Cioran é reacionário?

« Seriez-vous réac ? – Si vous voulez, mais dans le sens où Dieu l’est. »

CIORAN, Écartèlement (1979)

« Vous êtes contre tout ce qu’on a fait depuis la dernière guerre, me disait cette dame à la page.
Vous vous trompez de date. Je suis contre tout ce qu’on a fait depuis Adam. »

CIORAN, De l’inconvénient d’être né (1973)

Uma obra aforística, fragmentária, ensaística e resolutamente antissistemática, como a de Cioran, na contramão da pretensão lógico-filosófica do sistema (arquitetura de conceitos, castelo abstrato), dos discursos pretensamente objetivos e “edificantes”, é antes uma questão de interpretação que de explicação. A intuição e a imaginação contam tanto quanto o raciocínio lógico-dialético. O repertório (livresco) e a experiência (pessoal, vivida) também.

Não que as incontáveis interpretações se equivalham umas às outras, numa mesmice relativista. Não se trata de estabelecer a verdade última sobre o texto e as ideias nele comunicadas, trata-se de fazer dialogar, e confrontar-se, exegeses que são mais ou menos fortes (rigorosas, consistentes), compreensivas, aprofundadas, validadas por um amplo conjunto de critérios hermenêuticos, locais e globais, atuais (presente) e passados (tradição). Faz-se necessário não só um conhecimento extensivo e intensivo da obra mesma, dos textos de Cioran, como também, idealmente, tanto quanto possível, um vasto repertório histórico-filosófico, e de outras naturezas, em cuja constelação de autores, filosofias, ideias e referências situar Cioran (que não surgiu do nada, não existe no vazio atemporal, na eternidade, fora da história).

Na opinião de Nicolae Popescu, a prosa de Cioran “o efeito caleidoscópico” da prosa cioraniana, e a pluralidade de narrativas esmiuçadas e disseminadas pelo autor, servindo de sinais referenciais ao leitor, são peculiaridades estéticas, éticas e ontológicas de uma “obra” que, por sua natureza mesma (negativa, paródica, corrosiva, atópica), requer um amplo horizonte hermenêutico da parte do exegeta.

Uma das interpretações mais frágeis e fáceis de demolir é a do “reacionário”, rótulo que frequentemente grudam nas suas costas, tanto os críticos e detratores quanto os leitores conservadores que assim se identificam. Cioran não é um reacionário, mas um antimoderno (na definição de Antoine Compagnon), logo um moderno “contrariado”, insatisfeito, decepcionado (como Baudelaire). Poder-se-ia dizer que Cioran é “antimoderno” por excesso de modernidade, de heresia, de vontade de ruptura, rebelião, dissidência, transgressão (cf. “O traidor modelo”).

Cioran é um espírito modernista sui generis (tempestuoso, abismal, “monstruoso”), um filósofo de alma romântica dos Bálcãs. Em sua juventude insone, alucinada e politicamente engajada, ele defendia, na contramão do arcaísmo rural de Eliade e da Guarda de Ferro, pautado no cristianismo ortodoxo como fator de unidade e coesão nacional, o princípio progressista do sincronismo: industrializar e cosmopolitizar para “sincronizar” o país em relação às grandes nações modernas, fazê-lo avançar na história mediante um “salto qualitativo no devir”, graças à educação, ao saber e ao esclarecimento (verdadeiros emancipadores).

É próprio do Reacionário (Maistre, Jacobi) ser contra a modernidade, os tempos modernos, como um desvio, acidente, erro de percurso. Cioran é contra tudo o que aconteceu desde Adão e Eva, conforme respondeu a um interlocutor, não contra o advento do “tempus novum”, muito pelo contrário: ele o saúda à sua maneira, irônica, paradoxal, contraditória, ambivalente. Como Nietzsche, ele é, à sua maneira, um “perito” (e um amante) de decadências.

“É um simples capricho aceitar ou repudiar um período: é preciso aceitar ou repudiar a história em bloco. A ideia de progresso faz de todos nós presunçosos sobre os cumes do tempo; mas não existem tais cumes: o troglodita que tremia de pavor nas cavernas, treme ainda nos arranha-céus. Nosso capital de infortúnio mantém-se intato através das idades; contudo, temos uma vantagem sobre nossos ancestrais: o de haver empregado melhor esse capital, ao haver organizado melhor nosso desastre.”

Breviário de decomposição (1949)

SÁ MENEZES, R. I. R., “Cioran reacionário?”, Portal E.M. Cioran Brasil, 02/04/2021.

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