia e de como ela revirou sua vida de ponta cabeça para baixo, fazendo-o reconsiderar a centralidade (a importância, a “essencialidade”) da filosofia acadêmica em sua vida e em seu projeto lírico-criativo. Até então, ele havia sido um entusiasta da filosofia, orgulhoso de estudar Kant, Hegel, Heidegger e saber manejar seus conceitos:

Estava apaixonado por meus estudos, confesso mesmo que andava intoxicado pela linguagem filosófica [conceitos], a qual considero agora como uma verdadeira droga. Como não se deixar abater e mistificar pela ilusão de profundidade criada por essa linguagem? Traduzido em linguagem comum, um texto filosófico esvazia-se estranhamente. Seria preciso submeter todos a essa prova. O fascínio exercido pela linguagem explica, na minha opinião, o sucesso de Heidegger. Manipulador sem igual, ele possui um verdadeiro gênio verbal que o leva, contudo, longe demais. […] Precisamente esse excesso despertou as minhas dúvidas quando, em 1932, lia Sein und Zeit. A vaidade de tal exercício saltou-me aos olhos. Pareceu-me que pretendiam iludir-me com palavras. Devo agradecer a Heidegger por ter conseguido, com sua prodigiosa inventividade verbal, abrir-me os olhos. Compreendi o que era preciso evitar a qualquer preço.[2]

Aqui, é Heidegger que aparece como antimodelo, exemplo negativo do que evitar e do que não fazer. Mas Heidegger não é evocado em “Adeus à filosofia”. Então, leiamos o texto, vejamos quais antimodelos filosóficos, objetos de certo desprezo poético, ele evoca, o que ele comunica e de que maneira dialoga, atualiza, ressignifica, essa mesma decisão, esse mesmo movimento (o “Adeus”), conforme se dão a conhecer desde os primeiros livros romenos de Cioran. Começa assim: “Afastei-me da filosofia no momento em que se tornou impossível para mim descobrir em Kant alguma fraqueza humana, algum acento de verdadeira tristeza; em Kant e em todos os filósofos.”[3]

Kant é, não apenas para Cioran como para muitos outros intelectuais romenos da Tanara Generatie de 1927, incluindo Mircea Eliade e Petre Tutea, o exemplo do grande filósofo autor de uma grande obra e proponente de uma grande teoria do conhecimento, mas sem uma vida (nem trágica, nem cômica) – portanto, absolutamente desinteressante e decepcionante do ponto de vista vital, da vivência, e existencial, da existência (critério fundamental de interesse intelectual de Cioran). As grandes obras de espíritos desencarnados, “sujeitos puros do conhecimento”, perfeitamente transcendentais!

Comparada à música, à mística e à poesia, a atividade filosófica provém de uma seiva diminuída e de uma profundidade suspeita que guardam prestígios somente para os tímidos e os tíbios. Aliás, a filosofia – inquietude pessoal, refúgio nas ideias anêmicas – é o recurso de todos os que se esquivam à exuberância corruptora da vida. Quase que todos os filósofos terminaram bem: é o argumento supremo contra a filosofia. O fim do próprio Sócrates não tem nada de trágico: é um mal-entendido, o fim de um pedagogo – e se Nietzsche soçobrou, foi como poeta e visionário: expiou seus êxtases, não seus raciocínios.[4]

A filosofia é ressignificada, retoricamente, como o suprassumo da inautenticidade e da covardia diante da “exuberância corruptora da vida”: sempre indireta, descolada da realidade por uma mediação conceitual infinita, “inquietude impessoal”, refúgio nas ideias anêmicas”, recurso dos “tímidos” e dos “tíbios”. Cioran exalta a música, a mística e a poesia como modelos discursivos e criativos ideais, mais adequados que o discurso filosófico para comunicar e transmitir certas intuições, certas “verdades” que fariam qualquer sistema explodir e, junto com ele, a cabeça do filósofo que o construiu. Inclusive Schopenhauer é demasiado filósofo, racionalista, um espírito do sistema, sistemático como Hegel, ainda que nas antípodas do autor da Fenomenologia do Espírito em matéria de pessimismo. Schopenhauer teoriza o sofrimento e as “dores do mundo”, mas pouco ou nada transparece no sentido de estar exposto e ser afetado por isso – o sistema é a perfeita fortaleza… abstrata.

É interessante intercalar este texto com certas passagens do Livro das ilusões, a propósito da relação entre filosofia por um lado, poesia, mística e música por outro. Porque de fato “Adeus à filosofia” é a continuação e atualização, agora em francês, de um mesmo movimento ou itinerário em direção e busca do  que seria “o Essencial”, movimento ou itinerário iniciado ainda na Romênia, escrevendo em romeno. Não há sombra de dúvidas de que, em grande medida, Cioran se reescreve em francês, traduz a si mesmo e suas intuições, originalmente romenas, ao idioma de Baudelaire. Nos cumes do desespero possui textos de mesmo título que o Breviário de decomposição.

