“Profundidade e melancolia: a propósito de Liliana Herrera” – Olga Lucía Betancourt S.

Sua recordação por detrás de um véu de nostalgia, e em seus frágeis ombros o peso da desrazão da Existência, da incompreensão em relação à Vida; com uma infância e uma adolescência precoces, dedicando-se aos estudos, à investigação, em sua infinita curiosidade intelectual.

Adolescente, empreendeu e terminou uma carreira de psicologia infantil em Cali, mas seu destino de introversão a levou para a filosofia, verdadeira essência de sua busca. Profundidade e reflexão. Uma alma da solidão, caminhando por cima do pensamento filosófico do mundo; mas sua lucidez a manteve no equilíbrio entre a discrição e a modéstia.

E por mais que tenha levado a Filosofia demasiado a sério, fazendo dela um modelo de indagação e suporte para tentar compreender a complexidade dos problemas em torno do Conhecimento, não caiu na soberba intelectual de muitos dos que se sentem “filósofos”.

A graça do seu espírito e a claridade do seu pensamento guiaram-na sempre por um rigoroso caminho epistemológico, distante do dogma, da rigidez de quem crê possuir uma verdade definitiva.

Com ela se aprendia verdadeiramente a ler, a decifrar um texto, a seguir passo a passo o sentido oculto das palavras, das frases. Com uma de suas sábias explicações, compreendi que não sabemos ler em profundidade.

Este foi um de seus maiores aportes aos alunos em suas aulas de filosofia: ensiná-los a ler frase por frase, parágrafo por parágrafo, para desentranhar o sentido oculto do pensamento do autor.

Há seres que nascem com uma lucidez que não se encaixa na geografia humana. Uma consciência que os conduz a outros seres em outras partes do mundo, que sentem e elucidam de modo similar o problema da existência, e que, por alguma lei misteriosa do Acaso, estão destinados a cruzar caminhos. No caso de Liliana Herrera, esse foi o fio condutor em direção a Emil Cioran: introversão, solidão, reflexão.

Tinha dezenove anos quando começou sua careira de filosofia na Universidad de Caldas de Manizales. E lá, conforme descobria aquele mundo intelectualizado, aquele labirinto de ideias e as diversas tendências filosóficas, suas perspectivas e seus extremos, sempre enquadrados no marco do racional, chegou a suas mãos um livro de um escritor praticamente desconhecido das elites intelectuais exclusivistas e dos estudantes de filosofia neste continente.

Emil Cioran. Um escritor romeno, exilado na França. Rebelde, agudo, demolidor em suas ideias e de uma deslumbrante beleza literária. Um “antifilósofo”, por assim dizer.

Um escritor que deu um sentido à sua vida, à sua busca filosófica, a seu próprio rigor. Um escritor que era um desafio para quem começava a lê-lo e inclusive para a própria filosofia. Um escritor apátrida, com um humor implacável e lúcido, tanto quanto ela, um autêntico quebra-cabeças por seu estilo, sua linguagem, sua escritura fragmentária, sem nenhuma ilação aparente, e que saltava do tema do Tempo ao da História, do problema de Deus ao do Bem e do Mal ou da Música, com uma profundidade comovente.

Este Cioran polifacetado e atormentado era a justa medida para o espírito profundo e angustiado de Liliana Herrera. Seu mais belo desafio à razão e à riqueza intelectual de seu próprio pensamento, que já havia começado a tomar forma com sua rigorosa imersão no estudo da filosofia e seus distintos representantes.

E o principal regozijo íntimo era que Cioran ainda vivia. Existia em alguma parte do mundo. Vivia na França e talvez fosse possível chegar até ele. Seu charmoso e obsessivo sonho se tornou realidade: ela escreveu para Cioran, e ele lhe respondeu.

E isso foi um milagre de Distância, de Tempo e Espaço. Um milagre de admiração por essa alma gêmea. Alguns de nós pudemos compartilhar a emoção de Liliana ao receber a resposta de Cioran. Aquela preciosa e breve carta manuscrita era o presente da sua vida! O motor para continuar em sua amorosa tarefa de compreender e difundir sua obra.

