“Só através do coração sabemos que algo muda”: entrevista com Simona Constantinovici sobre o Dicţionar de Termeni Cioranieni (3/3)

“Todo escritor deve ser conhecido assim, em sua inteireza, e não apenas em fragmentos. Ou melhor, um fragmento deve ser comparado sempre com as demais partes integrantes da obra para que, finalmente, se possa extrair uma rede de significados, uma substância ativa, um genoma, um DNA de identificação. Mas, como apenas em fragmentos podemos explorar outros planetas através do telescópio, em toda a sua beleza, o mesmo vale quando se trata de ler um determinado autor – no nosso caso, um filósofo como Cioran. Se utilizamos o Dicionário como um telescópio linguístico, poderemos apreciar a paisagem maior do estilo cioraniano. A óptica faz parte dos realia que podem conduzir ao todo. Pars pro toto. Ao movimentar-se em direção à fonte, ou para longe dela, opera-se o desnudamento, adentro efetivamente o magma de um fenômeno que segue suscitando o interesse de muitos intelectuais, e não só filósofos. O Dicionário pode ser um convite para sentar à mesa, mesmo quem venha de domínios de interesse distintos.”

Simona Constantinovici

Simona Constantinovici (1968) é escritora e professora de lexicologia, lexicografia poética, estilística, semântica interpretativa e escrita criativa na Faculdade de Letras, História e Teologia da Universitatea de Vest din Timișoara. É autora de 15 livros. Seus poemas e contos têm sido publicados em várias antologias e coletâneas literárias, na Romênia e em outros países. É ganhadora de diversos prêmios literários por sua variegada produção literária.

Na terceira e última parte da entrevista, Simona Constantinovici explica a riqueza semântica de uma importante preposição romena que, na visão de Constantin Noica, pareceria sintetizar todo um sistema de filosofia: întru. Um verdadeiro “ser vivo” da língua romena, pois, analisado e elucidado, em toda sua densidade especificidade lexicológica, pela coordenadora do Dicionário de termos cioranianos. Por fim, Simona Constantinovici argumenta que o recurso a dicionários conceituais é crucial para compreender um determinado autor de maneira vertical e compreensiva, e não apenas de modo esquemático e instrumental. Ainda mais no caso de um autor fragmentário, paradoxal e enigmático como Cioran. Pars pro toto


R.M.: Se for correto entender a preposição romena întru na ambivalência entre situar-se, estar situado/parado (being situated, standing em inglês) numa determinada posição ou situação, num determinado lugar ou estado, e ao mesmo tempo movendo-se, deslocando-se em direção a…,[1] seria válido afirmar que a polaridade semântica do logos cioraniano está de algum modo ligada às virtudes polivalentes desta mesma preposição? Por exemplo, digamos que Cioran postule – alternadamente ou concomitantemente – a “queda” (căderea) – no tempo, do tempo – por um lado, e a “apoteose” (ascese, ascensão), essa “felicidade suprema de que falam os místicos”,[2] em suma, a polaridade entre desespero e êxtase, horror e beatitude, “paraíso” e “inferno”.[3] Isso é tudo menos uma contradição impensada, inconsequente, mas antes um paradoxo buscado e desejado (“supremo”), lucidamente vivido e poeticamente elaborado, a identificar nestes termos – antitéticos, contraditórios – uma indiferença ulterior, sua identidade essencial a julgar por um nível mais profundo (radical, de descer até a raiz do problema) de compreensão (de onde a luciditate cioraniana, “pensar contra si”, etc.). Seria isto um paradoxo (com sua polaridade e ambivalência) de situar-se no estágio da queda/estado decaído (a existência habitual) e de, ao mesmo tempo, vivenciá-la de maneira apaixonada, entusiástica, lírica ou até mesmo extática, como se da experiência da miséria da existência brotasse a mais plena (e sem razão) beatitude? O pensar-dizer (logos) de Cioran parece situar-se sempre em dois espaços ao mesmo tempo e, não apenas isso, também se deslocando – em trânsito e em transe, perpétuo movimento sem sair do lugar – de um espaço para (întru) o outro, e vice-versa. É como se ele se descobrisse “no paraíso”,[4] ou instalado numa espécie de “eterno presente”,[5] ainda que não acreditasse em nada disso (triunfo da “irrealidade universal”); inversamente, vem à mente a imagem do desespero como um “equivalente negativo do êxtase”, no último círculo dos infernos… Em Cioran, parece reduzir-se a nada a distância entre um e outro. Faz sentido?

