“O conceito de vivência (Erlebnis) em Nietzsche: gênese, significado e recepção” – Jorge Luiz VIESENTEINER

Kriterion 54 no. 127, Belo Horizonte, junho de 2013.

RESUMO: O objetivo deste artigo é analisar o conceito de vivência (Erlebnis) na filosofia de Nietzsche, desde o seu primeiro emprego em língua alemã, seu significado e a recepção que Nietzsche faz da palavra no interior da sua filosofia. O conceito de Erlebnis, particularmente caro à filosofia de Nietzsche, mas também à fenomenologia, possui originariamente uma tríplice significação: a) a imediatez (Unmittelbarkeit) entre homem e mundo; b) a significabilidade (Bedeutsamkeit) para o caráter global da existência; e c) a incomensurabilidade (Inkommensurabilität) do conteúdo da própria vivência, conferindo a ela também uma dimensão estética. A tríplice significação de Erlebnis implica na sua estreita associação a pathos.

Palavras-chave: Erlebnis, imediatez, significabilidade, incomensurabilidade, pathos.

ABSTRACT: This paper aims to analyze the concept of experience (Erlebnis) in the Nietzsche’s philosophy, since its first use into the German language, its meaning and reception of Nietzsche inside his philosophy. The concept of Erlebnis, especially dear to the philosophy of Nietzsche, but also to phenomenology, originally has a triple meaning: a) the immediacy (Unmittelbarkeit) between man and world, b) meaningfulness (Bedeutsamkeit) to the global nature of existence and c) incommensurability (Inkommensurabilität) of the experience’s content itself, giving it also an aesthetic dimension. The threefold meaning of Erlebnis implies its close association with pathos.

Keywords: Erlebnis, immediacy, meaningfulness, incommensurability, pathos.

A ocorrência da palavra vivência, Erlebnis, aparece no vocabulário alemão pela primeira vez a partir da primeira metade do século XIX, e ganha estatuto filosófico só em meados do mesmo século. Substantivado a partir do verbo erleben, Erlebnis significa “estar ainda presente na vida quando algo acontece”, e seu uso linguístico geral remonta à literatura de caráter biográfico que surge inicialmente com o texto de Dilthey sobre a vida de Schleiermacher.

O uso geral da palavra Erlebnis originalmente possui três aspectos principais: 1) vivência tem o caráter de ligação imediata com a vida (Unmittelbarkeit), de modo que não se vivencia algo através do legado de uma tradição e nem através de algo de que “se ouviu falar”, mas sim Erlebnis “é sempre vivenciada por um Si” efetivamente, “cujo conteúdo não se deve a nenhuma construção”, por isso o caráter de “imediatez” da vivência com a vida. 2) Além disso, o que é vivenciado deve ter uma intensidade de tal modo significativa, cujo resultado confere uma importância que transforma por completo o contexto geral da existência: “Ao mesmo tempo, a forma ‘o que se vivenciou’ ” classifica o que, no curso da vivência imediata, ganhou duração e significabilidade para o todo de um contexto de vida, enquanto seu produto mediato”. Que alguém ainda tenha que vivenciar algo significa não apenas que esse alguém estará ligado à vida de forma imediata, mas também que a vivência deve ter uma tal significabilidade, a ponto de conferir importância decisiva ao caráter global da vida daquele que vivencia. Imediatez e significabilidade constituem, pois, o substrato que o emprego geral da palavra Erlebnis ganha a partir da primeira metade do século XIX. A ideia filosófica posterior que remonta à Erlebnis como condição última para toda teoria, deriva, como se vê, das duas características correntes na literatura alemã.

O terceiro significado do uso do vocábulo Erlebnis se refere ainda precisamente ao conteúdo daquilo que se vivencia. Trata-se da impossibilidade de determinar racionalmente o conteúdo da vivência, de modo que a noção de Erlebnis deve sempre ser pensada do ponto de vista estético. Esse terceiro aspecto é compreendido à luz do contexto ao qual a palavra Erlebnis surge na literatura alemã, vale dizer, como oposição intransigente à frieza da especulação metafísica e ao racionalismo da Aufklärung: “A cunhagem da palavra ‘Erlebnis’ evoca abertamente a crítica ao racionalismo da Aufklärung […]. Em oposição à abstração do entendimento e igualmente contra a particularidade da sensação ou representação, o conceito implica uma ligação com a Totalidade, com a Infinitude”.

O anseio por uma relação imediata entre o homem e o mundo, cuja linguagem fosse capaz de exprimir a abundância de sentimento dessa Erlebnis não permite o uso de meios racionais que expliquem tal conteúdo. As reflexões sobre a “particularidade da poesia e da estética na época do Sturm und Drang e do romantismo alemães” exerceram, como se vê, papel decisivo na incomensurabilidade do conceito Erlebnis. Desde o século XVIII os poetas já buscavam uma palavra que pudesse expressar a totalidade da vida e seu cortejo de sensações.11 Trata-se de encontrar uma linguagem que, além de ultrapassar os limites da racionalidade, seria também responsável por trazer à luz a linguagem dessa Totalidade através de um duplo papel: a) expressar imediatamente a relação homem-mundo, cujo substrato remonta exclusivamente às vivências atravessadas pelo autor, sob pena de esvaziar o conteúdo dessa linguagem, bem como b) indicar o caráter estritamente autobiográfico do autor, na medida em que a expressão das suas vivências através de tal linguagem ganharia o aspecto “de uma grande confissão”… [+]

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