Com a disciplina que lhe era própria, começou a estudar romeno e francês. As duas línguas de Cioran. E como dos sentimentos mais profundos, e da fidelidade a si mesmo, percorremos um caminho em direção a alguma forma de realização, chegou o dia em que Liliana finalmente viajaria à Romênia, a culminação de um sonho, para percorrer os lugares que eram simbólicos para Cioran: Rasinari, seu povoado natal, Sibiu, onde passou a adolescência, o pequeno cemitério que foi testemunha de sua errância em noites de insônia, e andar sobre seus passos, à sombra de sua sombra.

Esta é a Liliana Herrera que pretendo mostrar. A que estava aquém da filosofia. A mulher da condição humana sensível, que amava a música em sua universalidade. A tanguera, baladista, apaixonada pelas canções italianas e suas cantoras viscerais, como Mina, nas quais reconhecia sua própria carga de paixão e intensidade, em sua maneira de transmitir as emoções de uma canção.

Liliana, a melancólica da Vida, do Impossível, da dor pelas coisas inapreensíveis que o Tempo destrói inexoravelmente.

Assim como Cioran viveu na memória de Liliana Herrera, em sua perseverança de trazê-lo até nós, de recriá-lo a cada ano em seus Encuentros Internacionales Emil Cioran, de apresentar-nos seu atormentado pensamento, sua literatura certeira e deslumbrante, e, sobretudo, o rastro profundo que ia deixando em seus seletos leitores e nos analistas de sua obra, Liliana Herrera por sua vez ficará em nossa memória pela orfandade que deixa no mundo cioraniano, nos amantes de sua diversidade musical e de seu pensamento analítico, que conseguiu nos comover e nos ajudou a ver o mundo mediante a reflexão filosófica, com honestidade de espírito.

Há um aforismo de Cioran, em Le crépuscule des pensées [Amurgul gândurilor], que define muito bem essa solidão da alma, esse vai-e-vem entre a razão e o anseio de um paraíso perdido, hipotético, mas que faz estremecer profundamente o verdadeiro e desamparado ser que nos habita: “Quanto mais perco a fé no mundo, mais eu me encontro em Deus, sem crer nele. Seria uma doença secreta do coração ou uma dignidade do espírito e do coração, pela qual se é ao mesmo tempo cético e místico?”[1]

Quero terminar esta breve homenagem a María Liliana Herrera A. com um singelo poema de sua autoria dedicado a Cioran:

CIORAN

Tive o vigor de sua palavra,
O alento corrosivo do Nada,
A sombra da morte.

Tive o prodigioso furor da lucidez
E o abismo palpitante de seu pulso
feito abraço na escrita;

A mirada de uma fotografia
que imaginei animada, proscrita, crucificada.
E torno, íntima, a seus livros, queridos,
da eternidade caídos
e de minha avidez cansados.

Uma estante ao desalento consagrada
habita este silêncio
pudico e rebelde
da sua obstinada obra.

M. Liliana Herrera A.

PROFUNDIDAD Y MELANCOLIA

                                               Por Olga Lucía Betancourt S.

La recuerdo tras un velo de nostalgia, y en sus frágiles hombros, el peso de la sinrazón de la Existencia, de la incomprensión por la Vida; con una infancia y una adolescencia precoz en el estudio, en la investigación, en su infinita curiosidad intelectual.

Adolescente, emprendió y terminó una carrera de Psicología Infantil en Cali, pero su destino de introversión, la llevó a la Filosofía, la verdadera esencia de su búsqueda. Ella era la profundidad y la reflexión. Un alma de soledad, caminando por la cima del pensamiento filosófico del mundo; pero su lucidez la mantuvo en el equilibrio de la discreción y la modestia.

Y aunque tomó muy en serio la filosofía e hizo de ella un modelo de indagación y de apoyo para intentar comprender la complejidad de los problemas en torno al Conocimiento, no cayó nunca en la soberbia intelectual de muchos de aquellos que se sienten “filósofos”.