S.C.: Aqui, eu traria discussão uma vez mais maestrul Constantin Noica, para quem esta preposição – que agora é uma preposição corrente, como qualquer outra, uma simples junção, um parafuso da fala e do fraseado, por assim dizer –  já significou muito mais outrora. Trago Noica para a discussão porque ele se refere constantemente ao material dos dicionários da língua romena, restaurando o ser filosófico [ființa filosofică] das palavras romenas, seu espírito próprio, recorrendo aos múltiplos significados camuflados nas expressões e frases apresentadas nessas obras lexicográficas. Excelente observador e intérprete das palavras da língua romena, Noica compreende perfeitamente que um discurso filosófico se alimenta inevitavelmente da força, ou então da caducidade das palavras.
É claro que existem os chatos [cârcotași] que podem sempre criticar a forma de abordar e se relacionar com um texto filosófico. Mas é igualmente verdade que não serão capazes de superar a força das torrentes semânticas dessas palavras, que oferecem tanta resistência. No prefácio a Cuvânt împreună despre rostirea românească, o filósofo romeno sublinha sua “alegria de ver na preposição ‘întru’ uma das mais sugestivas palavras-chave para a fundamentação filosófica.”[6] Mais adiante, no capítulo dedicado a esta preposição, ele diz que întru “retém – 0 que é mais verdadeiro em locuções do que isoladamente – sua virtude dialética de unir sentidos contraditórios.”[7]
Agora eu gostaria de adentrar o vórtice [vârtejul] aberto pela sua pergunta. Aqui nos chegamos a contradições, paradoxos, à irrealidade por detrás das palavras, que colidem fazendo um som estridente, como os metais em uma orquestra. Naturalmente, o poder de um discurso não reside numa única preposição, mas este index pode nos guiar através dos mecanismos semânticos das frases, ou pode também conduzir todo o material linguísticos, os mecanismos sintáticos, É como uma bússola frasal [busolă frastică], especialmente uma preposição como întru, do latim intro, muito próxima de outra junção [jonctiv] romena, între, esta última com o “dublê” [dubletul] etimológico inter-. Se considerarmos o fato de que întru retém em suas fibras mais profundas o significado arcaico da raiz latina, então o que você diz se sustenta, estaria justificado. Întru também tem um aroma arcaico, de tal modo que o seu uso evoca aquela pátina do tempo nas frases.
Se între se posiciona no meio [la mijloc], à mi-chemin (fr.), întru cria e cria um elo de sentido [aliaje de sens]. Dintre e pintre são preposições formadas a partir de între, neste caso combinadas com outras preposições. Esta rede indicial da língua romena é importante na medida em que contribui para compreender algumas camadas adjacentes de sentido: “Ao sentido, ou sentidos locais – os fundamentais, em que se trata de estar em [a fi în], trabalhar em [a lucra în], desdobrar-se em [a se desfăşura în], passando em seguida a: entrar em [a pătrunde în], sentar em [a se așeza în], sentar sobre [a se așeza pe], tender a/em direção a [a tinde către], brotar de [a izvorî din], limitar-se a [a se limita a] –, acrescentam-se outros, instrumentais, temporais, causais, finais, relativos, modais, inclusive de equivalência, mensuração e afinidades analógicas [raportare analogică].”[8]
Todo um universo de circunstâncias é prefigurado aqui, de modo que tudo o que se posse dizer com întru possui um repouso firme [statornic un rest]. Se a lógica matemática, a teoria de sistemas ou uma axiomática de tipo Hilbert tentasse formalizar a preposição întru, fracassaria na certa. Ou então esmagaria uma criatura tão viva como esta partícula.
Întru é uma das palavras que dão conta da complexidade e da maleabilidade [suplețea] de uma língua românica como o romeno. Esta preposição polissêmica desvela o perfil arcaizante das novas palavras, o passado capturado nos aros [spițele] dos sentidos/significados [sensurilor/semnificațiilor]. Eu torno a citar Noica para responder a sua pergunta. “Portanto: em seu conteúdo, ‘întru’ carrega nela as contradições fundamentais que brotam do âmago do ser [contradicţiile fundamentale ce se ivesc în sînul fiinţei]; em seu movimento, possui algo do processo do pensamento e sua abertura de campos de horizonte lógico. Formalmente, întru presenta o círculo, a orientação, o horizonte móvel/movente [mișcător], delimitação que não limita [limitația ce nu limitează]. Se não fosse apenas uma preposição, poder-se-ia dizer que întru é todo um sistema de filosofia.”[9] Acho que não há nada a ser acrescentado. Finalul ne taie răsuflarea (“o final nos corta a respiração”).

