Manuais de anti-ajuda: Byung-Chul Han & Emil Cioran, críticos da positividade tóxica

Se, na Idade Teológica, ser humano significava adorar a Deus (Jesus), se ser virtuoso significava ser um cristão de fidelidade a toda prova (um santo) e ser mau significava ser herege (uma feiticeira), na Idade da Razão ser verdadeiramente humano significa adorar a Ciência (a Tecnologia, o Progresso), ser virtuoso significa gozar boa saúde (ser feliz), e ser mau significa estar mentalmente doente (ser infeliz).

Thomas Szasz

“Manual de antiayuda”, de Alberto Dominguez, é um título muito acertado em se tratando dos estudos cioranianos. História e utopia é um clássico do pessimismo metafísico em que o processo histórico é descrito como o “espaço onde realizamos o contrário de nossas aspirações, onde as desfiguramos sem cessar”, não “o fundamento do ser, mas sua ausência, o não de toda coisa, a ruptura do vivente consigo mesmo.” A história mesma, de “essência maniqueísta” (leia-se diabólica, dualista), não angelical, é um antídoto contra o otimismo utópico moderno, assim como “a utopia é o grotesco cor-de-rosa”. (História e utopia)

Enquanto o cristianismo satisfazia os espíritos, a utopia não podia seduzi-los; mas quando começou a decepcioná-los, ela procurou conquistá-los e instalar-se neles. Já era essa sua intenção no Renascimento, mas só iria consegui-lo dois séculos mais tarde, em uma época de superstições “esclarecidas”. Assim nasceu o Porvir, visão de uma felicidade irrevogável, de um paraíso dirigido no qual o acaso não tem lugar, onde a menor fantasia aparece como uma heresia ou uma provocação. Fazer sua descrição seria entrar nos detalhes do inimaginável. A própria ideia de uma cidade ideal é um sofrimento para a razão, uma empresa que honra o coração e desacredita o intelecto. (Como pôde um Platão prestar-se a ela? Estava esquecendo que ele é o predecessor de todas essas aberrações, retomadas e agravadas por Thomas Morus, o fundador das ilusões modernas.) Planejar uma sociedade na qual, segundo uma etiqueta aterradora, nossos atos são catalogados e regulamentados, na qual, por uma caridade levada até a indecência, se preocupam com nossos pensamentos mais íntimos, é transportar os tormentos do inferno para a idade de ouro, ou criar, com a ajuda do diabo, uma instituição filantrópica.

“Mecanismos da utopia”

História e utopia (1960)

Em sintonia com Cioran e esse “grotesco cor-de-rosa” das utopias que pretendem catalogar e regulamentar nossos pensamentos mais íntimos, Byung-Chul Han é um filósofo contemporâneo cuja obra tem como um de seus temas privilegiados, numa tradição crítica que remonta a Jean Baudrillard e Walter Benjamin, entre outros, isso que ele chama (título de um de seus livrinhos) “Sociedade da transparência”. Segundo Han, a exigência progressiva de transparência se inicia no século XVIII, na Europa, numa sociedade desencantada e fadigada sob o peso dos séculos, sob o peso do conhecimento e do autoconhecimento, em que todos passam a desconfiar de todos e ninguém confia mais em ninguém. De onde a centralidade de topoi como a máscara, a maquiagem, o disfarce, a dissimulação, a sociedade como um teatro mundi, em oposição a ideais tão “rousseauístas” como a sinceridade, a transparência, a verdade, o natural, ingênuo e espontâneo…

Transparência e positividade são concomitantes e proporcionais uma à outra, dos pontos de vistas estético e ético. Seu concurso tende a conduzir a um estado de regulamentação (formal e/ou informal, institucional e/ou simplesmente “cultural”) de todas as coisas (ações, palavras, gestos, pensamentos, a linguagem, a vida mesma), a um estado complexo e complicado de configuração da vida humana e de seu espaço social, em que a espetacularização e a ideologia do entretenimento consumistas caminham de mãos dadas com o controle social, a restrição das liberdades e a manipulação tecnológica (algoritmos, Big Data) das consciências em benefício das grandes corporações. Introjetada, tornada intrapsíquica, subcutânea, a opressão nunca foi tão eficaz, doravante invisível, em todas as partes e em nenhum lugar. Ubíqua. A servidão humana nunca foi tão voluntária…

Não é de hoje que as redes sociais vêm multiplicando postagens e perfis com mensagens de positividade, autoajuda, ou de como conquistar qualquer sonho — seja um emprego, um corpo magro, um relacionamento amoroso. O fenômeno dos coaches é recente no Brasil; chegou ao país entre as décadas de 1990 e 2000, mas só recentemente ganhou fôlego.

“Como Byung-chul Han previu a positividade tóxica dos coaches e do bem estar” – Veja mais em https://tab.uol.com.br/colunas/lidia-zuin/2020/10/28/positividade-toxica.htm?cmpid=copiaecola

Lidia Zuin, TAB/UOL, 28/10/2020

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