Experimentalismo, Polifonia, Polimorfismo e Fragmentarismo na “obra” de Cioran

“Este é o drama de todo pensamento estruturado, não permitir a contradição. Assim, caímos na falsidade, mentimos para salvar a coerência. Por outro lado, se praticamos o fragmento, no decorrer do mesmo dia pode-se dizer uma coisa e o contrário. Por quê? Porque cada fragmento surge de uma experiência diferente, e todas essas experiências são igualmente verdadeiras: elas são o o que mais importa. Um pensamento fragmentário reflete todos os aspectos da experiência: um pensamento sistemático reflete apenas um, o aspecto controlado, logo empobrecido.”

CIORAN, entrevista com Fernando Savater, in: Entretiens

Esta consideração, este princípio (ao mesmo tempo estético, ético e ontológico) aplica-se não apenas aos fragmentos e aforismos, e à relação entre eles no nível textual, como também aos livros, no nível editorial. Cada livro de Cioran é (como cada aforismo) a culminação ou corolário de um momento, de uma situação, experiência ou vivência, singular e irrepetível. Cada um deles possui algo de singular, um tom, um ritmo, uma inflexão, que é só dele, ausente de todos os demais.

Ao mesmo tempo, cada livro emana algo, uma nota, acorde ou vibração constante, proveniente do autor mesmo, que lança luz e ajuda a compreender a “obra” em seu conjunto, descortinando novas perspectivas de leitura e interpretação, mais amplas, mais aprofundadas. Pode-se encontrar em qualquer um deles um aforismo tão inusitado, a julgar pelo que havia sido previamente lido, que ele por si só opera uma reviravolta total no nosso entendimento do autor. Em seu livro sobre Cioran, corolário de sua tese de doutorado, Liliana Herrera escreve:

“A obra francesa pode ser entendida através de dois momentos temáticos: o primeiro, referente à crítica da história, da utopia e do problema do poder. O segundo constitui a reflexão metafísica cioraniana, através de temas alegóricos como a criação, a queda, o nascimento da consciência e o ataque aos fundamentos do ser. Estes dois momentos sintetizam o grande problema do tempo, que constitui o núcleo de nossa interpretação.”

HERRERA A., M. L., Cioran: lo voluptuoso, lo insoluble. Pereira: Publiprint, 2003, p. 18.

O Breviário de decomposição (1949), por exemplo, é bastante distinto do livro seguinte, Silogismos da Amargura (1952), A Tentação de Existir (1957), Le Mauvais Démiurge (1969) ou Écartèlement (1979). O Précis é em grande medida um tratado de “a-soteriologia”, ou seja, um conjunto de “exercícios negativos”, na contramão de todo “ideal ascético” (Nietzsche), notadamente a negação de ideias caras à religião e ao humanismo (secular e cristão), como “salvação”, “Deus”, “alma”, “liberdade”, “santidade”, “virtude”, “Bem”, sendo este, o seu aclamado début em língua francesa, um livro gritado, dilacerado, desconsolado, de um (ultra)romantismo lírico, crepuscular e tempestuoso (de viés byroniano), de um niilismo virulento e dificilmente respirável.

Le Mauvais Démiurge (1969), em contrapartida, não tem nada de a-soteriológico, se contraposto ao Breviário, pelo contrário: aí o autor romeno, já um consagrado escritor de língua francesa, tece longas reflexões, na forma de ensaio, acerca de temas como o nirvana e a “iluminação”, ao modo oriental, o vazio como instrumento de salvação ou antes de libertação, de onde a urgência de uma délivrance (“libertação”) que se revela uma tarefa hercúlea, se não impossível, na medida em que exige a proeza do desapego em relação a si, a esse maldito yo que é o dogma supremo de cada um.

Enquanto o Breviário é um tratado da decomposição no qual o autor concebe uma “Ordem da Salvação Impossível” (pensando aqui, talvez, teologicamente, na “salvação”, ao modo cristão), Le Mauvais Démiurge contém toda uma teoria soteriológica não sistemática, uma meditação ascética heterodoxa, de cunho ateísta e a-teológico, da libertação (délivrance) pelo vazio ou vacuidade (sunya/sunyata, em sânscrito). Vide os dois longos e importantes ensaios deste livro ainda inédito em português, “Paleontologia” e “O não-liberto”.

SÁ MENEZES, R. I. R., “Experimentalismo, polifonia, polimorfismo e fragmentarismo em Cioran”, Portal E.M. Cioran Brasil, 01/04/2021.

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