A constatação decepcionada de que “quase todos os filósofos terminaram bem”, logo no primeiro parágrafo de “Adeus à filosofia”, aparece formulada ipsis litteris no Livro das ilusões: “Não observastes que todos os filósofos acabam bem?” Isto deveria nos dar o que pensar. No entanto, só poucos entenderão este prodígio. Quem o tiver entendido poderá contemplar os filósofos como quem contempla suas lembranças.”[5]

E mais um pouco do Livro das ilusões: “Como a vida se converte no valor supremo”, escreve o jovem pensador romeno inspirado por Nietzsche, antecipando certamente essa “exuberância corruptora da vida” colocada em pauta no Breviário.

A veneração pelas mulheres; a reabilitação do Eros como divindade; saúde natural, transfigurada pela delicadeza; o fervor da dança em todos os atos da vida; graça em vez de pesar sorriso em vez de pensamento; entusiasmo em vez de paixão; a distância como finitude; a vida como único Deus, única realidade e único culto; o pecado como crime e a morte como vergonha. … Todo o resto é apenas filosofia, cristianismo e outras formas de queda.[6]

Algumas páginas depois, lemos:

Não existe filosofia criadora. A filosofia não cria nada. Quero dizer que ela pode nos apresentar um novo mundo, mas não o faz nascer nem o fecunda. Tudo o que dizem os filósofos parece pertencer a um passado remoto; nenhuma obra de arte teria tido de existir porque toda obra de arte é um mundo no mundo e, consequentemente, não tem sua razão de ser em nosso mundo. Nenhum sistema filosófico me deu o sentimento de um mundo independente de tudo o que não é ele. É doloroso, mas é assim: podeis ler todos os filósofos que quereis, nunca sentireis que vos tornastes um outro homem. Naturalmente, entre os filósofos excluo Nietzsche, que é muito mais que um filósofo.[7] (p. 163-164)

Nietzsche é portanto “muito mais que um filósofo” e, se ele soçobrou na noite da loucura antes dos cinquenta anos, “foi como poeta e como visionário”, não como filósofo: Nietzsche “expiou seus êxtases, não seus raciocínios”. O fenômeno Nietzsche – de natureza titânica e insólita, tão inadequado e deslocado no mundo como a obra de arte que, sendo “um mundo no mundo”, “não tem sua razão de ser no mundo” – excede a si mesmo (e excede a si mesmo enquanto filósofo, filosofia).

Antes de retornarmos ao “Adeus à filosofia”, uma importante passagem da versão integral de Lágrimas e Santos (edição espanhola, Hermida editores), suprimida por Cioran – sabe-se lá por que motivo – da edição francesa redux:

A meditação musical deveria ser o protótipo do pensamento em geral. Por acaso algum filósofo seguiu um motivo até o fundo, até tocar o seu limite e esgotá-lo, tal como faz um Bach ou um Beethoven? O pensamento exaustivo só existe na música. Depois de ler os pensadores mais profundos, sentimos a necessidade de recomeçar do zero. Só a música dá respostas definitivas. Aonde conduziram tantas reflexões sobre Deus? A repetir as mesmas evidências, argumentos e absurdidades. Não sabemos o que pensaram os mais solitários sobre ele; mas tudo o que sabemos não vale um acorde de órgão. Parece que pelo pensamento não se pode esgotar um motivo e que sobre o tema de Deus existem variações infinitas. Desde Jó até Rilke não se pôde romper com a palavra a crosta que o insensibiliza e o torna refratário às fórmulas inexoráveis. O pensamento e a poesia o intimidaram, mas não liquidaram nenhum dos mistérios que o envolvem. E conseguimos assim enterrá-lo com todos os seus mistérios. Uma aventura alucinante, em primeiro lugar a de Deus, e depois a nossa.[8]

Perceba-se que o autor evoca aqui, como em tantos outros lugares, inclusive no Livro das ilusões, inclusive no Breviário, no texto em questão, a figura bíblica de Jó: o sofredor por excelência, acometido de todos os flagelos e todas as maldições. A filiação-Jó de Cioran é um signo de sua inscrição filosófica numa tradição de pensamento existencial que remonta a Kierkegaard, por intermédio de Chestov (leitor de Kierkegaard e de Nietzsche, e também de Dostoiévski), sendo Chestov e não Kierkegaard quem mais importa para Cioran. Originalmente, na história da filosofia moderna, reivindicar a “paternidade” de Jó, e não de Sócrates, digamos, é um statement filosófico de cunho existencial e um parti-pris em favor da vida e da existência subjetiva, em detrimento da razão pura, do espírito dialético e pretensamente absoluto, do racionalismo moderno em suma, Hegel em primeiro lugar (mas também Kant). Em Kierkegaard et la philosophie existentielle (1936), de Chestov, há um capítulo intitulado “Jó e Hegel”. Segundo Chestov:

Buscar a verdade em Jó equivale a pôr em dúvida os fundamentos e princípios mesmos do pensamento filosófico. Pode-se preferir qualquer filósofo a Hegel, opor-lhe Leibniz ou Espinoza, ou os antigos. Mas substituir Hegel por Jó significa transtornar o curso dos tempos, retornar a uma época situada a milhares de anos mais no passado, quando os homens sequer suspeitavam de tudo o que nos tem proporcionado nossos conhecimentos e nossa ciência. […] Pode-se venerar Sócrates, mas uma alma atormentada não pode encontrar nele resposta para suas perguntas.[9]

Agora estamos bem munidos de repertório e informação contextual, tanto interna à própria obra de Cioran (precedentes romenos) quanto externa a ela (Chestov e Nietzsche contra o racionalismo moderno), para retomarmos o “Adeus à filosofia”. Como “Obsessão do Essencial”, este é um texto de inspiração profundamente chestoviana, tanto quanto nietzschiana, se não mais!

Objeção de Cioran, de cunho vitalista e existencial-intuitivo, à filosofia, de Platão a Kant e Hegel: “Não se pode eludir a existência com explicações, só se pode suportá-la, amá-la ou odiá-la, adorá-la ou temê-la, nessa alternância de felicidade e de horror que exprime o ritmo mesmo do ser, suas oscilações, suas dissonâncias, suas veemências amargas ou alegres.”[10]

Não é outra coisa em questão senão a assim-chamada “filosofia lírica” enunciada em Nos cumes do desespero. Outra expressão elucidativa dessa forma de “fazer filosofia”, ou simplesmente de pensar (a realidade, a existência, o homem, o mundo), sempre intuitiva, para o bem e para o mal, encontra-se nos Silogismos da amargura (1952): “O pensamento que se liberta de todo preconceito se desagrega e imita a incoerência e a dispersão das coisas que quer apreender. Com ideias ‘fluidas’ podemos nos espalhar sobre a realidade, aderir a ela, mas não explicá-la. Assim, paga-se caro o “sistema” que não se desejou.”

Continuando o “Adeus à filosofia”: “Quem não está exposto, por surpresa ou por necessidade, a uma derrota irrefutável, quem não ergue então as mãos em prece para logo deixá-las cair ainda mais vazias que as respostas da filosofia? Diríamos que a sua missão é nos proteger enquanto a inadvertência da sorte nos deixa caminhar aquém da desordem, e nos abandonar quando somos obrigados a mergulhar nela.”

Eis uma confissão disfarçada: é Cioran que está exposto, ‘por surpresa ou necessidade, a uma derrota irrefutável”: statement (trágico, cético ou pessimista, talvez niilista, talvez místico) de uma falência da razão (leia-se da razão racionalista, autossuficiente e prepotente, de Descartes a Hegel e os idealistas alemães, por exemplo Fichte com sua noção, ao mesmo tempo racionalista e romântica, de um “eu absoluto”). É por esse statement, por essa declaração de uma “derrota irrefutável” que Cioran se juntaria, a julgar por Camus, a essa suposta “tradição do pensamento humilhado”, ou da “razão humilhada”, que começaria em Kierkegaard e continuaria em filósofos existenciais de aspiração mística (o que, para Camus, é sempre uma confissão de “irracionalismo”, o não deixa de relevar ao mesmo tempo certa cumplicidade de Camus com certo racionalismo, talvez cartesiano).

Tanto quanto “Obsessão do Essencial”, “Adeus à filosofia” sugere uma forte afinidade de Cioran com Chestov (de onde a filiação Cioran-Chestov-Kierkeegaard-Jó), em matéria de pensamento, filosofia e modelos discursivos, mais do que uma afinidade do autor romeno com Nietzsche (que Cioran lê e recepciona diretamente, lendo-o no original, mas também pelo desvio na leitura que Chestov faz de Nietzsche). Assim, há no mínimo 2 Nietzsches que importam e interessam a Cioran: o Nietzsche nietzschiano, o próprio, e o chestoviano. Enfim, “Adeus à filosofia” dá a conhecer um Cioran mais chestoviano que nietzschiano (diferentemente do Livro das ilusões):