R.M.: Como entender a românitate (“romenidade”), a identidade nacional, a forma mentis, o sentimento fundamental, a essência ou o espírito do povo romeno – para além de Cioran? O cristianismo ortodoxo, de corte bizantino, desempenha um papel fundamental nesse quesito, conforme se distingue do catolicismo romano?

S.C.: Vai depender do que você entende por este termo, românitate. Pertencer ao povo romeno? O orgulho de poder dizer em voz alta: Sunt român? [Sou romeno?] A maneira como, ao longo da vida, luta-se para não desistir de suas origens? Como qualquer abstração, o termo românitate sofre de um relaxamento semântico [răsfirare semantică], tendendo a camuflar assim o seu conteúdo mesmo. Sem dúvida pode-se identificar pontos de intersecção entre a o cristianismo ortodoxo e essa “romenidade”. Nomes de governantes e prelados romenos (padres ortodoxos, metropolitas, teólogos ou bispos grego-católicos), dos mártires da fé que, ao longo da história, têm defendido o destino da Ortodoxia, da fé em geral, poderia ser discutido. Figuras que passaram anos e anos na cadeia e, mesmo assim, não abdicaram de suas crenças, mantendo viva a chama da religiosidade, dessa tal românitate afinal de contas. Constantin Brâncoveanu, Andrei Șaguna, Dumitru Stăniloae, Constantin Galeriu, Arsenie Papacioc, Iustin Pârvu, Gh. Calciu Dumitreasa… Centenas deles morreram nas prisões comunistas.
O que escreve Cioran, em Schimbarea la faţă a României[10] (1936), segue sendo válido, extremamente atual: “Os defeitos de evolução da Romênia não são de natureza religiosa. Se não saímos do lugar durante tanto tempo, a Ortodoxia não é a culpada; nós somos. Ela não fez senão encerrar-nos em nós mesmos e velar nosso silêncio ou nosso pesar. O seu destino tem todos os caracteres do destino romeno, o que explica que ela tenha participado de quase todas as formas de nacionalismo, e que só possa ser nacionalista. […] Muitas pessoas na Romênia creem em Deus; penso que, no nosso passado, ninguém duvidou dele. Mas a religiosidade romena é menor, isenta de paixão e, mais do que isso, de agressividade. Quantos de nós não fizeram da tolerância um mérito, não transformaram a deficiência em virtude! […] Nae Ionescu[11] disse uma vez que a nação romena repousa na Ortodoxia.”[12] Os tempos que estamos vivendo agora, durante esta pandemia, só acentuam este sentimento de impotência para compreender o sentimento religioso, de estar verdadeiramente na fé ortodoxa, no passado tão reprimida, negada, humilhada.

R.M.: Que conselhos você daria para os leitores de Cioran no Brasil que consideram a possibilidade de desenvolver alguma pesquisa acadêmica em torno de sua obra e de seu pensamento? Você considera essencial conhecer devidamente Emil Cioran, antes de se tornar E.M. Cioran, e não somente pela leitura de seus textos romenos, livros e ensaios, mas também mediante um sólido aporte crítico-biográfico (o que não se encontra amplamente disponível em língua portuguesa)?

