“Festa para o pessimista”: 110 anos do nascimento de Cioran (1911-2021)

Completaram-se, em 8 de abril de 2021, 110 anos do nascimento daquele que passou a vida caluniando a vida e a morte, o nascimento e a existência, Deus e o mundo, tudo e nada e, é claro, a si mesmo.

“Pensar contra si” foi o seu programa. Só pensava, só se metia a filosofar quando estava triste: quando estava inspirado, no ponto certo da sua vertiginosa lucidez.

Em 8 de abril de 1933, dia em que completava 22 anos, ele escreveu, “nos cumes do desespero”, sentir-se “invadido por uma estranha sensação ao imaginar que me tornei, nessa idade, especialista na questão da morte.”

Graças ao seu pai, Emilian, que financiou as suas insônias, patrocinando a a contragosto sua carreira na heresia, pôde encontrar sua verdadeira vocação, quando toda profissão lhe era impraticável, a começar pela de professor.

Se não fosse por esse patrocínio, Cioran talvez não tivesse vivido para contar história, e não existiriam os livros desse autor que conhecemos, e que escreveria, já em francês: “Ter dedicado à ideia da morte todas as horas que uma profissão teria exigido… Os extravasamentos metafísicos são próprios dos monges, dos libertinos e dos mendigos. Um emprego teria feito do próprio Buda um simples descontente.”

Comparou-se com os grandes místicos cristãos e com o próprio Buda. Decepcionou-se com o Buda por considerá-lo demasiado otimista, ou pessimista de menos, a julgar por suas nobres verdades. O mesmo em relação a Schopenhauer. Não que ele mesmo seja pessimista (ao menos não se considera), ou queira qualquer cumplicidade com este “ismo”. Qualquer “ismo”. Niilismo? Uma “categoria escolar grotesca”, a perfeita vaguidão abstrata, difundida pelos manuais de filosofia, sob uma aparência de profundidade, rigor e alcance metafísico.

“Quanto mais leio os pessimistas, mais aprecio a vida. Depois de ler Schopenhauer, eu me comporto como um noivo. Schopenhauer tem razão ao afirmar que a vida não é mais do que um sonho. Mas incorre em inconsequência quando, em vez de estimular as ilusões, as desmascara, fazendo crer que exista algo fora delas. Quem poderia suportar a vida se ela fosse real? Sendo um sonho, é uma mescla de encanto e de terror a que sucumbimos.”

Lágrimas e santos (1937)

Não é possível não ver que Cioran faz, que precisa fazer, por uma necessidade pessoal, uma questão de vida ou morte, a apologia da Ilusão. Aí reside uma das contradições nevrálgicas do seu pensamento e do seu ser mesmo, à medida que a experiência cognitiva do pensamento possa coincidir com a experiência existencial de efetivamente ser ou estar em devir. “Estar na vida — sou de repente fulminado pela estranheza desta expressão, como se ela não fosse aplicável a ninguém.”

A apologia da Ilusão, como atmosfera metafísica fora da qual o homem não respira nem subsiste, não se limita a este livro de juventude. Essa apologia, tão apaixonada, tragicamente dilacerada, não é com Schopenhauer que ele compartilha, mas sobretudo com Nietzsche. Trata-se do estetismo cioraniano, presente e manifesto desde o seu primeiro livro, Nos cumes do desespero (1934), sendo depurado, sublimado, aperfeiçoado em sua écriture francesa.

Talvez Cioran esperasse a mesma reação paradoxal dos seus próprios leitores. E mesmo que não, o paradoxo ou a ironia quis que fosse este, de fato, o caso. Ao menos é o que atestam inúmeros testemunhos, de diferentes pessoas, das mais diversas origens, backgrounds e histórias de vida, que encontraram em seus livros, de uma maneira ou de outra (nunca é igual para cada leitor), nos piores momentos de suas vidas, uma espécie de consolo na desilusão, uma estranha e eficaz sabedoria da decepção, da vertigem e da ruína.


