“A Metafísica da Negação” (Eduardo Frieiro)

Correio da Manhã, ano LXM, no 21.244, 30 junho de 1962

Que é que me agrada em  E. M. Cioran, o escritor romeno de língua francesa, ido agora na sua pátria intelectual como um estilista sem par? Antes de nada, e sobretudo, a feição de seu espírito, que é, vincadamente, a de um “moralista”, bem ao compasso do que há de mais representativo no gênio literário francês; a avisada reflexão sôbre a conduta humano, junto com a isenção de abusões e preconceitos. Moralista, isto é, um casuísta leigo, ou psicanalista informal, curiosa dos equívocos mistérios do espírito, escafandrista dos turvos abismos da alma. Moralista, digo, à maneira de La Bruyère e Chamfort. Mais da linhagem dêste último, por sua filosófica amargura, sua misantropia irônicamente agressiva, sua náusea pela triste aventura do rebanho humano.

Entenda-me: um Chamfort de nossa época, pela intuição crítica mais aguda — e, por isso mesmo, mais destrutiva —; época trabalhada e conformada por gênios audazes, como Hegel, Marx, Darwin, Kierkegaard, Freud e Jung, Schopenhauer, Nietzsche e Shaw; época que rompeu o cordão umbilical que nos prendia à moral judeu-cristã, já não concebe o homem como criatura de Deus e descrê de santos e heróis.

Três livros de Cioran, Précis de décomposition, La tentation d’exister e Syllogismes de l’amertume, encerram reflexões e aforismos de um pessimismo e de uma acritude do condenado injustamente à morte. Nêles se misturam, todavia, o grito de angústia do pré-suicida e a boutade do céptico escarninho. A mistura matiza, atenua o tom de cada um, em tal forma que, por vêzes, não se sabe o que é grito de desespero ou é boutade, ou ambas as coisas juntas, o que parece mais certo e freqüente.

Nenhum misântropo disse tão mal dos seus semelhantes. Leia-se isto:

“Não se pode fugir do desgôsto que a freqüentação dos homens nos comunica, desgôsto pegajento de que não nos curamos nem mesmo com a solidão voluntária” (…) “Quanto mais freqüentamos os homens, mais se enegrecem nossos pensamentos; e quando, para clareá-los, voltamos a refugiar-nos em nossa solidão, encontramos a sombra que ali espalharam.”

E êste desabafo de repugnância:

“O odor da criatura humana nos põe na pista de uma  divindade fétida.” A História — sonho longo, pesado, obscuro da Humanidade — é uma sucessão interminável de crimes, guerras, massacres, vilezas, espoliações, horrores. Não é porém o homem brutal, rico de glóbulos vermelhos, guerreiro, cruel, dominador, com algo do Super-homem de Nietzsche, o que o exaspera. É antes a degeneração dêsse tipo rude — e êle próprio se inclui na nossa subespécie mofina, atormentada, pusilânime, policiada, encurralada nas cidades modernas. Mas, como quer que seja, “a vida é uma ocupação de inseto”.

Um filósofo pessimista do século passado, Hartmann [1], só admitia um remédio eficaz para as misérias do mundo: o suicídio em massa de toda a Humanidade. Mas, quem quer matar-se? A mais desgraçada das criaturas humanas pede a Deus que lhe conserve a miserável existência.

O mal é vir ao mundo. Porque, como está em Calderón, “el mayor delito del hombre es haber nacido”. Culpa de quem? Do Demiurgo? Do pecado original? Culpa do elemento criminoso que propaga a espécie, diz Cioran:

“Le spermatozoide est le bandit à l’état pur.”

Soam a paradoxos — singularmente audazes e incitantes — as suas reflexões sôbre a História, a Filosofia, a Literatura, os místicos, a Igreja, os pedagogos, São Paulo, Lutero… Agradam-me os seus paradoxos… verdadeiros até ao ponto extremo a que pode chegar o espírito de negação a esvair-se no vazio. Pelo menos, estão de acôrdo, em primeira intenção, com a “verdade” que eu admito como boa e não é senão a conformidade com as vistas de meu espírito.

O “intelectual” não lhe merece graça: representa a infelicidade maior, o malogro culminante do “homo sapiens”. Escrever livros? É a perda da inocência, um ato de agressão, uma repetição de nossa queda, por isso que não deixa de ter alguma relação com o pecado original. Publicar suas taras para divertir ou exasperar! Uma barbárie a respeito de nossa intimidade. E uma tentação. Fala com conhecimento de causa. Mas êle, pelo menos — confessa —, tem a desculpa de odiar seus atos, de os praticar sem crer nêles.

A propósito: Cioran, autor de alguns dos livros mais fulgurantes últimamente aparecidos na França, obteve pela publicação de sua obra mais recente, Histoire e Utopie, os prêmios literários “Sainte-Beuve”, “Rivarol” e “Combat”, mas não quis receber nenhum. Por pudor? Talvez. Ao sair certa vez de um jantar literário, o desdenhoso escritor rumeno “entreviu a urgência de um São Bartolomeu dos homens de letras”. Culpa o século XIX por ter favorecido a casta pedante dos especialistas de frioleiras eruditas, “essas máquinas de ler, essa malformação do espírito que encarna o Professor, — símbolo do declínio de uma civilização, do envilecimento do gosto, da supremacia do labor sôbre o capricho”.