S.C.: Todo escritor deve ser conhecido assim, em sua inteireza, e não apenas em fragmentos. Ou melhor, um fragmento deve ser comparado sempre com as demais partes integrantes da obra para que, finalmente, se possa extrair uma rede de significados [rețeaua de semnificație], uma substância ativa, um genoma, um DNA de identificação. Mas, como apenas em fragmentos podemos explorar outros planetas através do telescópio, em toda a sua beleza, o mesmo vale quando se trata de ler um determinado autor – no nosso caso, um filósofo como Cioran. Se utilizamos o Dicionário como um telescópio, um telescópio linguístico, poderemos apreciar a paisagem maior do estilo cioraniano [peisajul mărit al stilului său]. A óptica faz parte dos realia que podem conduzir ao todo. Pars pro toto. Ao movimentar-se em direção à fonte, ou para longe dela, opera-se o desnudamento, adentro efetivamente o magma de um fenômeno que segue suscitando o interesse de muitos intelectuais, e não só filósofos. O Dicionário pode ser um convite para sentar à mesa, mesmo quem venha de domínios de interesse distintos. Os dicionários coagulam, não dividem. É assim que eu os caracterizaria.

R.M.: Estimada professora Simona, uma vez mais gostaria de expressar, din toată inima, meus agradecimentos por esta entrevista tão fecunda. Só reforça a importância de conhecer a fundo não apenas os escritos de Cioran em romeno, sua matriz (“pátria”) linguística, como ademais a cultura, a língua romena per se, a história de suas palavras distintivas, muitas das quais integram também o léxico fundamental de Cioran, filósofo e escritor romeno. O Dicionário de termos cioranianos possui, sem sombra de dúvida, inestimáveis virtudes propedêuticas, o potencial de abrir novos horizontes de interpretação, para nós, brasileiros, interessados no pensamento filosófico e na “literatura”[13] de Cioran. Você nos proporcionou – a cada resposta, explicação, observação, contextualização – uma série de insights preciosíssimos sobre como nos orientarmos com mais propriedade e segurança, em meio à intricada cartografia lexical do pensamento de Cioran. Por favor, sinta-se à vontade para fazer quaisquer considerações finais, se quiser…

S.C.: Eu também te agradeço, de minha parte, din toată inima, por me convidar a responder a este conjunto de perguntas. Fico muito feliz em saber que existem no Brasil, tão longe do país de Cioran e meu, intelectuais que tecem conexões emocionantes [legături de suflet] entre culturas tão afins, entre palavras que provêm do mesmo tronco, a língua latina. Caro Rodrigo, o Portal que você criou é único! Gostaria de concluir cordialmente, de um coração batendo para outro [ca de la inimă la o altă inimă care bate], com este fragmento de Lágrimas e Santos: “Só as batidas do coração nos lembram que houve um tempo … Sua função não é fisiológica, mas metafísica: marcar o tempo. Só através do coração sabemos que algo muda, e sem esse órgão do devir, teríamos há muito congelado em um êxtase desolador.”[14]

Portal E.M. Cioran Brasil (2010-2021)
São Paulo, Brasil – Timișoara, Romênia
Dezembro 2020/Janeiro 2021


NOTAS:

[1] A língua portuguesa carece de uma preposição única para expressar deslocamento/movimento “em direção a…”, como hacia (espanhol), vers (francês), verso (italiano), toward (inglês).

[2] Em conversa com Sylvie Jaudeau, Cioran confessa ter experimentado diversas vezes o êxtase, “instantes em que se é transportado para fora das aparências. […] Essas poucas iluminações abriram-me para o conhecimento da felicidade suprema da qual falam os místicos. Fora dessa felicidade, à qual somos convidados excepcional e brevemente, nada tem verdadeira existência; vivemos no reino das sombras. Seja como for, não se volta o mesmo do paraíso ou do inferno.” CIORAN, E.M., Entrevistas com Sylvie Jaudeau. Trad. de Juremir Machado da Silva. Porto Alegre: Sulina, 2001, p. 16.

[3] Experiência e poética da ambivalência bastante familiares, aliás, a Charles Baudelaire, que Cioran gostava de citar, e com cuja dualidade se identificava: “Eu penso com muita naturalidade na morte, como os outros na vida. Mas no fundo, num caso e noutro, trata-se de uma única e mesma obsessão, só que exprimida diferentemente. Em mim, ‘o horror e o êxtase da vida’ são absolutamente simultâneos, uma experiência de cada instante.” CIORAN, E.M., Cahiers : 1957-1972, p. 382-383. Baudelaire, em Mon cœur mis à nu: “Muito pequeno, senti em meu coração dois sentimentos contraditórios: o horror da vida e o êxtase da vida.”