Ontem, no aniversário de 110 anos do nascimento de Cioran, o Portal E.M. Cioran Brasil recebeu um convidado especial, para uma tertúlia ao vivo, transmitida no YouTube, sobre ceticismo, mística, ateísmo e gnosticismo em Cioran: o prof. Leobardo Villegas, da Universidad Autónoma de Zacatecas no México, uma das sedes do Congreso Internacional Emil Cioran: entre Filosofía y Literatura, realizado durante 6 dias no México, em novembro de 2019, e de cuja organização participou.

Para além da exposição e das contribuições de Leobardo Villegas, todas bastante fundamentadas e arrazoadas, refletindo a sua longa trajetória de leitura de uma obra labiríntica como a de Cioran, menção seja feita às perguntas levantadas pelos participantes, todas elas respondidas com propriedade pelo convidado. Eu gostaria de retomar aqui, por escrito, duas delas, que me chamaram mais a atenção.

Após os ataques de Cioran, como abordar a filosofia?

A crítica demolidora empreendida por Cioran à filosofia, como sendo mais um ídolo entre outros, a religião em primeiro lugar, a serem derrubados e superados em nome de uma lucidez luciferina e tragicamente “filantrópica”, custe o que custar, não deixa de ser, paradoxalmente, uma tarefa filosófica com um objetivo filosófico: aqui, a filosofia deixa de ser uma profissão, um ofício, uma ocupação, uma atividade universitária formal, científica e burocrática, elevando-se a canto, missão e destino, todos eles de natureza solitária, e tão polifônica quanto mais solitária, ao modo de um Kierkegaard ou – mais próximo a Cioran – de um Chestov, ou mesmo de um Nietzsche (Cioran os reúne todos como “pensadores de ocasião” que pensam quando estão doentes, sofrendo, munidos de suas “verdades de temperamento“, viscerais, incendiárias, temerárias, catastróficas).

O “Adeus à filosofia“, enunciado tardiamente no Breviário, e já contemporâneo de seu primeiro livro, Nos cumes do desespero, parece-me ser, por força do paradoxo, uma negação da filosofia, e um sacrifício do eu com sua ratio filosófica, pelo bem da philosophia, para salvara este “amor à sabedoria” atrofiado e fossilizado pelo racionalismo, pelo materialismo, pelo cientificismo. Por um recurso poético-ontológico à importante preposição romena întru, plena de potencialidades filosóficas, diria que Cioran dá adeus à filosofia de volta à filosofia, afastando-se dela em direção a ela, num movimento interior e invisível em que os sentidos opostos devem necessariamente coincidir, numa convergência de contrários, para falar como Heráclito.

Paralelamente a Nietzsche, Schopenhauer e outros filósofos dos últimos séculos, Cioran foi em grandíssima medida influenciado por Lev Chestov, que ele caracteriza como uma espécie de “Dostoiévski filósofo”, no qual habitariam também um Nietzsche e um Plotino corroído de dúvidas. Se lermos Cioran com Chestov em seu horizonte hermenêutico (no qual o filósofo ucraniano não costuma ser inserido ou reconhecido), o “Adeus à filosofia” proclamado por Cioran apareceria como uma declaração de dispensa do que há de acessório, supérfluo e inútil na filosofia, na história da filosofia, para dedicar-se ao essencial, ao que mais importa (Chestov, tomando de empréstimo o sintagma de Plotino, to timiotaton), verdadeiramente, no assim-chamado “amor à sabedoria”.

A filosofia hindu persegue a libertação [délivrance]; a grega, à exceção de Pirro, Epicuro e alguns inclassificáveis, é decepcionante: não busca mais que a… verdade.

