“Um pensamento religioso heterodoxo: Cioran gnóstico”

“Ninguém pode tornar claro em que consiste a qualidade ou o valor de um sentimento a quem nunca o tenha experimentado. É preciso ter ouvidos musicais para saber o valor de uma sinfonia; é preciso ter estado apaixonado para entender o estado de espírito de um amante. Na faltado coração ou do ouvido, não podemos interpretar com justeza o músico ou o amante, e é provável que os consideremos débeis ou absurdos”, escreve William James em As Variedades da Experiência Religiosa (1902).

Meditando sobre a “antropotécnica” que teria suplantado a antiga ascese religiosa, Sloterdijk saúda Cioran por cultivar certa “tensão vertical” numa época de crescente achatamento e domesticação do animal racional. Critica, por outro lado, aqueles que manifestam – apostando nas platitudes, sempre limitadoras e redutoras, no conforto de sua zona de segurança ideológica – certa “mentalidade de planície”, do “acampamento básico”, típica das ideologias que pretendem ampliar e oficializar os “acampamentos básicos” em “regiões planas.”

Em se tratando da hermenêutica dos textos de Cioran e da exegese de seu pensamento, essa “planície”, esse “acampamento básico” em “regiões planas” seria o senso comum que consiste em reduzir Cioran a um puro cético, espírito trágico e ateísta (o que confere, mas não apenas), quando não um materialista (na tradição de Demócrito e Lucrécio). Nem as maiores figuras na tradição crítica da obra de Cioran, como Cl. Savater e F. Rosset, escapam a essa platitude hermenêutica timorata. Espelhando eles mesmos, esquecem que a cartografia da alma (romena) de Cioran é naturalmente mística, como o plai, essa paisagem entrecortada na alternância entre montes, vales e planícies.

O conhecimento que mais importa para o autor romeno não é epistêmico, mas místico-intuitivo: conhecimento religioso, visão e revelação extática, na experiência interior. O “fundus animae” do logos cioraniano é de natureza mística (heterodoxa, gnóstico-dualista). Mais que um filósofo, e para além da “platitude existencial” que seria o grau zero do pensamento e da experiência, Cioran é (como afirma categoricamente seu irmão, Aurel) um místico autêntico e original (heterodoxo), um pensador religioso descrente e, enquanto tal, um espírito (filósofo, teólogo, poeta) místico: um gnóstico sui generis, heterodoxo entre os heterodoxos.

Como o Tomé gnóstico, segundo Jean-Yves Leloup, Cioran é “infinitamente cético e infinitamente crente”, e o saber cultivado por ele uma gnose, se por isso entendermos, também segundo Leloup, “a dupla lucidez em relação à condição humana, dupla consciência que contempla, em um olhar único, o absurdo e a graça”. Mas – a pergunta que não quer calar é – pode-se falar efetivamente de uma experiência da graça, ou beatitude, em Cioran?

SÁ MENEZES, R. I. R., “Um pensamento religioso heterodoxo: Cioran gnóstico (audiovisual)”, Portal E.M. Cioran Brasil, 12/08/2020.

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