“Nietzsche e a busca pelo seu leitor ideal” (Eduardo Nasser)

Cadernos Nietzsche, vol.1 no.35 São Paulo Dec. 2014

RESUMO: Durante praticamente todo o seu itinerário filosófico, Nietzsche se preocupou com a recepção de seu pensamento, desenvolvendo coordenadas de como gostaria que os seus escritos fossem lidos. Essas coordenadas passam a cumprir uma função particularmente significativa e estratégica no período em que o filósofo concebe o projeto de um ocultamento resoluto de suas posições mais essenciais – um projeto que vai de par com a adesão ao estilo aforismático-, podendo ser dividas em duas classes: aquelas que solicitam o leitor que preserva a literalidade do texto e aquelas que estimulam o leitor a empreender uma arte de interpretação. A reunião desses dois direcionamentos fecunda a figura do leitor ideal de Nietzsche, o leitor que adentra de forma ativa na corrente de pensamentos que precede os aforismos, sem, contudo, perder de vista a letra do filósofo.
Palavras-Chave: leitor; recepção; filologia; interpretação; aforismo

ABSTRACT: During practically all of his philosophical itinerary, Nietzsche was concerned with the reception of his thought, developing coordinates on how he would like his writing to be read. These coordinates acquire a significant and strategic role particularly during the period in which the philosopher conceived the project of a resolute concealment of his most essential positions – a project that will pair with his adhesion to an aphorismic style – that can be divided in two classes: those that requests the reader that preserves the text literacy and those that incites the reader to undertake an art of interpretation. The gathering of these two directions generates the figure of the ideal reader of Nietzsche, a reader that actively enters the chain of thought that precede the aphorisms, without, however, loosing site of the philosopher’s word.
Key words: reader; reception; philology; interpretation; aphorism


Neste artigo, procurarei investigar as sugestões dadas por Nietzsche para os seus leitores de como ele gostaria de ser lido. Feitas ao longo de praticamente toda a produção nietzschiana de maneira esparsa e pouco sistemática, muitos podem, por certo, ver nessas sugestões nada além do reflexo de um autor preocupado com os seus leitores mais ansiosos. Isso poderia nos convencer de que elas cumprem unicamente uma propedêutica para um público restrito, um público ainda imaturo que necessita ser advertido. Contudo, eu gostaria de apresentar a hipótese de que essas sugestões não são tão banais quanto parecem, fazendo parte de uma estratégia mais sofisticada. Pois Nietzsche não quer com elas fazer somente uma advertência oportuna, mas também apresentar regras. Isso significa que a obra nietzschiana – ou ao menos parte dela, aquela que compreende os escritos aforismáticos – não pode ser abordada como um objeto que acolhe diversos tipos de leituras sem impedimentos. Trata-se de uma obra bastante peculiar que impõe, desde si, condições para ser acessada, exigindo, enfim, um tipo de leitor ideal.

O leitor filólogo.

Diferentemente de grande parte dos filósofos, Nietzsche sempre se mostrou preocupado com o seu leitor, provavelmente antevendo a grande quantidade de controvérsias que marcaria a recepção do seu pensamento. Essa preocupação aparece pela primeira vez de uma forma explícita no prefácio de Sobre o futuro de nossos estabelecimentos de formação, quando o filósofo traz a lume um pequeno manual de como gostaria de ser lido… [+]

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