[4] “Pode-se imaginar que um homem não tenha vivido sua vida inteira no mundo que ele mesmo criou? Nada nos faz crer que, antes de sua queda, Mozart não tenha vivido em um mundo de vibrações puras, em outro mundo. Ninguém canta o paraíso porque não o tem, mas porque não quer perdê-lo.” CIORAN, Emil, O livro das ilusões, p. 93.

[5] “Por mais implacáveis que sejam nossas recusas, não destruímos totalmente os objetos de nossa nostalgia. De nada vale deixar de acreditar na realidade geográfica do paraíso ou em suas diversas figurações, ele reside de qualquer maneira em nós como um dado supremo, como uma dimensão de nosso eu original; trata-se agora de descobri-lo aí. Quando o conseguimos, entramos nessa glória que os teólogos chamam essencial; mas não é Deus que vemos face a face, é o eterno presente, conquistado acima do devir e da própria eternidade…” CIORAN, E.M., História e utopia. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p. 125.

[6] “Ea s-a născut din bucuria de-a vedea în prepoziția ‚întru’ unul din cele mai sugestive cuvinte-cheie pentru întemeierea filozofică, şi a trecut peste cuvinte ca ‚sinea’, ‚rostire’ şi atîtea altele, peste unele cuvinte ale lui Eminescu, ale lui Varlaam, ale aîorva dieci, sau ale păstorilor şi mocăncuțelor din Ardeal (care spun troaş, de la Traian, traian, troiănaş), ca printr-o interminabilă sărbătoare a gîndului. Dacă la început aceste cuvinte vor apărea cu adevărat ca statui într-un muzeu, gîndul cărţii sau nădejdea ei ascunsă este ca unele dintre ele să nu rămînă simple statui, dar nici să se topească în universalul culturii, ci să treacă pe nesimțite, din muzeul lor, în inimi şi cugete.” [Nasceu da alegria de ver na preposição ‘întru’ uma das palavras-chave mais sugestivas para a fundamentação filosófica, e seguiu até palavras como sinea, rostire, e tantas outras, até umas palavras de Eminescu, de Varlaam, dos aîorva dieci, ou dos pastores e dos mocăncuțes da Transilvânia (que dizem troaş, de Traian, traian, troiănaş), como uma interminável celebração do pensamento. Se a princípio estas palavras realmente aparecerão como estátuas em um museu, o pensamento do livro ou sua esperança oculta é que algumas delas não hão de tornar-se meras estátuas, mas também não se fundirão na universalidade da cultura, senão que passarão despercebidas, de seus museus, aos corações e às mentes.] NOICA, Constantin, Cuvânt împreună despre rostirea românească, p. 11.

[7] “[Întru] păstrează – e drept mai mult în locuţiuni decît izolat – virtutea sa dialectică de a face să ţină laolaltă sensuri contradictorii.” IDEM, Op. cit., p. 36-37.

[8] “De la sensul sau sensurile locale – cele fundamentale, în cadrul cărora e vorba de a fi în, dar şi de a lucra în, a se desfăşura în, trecîndu-se apoi la : a pătrunde în, a se aşeza în, a se aşeza pe, a tinde către, a izvorî din, a se limita la –, s-a ajuns la sensuri instrumentale, temporale, cauzale, finale, relative, modale, ba chiar la sensuri de echivalenţă, măsură şi raportare analogică.” IDEM, Op. cit., p. 37.

[9] IDEM, Op. cit., p. 40.