La gracia de su espíritu, y la claridad de su pensamiento, la guiaron siempre por un riguroso camino epistemológico, lejos del dogma, de la rigidez de quienes imaginan poseer una verdad definitiva.

Con ella se aprendía verdaderamente a leer, a descifrar un texto, a seguir paso a paso el sentido oculto de las palabras, de las frases. Con una de sus sabias explicaciones, comprendí que no sabemos leer en profundidad.

Ese fue uno de sus grandes aportes a sus clases de filosofía y a sus alumnos, enseñarlos a leer frase a frase, párrafo a párrafo, para desentrañar el sentido oculto del pensamiento del autor.

Hay seres que nacen con una conciencia lúcida y no encajan en la geografía humana. Una conciencia que va llevándolos hacia

otros seres que están en algún lugar del mundo, sintiendo y dilucidando igual el problema de la Existencia, y que, por alguna misteriosa ley del Azar, se tienen que cruzar en el camino. En Liliana Herrera, ese fue el hilo conductor hacia Emil Cioran: La introversión, la soledad, la reflexión.

Tenía 19 años cuando empezó a estudiar su carrera de filosofía en la Universidad de Caldas en Manizales. Y allí, descubriendo ese intelectualizado mundo, ese laberinto de las ideas, las diversas tendencias filosóficas, sus extremos visionarios, sus perspectivas, encuadradas siempre en el marco de lo racional, llega a sus manos un libro de un escritor prácticamente desconocido en las exclusivas élites de los intelectuales y estudiantes de filosofía de este continente.

Emil Cioran. Un escritor rumano, exiliado en Francia. Rebelde, agudo, demoledor en sus ideas y de una deslumbrante belleza literaria. Un, por decirlo de algún modo, anti-filósofo.

Un escritor, del que se podría decir, le da un sentido a su vida, a su búsqueda filosófica, a su propio rigor. Un escritor que era un desafío para quien lo empezaba a leer, y hasta para la propia filosofía. Un escritor apátrida, con un humor implacable, lúcido, como ella misma, un auténtico rompecabezas por su estilo, su lenguaje, su escritura fragmentada, sin una aparente ilación; que saltaba del tema del Tiempo, al de la Historia, del problema de Dios, al del Bien y del Mal o al de la Música, con una profundidad conmovedora.

Ese Cioran polifacético, y atormentado, era la justa medida para el espíritu profundo y angustiado de Liliana Herrera. Su más bello desafío a la razón y a la riqueza intelectual de su propio pensamiento, el que ya había empezado a tomar forma, con su rigurosa inmersión en el estudio filosófico y sus distintos representantes.

Y el principal goce íntimo, era que Cioran estaba vivo. Era un autor que existía en alguna parte del mundo. Vivía en Francia y tal vez era posible llegar a él. Y su hermoso y obsesivo sueño se hizo realidad: Le escribió a Cioran, y él le respondió.

Y ese fue un milagro de Lejanía, de Tiempo y Espacio. Un milagro de amor y admiración por esa alma gemela. Algunos de nosotros pudimos compartir esa emoción de Liliana al recibir la respuesta de Cioran. Esa preciosa y corta carta manuscrita, ¡era el regalo de su vida! El motor para continuar en su amorosa tarea de comprender y difundir su obra.

Con la disciplina que la caracterizaba, empezó a estudiar el rumano y el francés. Las dos lenguas de Cioran. Y, como de los sentimientos más profundos, de la fidelidad a uno mismo, vamos haciendo un camino hacia alguna forma de realización, le llegó el día de viajar a Rumania, como la culminación de un sueño, para recorrer los lugares que eran simbólicos para Cioran: Rasinari, su pueblo natal, Sibiu donde pasó su adolescencia, el pequeño cementerio testigo de su errancia en sus noches de desvelo, y andar sobre sus pasos, a la sombra de su sombra.