O exercício filosófico não é fecundo; é apenas respeitável. Sempre se é filósofo impunemente: um ofício sem destino que enche de pensamentos volumosos as horas neutras e desocupadas, as horas refratárias ao Antigo Testamento, a Bach e a Shakespeare. E esses pensamentos, por acaso, se materializaram em uma só página equivalente a uma exclamação de Jó, a um terror de Macbeth ou à altura de uma Cantata?[11]

Modelos de pensamento e de estilo: Jó (mística), Shakespeare (tragédia) e Bach (música) – eis a trindade essencial-existencial para Cioran, em torno das quais se desenrola a vida humana: entre “o horror do irreparavelmente já visto e já sabido desde sempre”, por um lado, e a visão interior, a revelação extática (“pois a função dos olhos não é ver, mas chorar, e para ver realmente é preciso fechá-los: é a condição do êxtase, da única visão reveladora, enquanto que a percepção esgota-se no horror do já visto (déjà vu), do irreparavelmente sabido desde sempre.”[12]

Eis, enfim,  um Cioran bastante chestoviano (mais que nietzschiano), e mesmo admitindo-se a atualidade de certo “nietzschianismo” no Breviário e demais livros franceses, ela é amiúde filtrada e ressignificada mediante a leitura que Chestov faz do filósofo do martelo. Eis o resto de “Adeus à filosofia”, até o fim:

Os verdadeiros problemas só começam após havê-la percorrido ou esgotado, após o último capítulo de um imenso tomo, que põe o ponto final em sinal de abdicação ante o Desconhecido, onde se enraízam todos os nossos instantes, e com o qual precisamos lutar, porque é naturalmente mais imediato, mais importante que o pão cotidiano. Aqui o filósofo nos abandona: inimigo do desastre, ele é sensato como a razão, e tão prudente quanto ela. E ficamos em companhia de um velho pestilento, de um poeta instruído de todos os delírios e de um músico cuja sublimidade transcende a esfera do coração. Só começamos a viver realmente no final da filosofia, sobre suas ruínas, quando compreendemos sua terrível nulidade, e que era inútil recorrer a ela, incapaz de qualquer auxílio.

(Os grandes sistemas, no fundo, são apenas brilhantes tautologias. Que vantagem há em saber que a natureza do ser consiste na “vontade de viver”, na “ideia”, ou na fantasia de Deus ou da Química? Simples proliferação de palavras, sutis deslocamentos de sentidos. O que é repele o abraço verbal, e a experiência íntima não nos revela nada além do instante privilegiado e inexprimível. Aliás, o ser mesmo não é mais que uma pretensão do Nada.
Só se define por desespero. É preciso uma fórmula, é preciso mesmo muitas, nem que seja para dar uma justificação ao espírito e uma fachada ao nada.
Nem o conceito nem o êxtase são operativos. Quando a música nos submerge até as “intimidades” do ser, voltamos rapidamente à superfície: os efeitos da ilusão se dissipam e o saber revela-se nulo.
As coisas que tocamos e as que concebemos são tão improváveis quanto nossos sentidos e nossa razão; só estamos seguros em nosso universo verbal, manobrável a nosso bel-prazer, e ineficaz. O ser é mudo e o espírito, tagarela. Isso se chama conhecer.
A originalidade dos filósofos se reduz a inventar termos. Como só há três ou quatro atitudes ante o mundo – e mais ou menos outras tantas maneiras de morrer –, as nuanças que as diversificam e as multiplicam só dependem da escolha de vocábulos, desprovidos de todo alcance metafísico.
Afundamos em um universo pleonástico, onde as interrogações e as réplicas se equivalem.)[13]

20/06/2020

[1] HAN, Byung-Chul, “Acontecimento”, Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder, p. 98. HARARI, Yuval Noah, “Big Data, Google and the end of free will”, Financial Times, 26 de Agosto de 2016. Disponível em: <https://portalcioranbr.wordpress.com/2020/06/21/google-bigdata-livre-arbitrio-harari/&gt;.

[2] CIORAN, E.M., Entrevistas com Sylvie Jaudeau, p. 14.

[3] IDEM, “Adeus à filosofia”, Breviário de decomposição (2ª ed. 1995), p. 54.

[4] IDEM, Ibid., p.

[5] IDEM, O livro das ilusões, p. 161.

[6] IDEM, Ibid., p. 141.

[7] IDEM, Ibid., p. 163-164.

[8] IDEM, Lágrimas y santos, p. 121-122.

[9] CHESTOV, Leon, Kierkegaard y la filosofía existencial, p. 33, 38.

[10] CIORAN, E.M., “Adeus à filosofia”, Breviário de decomposição (2ª ed. 1995), p. 55.

[11] IDEM, Ibid., p. 55.

[12] IDEM, “Lipemania”, Ibid., p. 96.

[13] IDEM, “Adeus à filosofia”, Ibid., p. 55-56.

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