“Cioran e o tempo” (Juan Bolea)

El Periódico de Aragón, 02/03/2021

A editora Tusquets está tomando a louvável iniciativa de relançar a obra de Emil Cioran, o filósofo romeno que não deixa o leitor indiferente. Com suas leituras recuperadas, irônicas e desesperadas, niilistas e sarcásticas, passo algumas horas de meditação paradoxal, segundo os caminhos tortuosos traçados pelas reflexões deste bárbaro autor. “Mas os pensamentos são flechas envenenadas”, ele nos avisa.

Em Janela para o nada, o volume que acaba de ser lançado, reunem-se aforismos, anotações e fragmentos que Cioran escreveu em 1944 em Paris, depois de (como ele próprio confessaria em uma de suas cartas) “ter passado mais de sete anos apodrecendo no Quartier Latin”.

Esta referência à passagem inelutável do tempo, e ao próprio Tempo como conceito, erro ou condenação, inspira boa parte das reflexões filosóficas deste pensador que pode nos lembrar Heine, Nietzsche, Sartre, Heidegger, mas que, linha a linha, está a elaborar a sua própria construção de palavras e ideias, embora dificilmente defenda um sistema e menos ainda as ferramentas que o configuram. “A alma não acredita em palavras”, sentencia ele.

Contra o deus Cronos, se revelará Cioran com gritos de partir o coração: “O tempo é filho bastardo de nosso coração brutalizado”; “O tempo desenrola o fio da alma entre o nojo e a idolatria”; “Os únicos momentos favoráveis ​​são aqueles que nos expulsam do tempo”; “O absurdo e o tempo surgiram simultaneamente no mundo”; “Quem percebe o tempo não pode mais perceber nada”; “Já que a vida é insônia, o sono é divindade”; “A vida é uma história na qual o tempo se conta” ou “O tempo é um veneno derramado da eternidade”.

Além de suas reflexões sobre o tempo, Cioran medita agudamente sobre muitos outros tópicos: religião, poder, cultura… Com frases como estas: “A religião diz respeito ao homem, à gente; a poesia, ao indivíduo ‘; “A cultura se reduz a um uso refinado do adjetivo”; “O estilo é uma máscara e um vôo”; “A vida clama contra a vida”; “As massas estão perdidas porque o ser humano não suporta a felicidade; ele só pode sonhar com ela.”

Tradução do espanhol: Rodrigo Menezes (16/03/2021)

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