[10] “Transfiguração da Romênia”, publicado no mesmo ano que o Livro das ilusões (1936). É o livro “maldito” de Cioran, a mancha de sua obra, que ele preferiria nunca ter escrito. Ele se insere – como outros textos soltos, publicados em diferentes lugares – no contexto de sua juventude na Romênia, no período entreguerras, marcado pela agitação da vida cultural e política do país, sobretudo entre os jovens intelectuais e estudantes universitários, muitos dos quais haviam conseguido, havia pouco, graças a reformas educacionais, acesso à educação superior. Antes de se tornar um escritor de língua francesa, Cioran foi um membro da jovem geração de intelectuais romenos de 1927, também conhecida como grupo/movimento Criterion, reunido em torno de Mircea Eliade e da qual fizeram parte outros nomes que se tornariam mais ou menos conhecidos mundialmente, como Constantin Noica, Mircea Vulcănescu, Petre Tuţea e Mihai Sebastian. Num momento volátil de polarização (grosso modo, a década de 30), de mobilização das forças políticas (revolucionárias, reacionárias) e de intensificação das tensões político-ideológicas (em âmbito nacional e europeu), alguns desses jovens intelectuais se voltariam à extrema esquerda, outros à extrema direita. Cioran mesmo – como atestam “Transfiguração da Romênia” e outros textos de teor político escritos à época – não é exceção, não escapou ao canto da sirena populista (de extrema direita, ultranacionalista, racista, xenofóbica), no contexto de sua terra natal (de onde a questão, que não nos interessa aqui, de seu malfadado envolvimento, na juventude dos anos 30, com a Guarda de Ferro).

[11] Nae Ionescu (1890-1940), professor de filosofia na Universidade de Bucareste quando Cioran fez seus estudos universitários (1927-1932), tendo como seus alunos aquela jovem geração de jovens intelectuais anteriormente mencionada. Um dos poucos que, segundo Cioran, fazia valer a pena o “esforço” de ir à universidade assistir às aulas de filosofia. Acima de Eliade (líder dos jovens estudantes reunidos em torno do grupo Criterion), foi Ionescu (professor antissemita e reacionário, agitador político e polemista) o grande catalisador e galvanizador, o diretor intelectual dessa geração de jovens intelectuais, responsável por atrair parte de seus alunos, incluindo Cioran, ao movimento legionário de extrema-direita da Guarda de Ferro (do qual se tornaria partidário, segundo certas fontes, por puro desafeto e ressentimento contra o rei).

[12] „Defectele de evoluţie ale României nu sunt de natură religioasă. Dacă nu ne-am mişcat atâta timp, nu este de vină ortodoxia; suntem noi. Ea n-a făcut decât să ne închidă în noi înşine şi să ne vegheze tăcerea sau jalea. Destinul ortodoxiei noastre are toate caracterele destinului României. (…) În România sunt mulţi oameni cari cred în Dumnezeu; în trecutul nostru cred că n-a fost nimeni să se îndoiască. Numai că religiozitatea românească este minoră, nepasionată şi, mai cu seamă, neagresivă. Câţi n-au făcut un merit din toleranţa noastră şi au transformat o insuficienţă în virtute! (…) Nae Ionescu spunea odată că neamul românesc se odihneşte în ortodoxie.” CIORAN, Emil, La transfiguration de la Roumanie [Schimbarea la faţă a României]. Trad. de Alain Paruit. Paris: L’Herne, 2009, p. 163-164.

[13] Essa “trapaça salutar” de que fala Roland Barthes: “Na língua, […] servidão e poder se confundem inelutavelmente. Se chamamos de liberdade não só a potência de subtrair-se ao poder, mas também e sobretudo a de não submeter-se a ninguém, não pode então haver liberdade senão fora da linguagem. Infelizmente, a linguagem humana é sem exterior: é um lugar fechado. Só se pod sair dela pelo preço do impossível: pela singularidade mística, tal como a descreve Kierkegaard, quando define o sacrifício de Abraão como um ato inédito, vazio de toda palavra, mesmo interior, erguido contra a generalidade, o gregarismo, a moralidade da linguagem; ou então pelo amen nietzschiano, que é como uma sacudida jubilatória dada a servilismo da língua, àquilo que Deleuze chama de ‘capa reativa’. Mas a nós, que não somos nem cavaleiros da fé nem super-homens, só resta, por assim dizer, trapacear com a língua, trapacear a língua. Essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem, eu a chamo, quanto a mim: literatura.” BARTHES, Roland, Aula. Trad. de Leyla Perrone-Moysés. São Paulo: Cultrix, 2004, p. 15-16.

[14] „Numai bătăile inimii ne mai aduc aminte că a fost cândva un Timp… Rostul lor nu este de ordin fiziologic, ci metafizic: marcarea timpului. Doar prin inimă ştim că se schimbă ceva, căci, fără acest organ al devenirii, am fi încremenit demult într-un extaz pustiu.” CIORAN, Emil, Lacrimi si sfinţi. Bucuresti: Humanitas, 1991, p. 130.

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