Esta es la Liliana Herrera que pretendo mostrar. La que estaba más acá de la filosofía. La de su condición humana y sensible, la que amaba la música en toda su universalidad. La tanguera, la baladista, apasionada por las canciones italianas y sus cantantes viscerales, como Mina, en quien reconocía su misma carga de pasión e intensidad, en su manera de trasmitir las emociones en una canción.

Liliana, la melancólica de la Vida, del Imposible, del dolor por las cosas inasibles a las que el Tiempo destruye inexorablemente.

Así como Cioran vivió en la memoria de Liliana Herrera, en su perseverancia para traerlo hasta nosotros, para recrearlo cada año en sus “Encuentros Internacionales Emil Cioran” y descubrirnos su atormentado pensamiento, su literatura precisa y deslumbrante y, sobre todo, la huella profunda que ha ido dejando en sus selectos lectores y analistas de su obra, Liliana Herrera se quedará en nuestra memoria, en la orfandad que ha dejado en el mundo “Cioraniano”, en los amantes de su diversidad musical y su pensamiento analítico, que logró conmovernos y ayudarnos a ver el mundo desde la reflexión filosófica y la honestidad de su espíritu.

Hay un aforismo de Cioran en su libro “Le Crépuscule des Pensées” que define muy bien esa soledad del alma, ese vaivén entre la razón y el ansia de un paraíso perdido, hipotético, pero que hace estremecer profundamente al verdadero ser desamparado que nos habita: “Plus je perds la foi dans le monde, plus je suis en Dieu, sans croire en lui. Serait-ce une maladie secrète ou un honneur de l’esprit et du coeur, qui fait qu’on est en même temps sceptique et mystique ?”[2]

Quiero terminar esta corta reseña sobre María Liliana Herrera A, con un sentido poema suyo a Cioran:

CIORAN

Tuve el vigor de su palabra,
El aliento corrosivo de la Nada,
La sombra de la muerte.

Tuve el prodigioso furor de la lucidez
Y el abismo palpitante de su pulso
vuelto abrazo en la escritura;

La mirada de una fotografía
que imaginé animada, proscrita, crucificada.
y vuelvo íntima a sus libros,
queridos,
de eternidad caída
y por mi avidez fatigados.

Un anaquel consagrado al desaliento
habita este silencio
púdico y rebelde
de su obra obstinada.

Liliana H.

Olga L Betancourt, Pereira, Diciembre 2019
Traducción: Rodrigo Inácio R. Sá Menezes


[1] « Plus je perds la foi dans le monde, plus je suis en Dieu, sans croire en lui. Serait-ce une maladie secrète ou un honneur de l’esprit et du cœur, qui fait qu’on est en même temps sceptique et mystique ? » (Œuvres, 1995, p. 495). No original romeno : « Cu cît îmi pierd mai mult credinţele în lume, cu atît sînt mai mult în Dumnezeu, fără să cred în el. — Să fie o boală tainică sau o cinste a minţii şi a inimii care te face să fii în acelaşi timp sceptic şi mistic? »

[2] “Mientras más pierdo la fe en el mundo, más estoy en Dios, sin creer en él. ¿Acaso será una enfermedad secreta o un honor del espíritu y del corazón, lo que hace que uno sea al mismo tiempo escéptico y místico?” CIORAN, E.M., Le crépuscule des pensées, Œuvres. Paris : Gallimard, 1995, p. 495 (traducción: Olga L. Betancourt).

Um comentário em ““Profundidade e melancolia: a propósito de Liliana Herrera” – Olga Lucía Betancourt S.”

  1. […] Hay un aforismo de Cioran en su libro “Le Crépuscule des Pensées” que define muy bien esa soledad del alma, ese vaivén entre la razón y el ansia de un paraíso perdido, hipotético, pero que hace estremecer profundamente al verdadero ser desamparado que nos habita: “Plus je perds la foi dans le monde, plus je suis en Dieu, sans croire en lui. Serait-ce une maladie secrète ou un honneur de l’esprit et du coeur, qui fait qu’on est en même temps sceptique et mystique ?”[2] […]

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