Todo comentário de uma obra lhe parece mau ou inútil, porque tudo o que não é direto é nulo. “Outrora, os professôres se encarniçavam de preferência na teologia. Tinham, pelo menos, a desculpa de ensinar o absoluto, de se limitarem a Deus, ao passo que, na nossa época, nada escapa a sua competência mortífera.”

Simpatiza com os místicos, em especial com os espanhóis do “Siglo de Oro”: um Luis de León, um San Juan de la Cruz coroaram uma época de grandes emprêsas e foram necessariamente contemporâneos da Conquista. Há infantilidade no místico: a de “tentar eliminar as toxinas do tempo para guardar as da eternidade”. Equivocam-se, porém, os que pensam que a mística deriva de uma debilitação dos instintos, de uma seiva comprometida. Longe de serem deficientes, os místicos espanhóis lutaram por sua fé, apropriaram-se do céu. “Sua idolatria do não-querer, da doçura e da passividade defendia-os de uma tensão difícil de suportar, contra a miséria superabundante que neles originava o proselitismo, o poder sôbre este mundo e o outro. Para adivinhá-los, imagine-se um Fernão Cortês no melo de uma geografia invisível.”

É duro com São Paulo. Censura-o, e nunca será êle bastantemente censurado, diz, por ter feito do cristianismo uma religião inelegante, de lhe haver introduzido as mais detestáveis tradições do Velho Testamento: a intolerância, a brutalidade, o provincianismo. São Paulo, diz mais, mete-se indiscretamente em coisas que não lhe dizem respeito e das quais nada entende! Suas considerações sôbre a virgindade, a abstinência e o casamento são positivamente de repugnar. Responsável pelos nossos preconceitos em religião, fixou as normas da estupidez e multiplicou as restrições que paralisam ainda nossos instintos. Não tem o lirismo, nem o acento elegíaco e cósmico dos antigos profetas, mas o espírito sectário e tudo o que neles era mau gôsto, tagarelice, divagação, para o uso dos cidadãos. E ainda: “Examinai de perto as suas famosas Epístolas, e nelas não discernireis, em nenhum momento, lassitude e delicadeza, recolhimento e distinção: tudo nelas é furor, histeria, incompreensão.”

Lutero? Um São Paulo humanizado. A piedade dêsse “Rabelais da angústia” é negra! Mesmo a de Pascal, mesmo a de Kierkegaard empalidece diante da sua, diz Cioran: um é por demais escritor, o outro por demasiado filósofo. Mas êle, Lutero, encouraçado na sua neurastenia de campônio, sempre em luta com o Diabo (que via a seu lado a tentá-lo), possui o instinto necessário para se atracar num corpo-a-corpo com as forças do Bem e do Mal.

Cioran não busca a Verdade, nem mesmo com o desapêgo do seu mestre Nietzsche, que a procurava com a certeza de jamais a encontrar. A Verdade? Nada mais é, palavras suas, que uma tineta de adolescentes, ou um sintoma de senilidade. “Contudo, diz, por um resto de nostalgia, ou por necessidade de escravidão, ainda a procuro, inconscientemente, estùpidamente. Um instante de desatenção basta para que eu recaia sob o império do mais antigo, do mais irrisório dos preconceitos.”

O pessimismo de Nietzsche era afirmativo, dionisíaco. O de Cioran é o de um psicólogo que escruta o homem com declarada inimizade. É o do filósofo que diz “não” a tudo. Negar: não há nada que valha tanto para emancipar o espírito.

Mas a própria negação só é fecunda enquanto a conquistamos e apropriamos. Uma vez adquirida, torna-se uma escravidão como as outras. Devemos, em conseqüência, aprender a pensar contra nossas dúvidas e contra nossas certezas, contra nossos humores oniscientes. Devemos, enfim, consentir no indemonstrável, na idéia de que alguma coisa existe: “O pessimista deve inventar para si cada dia outras razões de existir: é uma vítima do sentido da vida.”

O pessimismo é tóxico para muitos. Para outros — para Cioran certamente e para mim — é tônico. É o roborativo necessário para o humano ofício de existir.

Pessimista, Cioran? Não. O pessimista crê que tudo vai mal, por admitir que de outra maneira tudo poderia ir bem. É um otimista pelo avêsso. Cioran — êsse “metafísico do nada”, como o denominou Claude Mauriac — não reage mentalmente nem num sentido nem no outro: vê a vida como uma “aventura no ininteligível”.


[1] Karl Robert Eduard von Hartmann (1842-1906), autor de Philosophie des Unbewussten, “Filosofia do inconsciente” (1869).

Eduardo Frieiro (1889-1982) foi um professor universitário e escritor brasileiro. Ocupou a cátedra de Literatura Espanhola e Hispano-Americana na UFMG, da qual recebeu o título de professor emérito. Foi fundador da Faculdade de Filosofia, professor de Filologia Românica, fundador e primeiro diretor da Biblioteca Pública de Minas Gerais, hoje Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa. Membro da Academia Mineira de Letras. Recebeu da Academia Brasileira de Letras o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra. Autor de O Mameluco Boaventura (1929), Inquietude, Melancolia (1930), O Brasileiro não é triste (1931) e A ilusão literária (1932), entre outros romances e ensaios. [+] “Um mestre da maledicência” (Humberto Werneck), Estadão, 7 de julho de 2015

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