“Hipóstase dos Arcontes”: Secret Chiefs 3 e sua demiurgia musical

“Solidão do ódio… Sensação de um deus voltado para a destruição, pisoteando as esferas, babando sobre o céu e sobre as constelações…. de um deus frenético, sujo e malsão; um demiurgo ejaculando, através do espaço, paraísos e latrinas: cosmogonia de delirium tremens; apoteose convulsiva em que o fel coroa os elementos… As criaturas se lançam na direção de um arquétipo de fealdade e suspiram por um ideal de deformidade… Universo da careta, júbilo da toupeira, da hiena e do piolho… Nenhum horizonte mais, salvo para os monstros e para os vermes. Tudo se encaminha para o repulsivo e para o gangrenoso: este globo que supura enquanto que os viventes mostram suas feridas sob os raios do cancro luminoso.”

CIORAN, Breviário de decomposição

Secret Chiefs 3 é um grupo de música experimental e multifacetada muito longe do convencional. Munidos de uma diversidade de instrumentos musicais habilmente executados, desenvolvendo uma sonoridade insólita, uma música muitas vezes “difícil” (como neste caso), Secret Chiefs comunica em seus títulos e em sua simbologia todo um leque de referências estéticas para além da música. A temática das canções dialoga com autores como Hans Jonas, Harold Bloom, Henry Corbin, Peter Lamborn Wilson e Philip K. Dick. Esta canção, muito distinta das demais no conjunto da obra, intitula-se “A hipóstase dos arcontes”, um tema claramente gnóstico que tem a ver com o processo de formação das esferas cósmicas e do kosmos enquanto tal.

SC3 é um conglomerado de grupos dentro de um mesmo grupo, às vezes com os mesmos integrantes, às vezes diferentes, veículos musicais singulares que executam estilos absolutamente distintos uns dos outros. Assim, cada faixa pareceria pertencer a um grupo diferente das demais, a um album à parte, a um universo musical à parte. Mais ou menos como cada livro no conjunto da obra de Cioran. E se o autor de A Tentação de Existir (1957) concebe uma “demiurgia verbal”, aqui está uma “demiurgia musical“: doom metal como trilha sonora da “Criação-Queda” (Harold Bloom).


A Hipóstase dos Arcontes é um tratado gnóstico de autoria anônima, apresentando uma interpretação esotérica de Gênesis 1-6, parcialmente na forma de um discurso de revelação entre um anjo e um questionador. Embora o tratado ilustre o amplo sincretismo helenístico, os componentes mais evidentes são judaicos, embora em sua forma atual, A Hipóstase dos Arcontes mostre claramente características cristãs e, portanto, possa ser considerada uma obra cristã. Sua perspectiva teológica é um gnosticismo vigoroso, talvez de afiliação sethiana.

O documento é hipoteticamente datado do século III d.C., seguramente não posterior ao século IV, no qual a coleção de Nag Hammadi costuma ser datada. […] Além disso, a orientação filosófica de 96, 11-14 foi identificada como típica do neoplatonismo do século III. […] A Hipóstase dos Arcontes é certamente o trabalho de um professor gnóstico instruindo uma audiência. Recorrendo a materiais anteriores, ele escreve de uma posição de autoridade, mesmo na revelação angelical, onde um personagem no discurso está ostensivamente falando. […] A Hipóstase dos Arcontes é, portanto, uma obra esotérica, escrita para uma comunidade autoconsciente que provavelmente sentiu a pressão de uma comunidade cristã que se definiu como ortodoxa e outras como herética.

Após uma breve introdução que cita “o grande apóstolo” Paulo, A Hipóstase dos Arcontes introduz sua narrativa mitológica. Os personagens principais do drama mitológico que se desenrola incluem o governante cego Samael, também chamado Sakla (“tolo”) e Yaldabaoth, que blasfema contra o divino; a Mulher espiritual, que desperta Adão e vence os governantes vorazes; a Cobra, o Instrutor, que aconselha o homem e a mulher a comer do fruto proibido pelos governantes; e Norea, a (filha de Eva, uma virgem de caráter puro e exaltada em conhecimento. Na página 93 do tratado o foco muda um pouco: no centro do palco agora está o grande anjo Eleleth, que revela a Norea a origem e o destino do poderes arcônticos.

A Hipóstase dos Arcontes proclama, como seu título indica, a realidade dos governantes arcônticos: longe de serem meramente fictícios, poderes imaginários, os arcontes são muito reais. Esses governantes realmente existem. Esta é uma dura realidade para os gnósticos cristãos, que definem sua própria natureza espiritual em oposição àquela das autoridades governantes e escravizadoras. No entanto, como este documento promete, os gnósticos cristãos podem ter esperança, pois sua natureza espiritual será mais duradoura do que os arcontes e seu destino celestial será mais glorioso. No final, os governantes perecerão e os gnósticos, os filhos da luz, conhecerão o Pai e o louvarão.

BULLARD, Roger A., Introduction to The Hypostasis of the Archons (II, 4). In ROBINSON, James M. (ed.), The Nag Hammadi Librady. The Definitive Translation of the Gnostic Scriptures. San Francisco: HarperCollins, 1990.

“Hipóstase dos arcontes”

Outras hipóstases e demiurgias musicais:

“The Exile”
“Akramachamarei” (Masada Set)
“Renunciation”
“Le Mani Destre Recise Degli Ultimi Uomini” (Medley)
“Vajra”
Ao vivo no Saint Vitus Bar, NY (22/10/2014)

Em uma entrevista realizada no Chile, Trey Spruance fala de sua concepção e abordagem da música, considerada por ele como paradigma de harmonias cósmicas (propriedades físicas e geométricas do universo), a exemplo do que afirma Heráclito de Éfeso: “Harmonia invisível superior à visível”.

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