“Pelos Olhos do Jaguar”, de Nitiren Queiroz: prefácio de Claudio Willer

Mapear cicatrizes,
contabilizando
as pedras que me beijam a testa
enquanto
corro
dos fantasmas que brincam
em minha cabeça,
que brindam
cada folha caída
da grande árvore que habito.

PREFÁCIO

Podem poemas ser manifestos libertários? Claro que sim. Mais um bom exemplo, de tudo o que tem vindo à tona da boa produção poética contemporânea brasileira, é dado por Nitiren Queiroz. Representa, entre outras qualidades merecedoras de atenção, o que se poderia chamar, paradoxalmente, de tradições contemporâneas, ao nos convidar a revisitar o que já sabemos sobre rebelião na poesia. Especialmente, ao encontro do arcaico, com referências diretas a ritos tribais e a presença do mais contemporâneo. Assim, este pelos olhos do jaguar é marcado por uma tensão de opostos: a vida na metrópole e a vida natural, extrema, tal como simbolizada ou representada pelo xamanismo. Nitiren sabe do que está falando. Mostra-nos as possibilidades da poesia em rebelião. Entre elas o paradoxo, o desafio à lógica, ao princípio da identidade e não-contradição. Um exemplo, a ideia de voar para dentro da Terra e não, como esperaria o senso comum, aos céus:

Voar
terra adentro
e sorrir com ela
na dança
de sua
superfície

É, evidentemente, uma etapa da iniciação: a viagem órfica, descida ao mundo subterrâneo para aquisição do conhecimento. Em outra passagem, mais um paradoxo ao mesmo tempo original e representativo de uma tradição, ao sugerir uma escuridão luminosa, ou seja, a própria iluminação, tal como vislumbrada por tantos místicos e iniciados:

e entra na escuridão
do quintal
vestido de céu

Há um encontro do “alto” e do “baixo”, uma superação de antinomias representadas por “quintal” e “céu”. Sua intensidade lírica não o faz descartar recurso poético fundamentais, como a ironia:

Meu tesão é objeto de estudo
publicado em
diário oficial

Ou, em um momento extremo desse modo de expressar-se:

minha mãe corre
e atravessa nuvens
de enxofre,
dança intrometida
sobre o cobre envenenado:
minha mãe é mais foda que tua máquina

É igualmente paradoxal em seu modo de tratar do amor como “nosso crime de/atentado ao terror” — ou seja, algo como um meta-crime, um crime, transgressão extrema, que nega o próprio crime. São expressões, tais passagens, de uma lúcida poética:

sim,
a poesia é a própria natureza
cantando a si mesma
através de nossas bocas

Chama a atenção, entre outras qualidades, a capacidade de criar imagens perfeitas, chegando a uma síntese extrema:

A memória é uma criança
que brinca no quintal de nossas cabeças

Há, assim, uma polaridade evidente, confrontando a exaltação do contato ou integração com a natureza, associada à celebração do amor, e o dia a dia da vida na sociedade contemporânea. A sala de aula comparece como símbolo dessa repressão, desse contraste com a liberdade. É sempre pautado pela originalidade. Por exemplo, em

Uma palavra que quase
não se ouve
mas sibila
na expiração

Poderia ser uma paráfrase do célebre e magnífico poema de Paul Éluard sobre a palavra — mas não, Nitiren não irá repetir que a palavra é Liberdade, não irá dizer qual é — o leitor saberá achá-la.

Se já temos, entre os contemporâneos, um bom acervo de poesia de inspiração xamânica, com um débito à leitura matricial de Ciclones de Roberto Piva, poucas vezes essa se harmonizou tão bem com sincretismos afro-brasileiros, quer sejam do candomblé ou da umbanda:

Deixo o fôlego
ebó
no cruzamento das linhas
do terror
e do transe

O significado simbólico de passagens como esta é forte:

Ela é a flecha de Oxossi,
que atravessa o mundo
carregando consigo
o segredo sussurrado
nas entranhas
da terra

O que mais importa é Nitiren nos trazer poemas e passagens tão próximas da perfeição como esta, na qual a simplicidade e economia se encontram com a máxima capacidade de expressão:

Grito do telhado
e saúdo
a noite recém
parida

Que os leitores deste pelos olhos do jaguar partilhem as experiências de êxtase de seu autor, limítrofes da loucura e da lucidez extrema. É uma poesia que, limítrofe da loucura à primeira vista, na verdade revela equilíbrio, harmonização de extremos, com o sentido dado pelo beat Michael McClure à categoria grega de moderação:

Os gregos, reconhecendo a natureza politeísta dos sentidos tradicionais (de que cada um era um deus ou deusa), tinham um mote: Ariston metron significa, por alto,“a moderação é a perfeição”. Por meio dos trabalhos dos pensadores gregos, sabemos que eles apreciavam a embriaguez, os cantos, as libações para os deuses, o jogo de cuspir vinho dentro de um balde, a meditação, o comércio, a guerra, o atletismo, a viagem, o brilhantismo da conversa, os extremos da sensualidade. Os pensadores gregos (em contraste com os intelectuais mais mentalistas) concebiam a moderação como uma estrutura pessoal, atingida por meio da descoberta e afirmação dos extremos. Quando um homem chegava aos extremos, ele encontrava os limites circundantes das possibilidades e ele ERA A MODERAÇÃO — era formado dentro do campo da sua experiência.

A nova visão de Blake aos Beats (Azougue, 2005).

Essa é uma das paráfrases de McClure, leitor de William Blake, de que “o caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria”. pelos olhos do jaguar é uma série de marcos e indicadores desse caminho.

Claudio Willer

QUEIROZ, Nitiren, Pelos olhos do jaguar. São Paulo: Urutau, 2020.

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