Aveux et anathèmes (1987)

Após os ataques de Cioran, é possível abordar a filosofia de maneira renovada, com entusiasmo e volúpia, “como um noivo no dia do casamento”, achando tudo nela interessante e/ou importante, digno de ser conhecido e compreendido, inclusive os grandes sistemas de pensamento, digamos, do Idealismo alemão. Mas agora, após ter passado por uma prova de fogo, por uma grande reviravolta, o espírito já não se envaidece pelos títulos de nobreza reivindicados pela Razão, não se deixa enganar pela aparência de superiodade suscitada por essas fábricas de conceitos, teorias e sistemas que é, em muitos casos, a filosofia. “A filosofia serve de antídoto contra a tristeza. E há quem ainda acredite na profundidade da filosofia.” Em Cioran, encontramos a filosofia em ruínas, em fragmentos, doravante desmistificada, reduzida a uma fábula entre outras.

A lucidez conduziria à humildade?

Desde já, depende do que se entende por “humildade”, de que humildade se trata, em que sentido. Cristão? Neste caso não, longe disso; a lucidez descrita por Cioran pode-se dizer “luciferina” (Blaga), profanando tudo e tornando um artigo derrisório o próprio Deus. Agora, se a humildade é entendida num sentido não religioso ou moral (cristão), mas puramente existencial e/ou antropológico, como a justa consciência da própria insignificância perante as distâncias infinitas do universo, então sim.

A lucidez é consciência do nada, de ser nada; a existência considerada lucidamente é uma tentação de transmutar esse “nada”, por força da Ilusão, em algo: missão, projeto de vida, vagabundagem, conquista, contemplação, qualquer coisa. “A vida se cria no delírio e se desfaz no tédio…” A lucidez é uma “nefasta clarividência”, salutar apesar dos pesares, pautada pela desilusão, pelo desencanto e pela consciência de do vazio, um fracasso essencial, fracasso (no) absoluto. Existe uma megalomania do nada, às avessas, negativa: a megalomania da consciência de ser “nada”. Inclusive o nada (sobretudo ele) pode conduzir ao orgulho.

“Se existe na lucidez tanto de ambiguidade como de perturbação, é porque ela é o resultado do mau uso que fizemos de nossas vigílias.”

Do inconveniente de ter nascido (1973)

A tertúlia com o prof. Leobardo Villegas, a primeira atividade do Portal E.M. Cioran no YouTube em 2021, e a primeira live tertúlia internacional do canal, foi um sucesso considerável, a julgar por um autor como Cioran e os temas envolvidos. Uma preocupação era se a variável linguística, e o fato de termos um público de diferentes países, com suas respectivsa línguas (por mais aparentados que sejam o português e o espanhol), não seria um obstáculo, um fator de complicação da compreensão do público. Aparentemente, nao foi este o caso: tivemos uma constante de quase 40 pessoas, de países como Brasil, México, Colômbia e Espanha, durante quase a totalidade do evento, que durou mais de 2 horas. Não foram muitas, mas ótimas perguntas foram colocadas para o convidado, tanto em português quanto em espanhol.

O evento foi concebido como uma homenagem e uma celebração, dentre tantas outras que aconteceram, no YouTube e fora dele, na Romênia, na França, na Itália e outros países, dos 110 do nascimento de Cioran. “Fazer festa para o pessimista”, para evocar o título de um suplemento cultural especial dedicado ao centenário de Cioran (O Globo, 2011), não é nenhuma contradição, nenhuma traição do seu pensamento e da sua filosofia. Há maneiras de celebrar Cioran. O pessimista merece, e muito.

SÁ MENEZES, R. I. R., “Festa para o pessimista: 110 anos do nascimento de Cioran”, Portal E.M. Cioran Brasil, 09/04/2021.

2 comentários em ““Festa para o pessimista”: 110 anos do nascimento de Cioran (1911-2021)”

  1. […] Tem mais festa para o pessimista neste mês de abril, em que se celebra o natalício de 110 anos de Emil Cioran. No dia do seu nascimento, 8 de abril, recebemos, no canal YT do Portal E.M. Cioran Brasil, o prof. Leobardo Villegas para uma live tertúlia sobre um conjunto de temas controversos e caros a Cioran. […]

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