“Um Cristo sombrio nos Evangelhos de Nag Hammadi” – Jornal do Brasil, 1975

Uma das primeiras notícias na imprensa brasileira, se não a primeiríssima, sobre a Biblioteca gnóstica de Nag Hammadi, descoberta no Egito 30 anos antes.


Há 1600 anos, em cavernas, no Egito, estranhos monges gnósticos escreviam a seu modo o Novo Testamento

Dentro do que se poderia chamar uma arqueologia religiosa judaico-cristã, a mais importante descoberta considerada até pouco tempo eram os Manuscritos do Mar Morto, coleção de textos em pergaminho e papiro, localizada fragmentariamente a partir de 1947 na região do Mar Morto e identificada como de autoria de comunidades judaicas que floresceram nos primeiros tempos do cristianismo. Para alguns especialistas, porém, mais importantes que aqueles manuscritos, inclusive do ponto-de-vista de conservação, são os de Nag Hammadi, localizados nessa região do Alto Egito e cuja tradução inglesa sairá ainda este ano. Trata-se de um acervo de 40 livros, escritos em pergaminho por monges estabelecidos nas proximidades de Luxor nos primeiros séculos da Era Cristã. Entre os 53 títulos contidos nos volumes, quatro são Evangelhos — o de Filipe, o da Verdade, o dos Egípcios e o de Tomás, este contando passagens da vida de Cristo e contendo 114 citações suas, segundo o autor.

A moderna história dos Manuscritos de Nag Hammadi pode ser dividida em três capítulos, que se desenrolam ao longo de quase 30 anos, com sequências de suspensa euforia, desânimo e investigações romanescas: descoberta, extravio, reencontro.

O capítulo descoberta começa um ano antes do de mesmo título, relativo aos Manuscritos do Mar Morto. Foi em 1946 que um grupo de lavradores, cavando no interior de uma gruta numa encosta da montanha de Gebel-el-Tarif, perto de Nag Hammadi, cidade a pouco mais de 100 quilómetros de Luxor, encontrou a coleção de livros. Encadernados em couro, em bom estado de conservação, estavam escritos em copta (mistura de egípcio e grego antigos), em cuidadas caligrafias. O grande recipiente de barro, em que se encontravam arrumados e sepultados, garantira aquela boa conservação durante séculos.

Mas tudo isso só seria observado depois. No momento da descoberta, os lavradores não atentaram para o significado nem para o real valor dos livros. Sabiam apenas que, como todo objeto antigo, aquilo deveria render algum dinheiro. Então, cuidadosamente, rasgaram os volumes, repartindo as páginas entre si. E cada um tomou seu caminho, vendendo sua parte a comerciantes de antiguidades, às vezes por poucas piastras. Fragmentados, os Manuscritos seguiram diferentes caminhos. Uma parte considerável tomaria a direção do Cairo, mais de 600 quilometras ao Norte. Outras iriam parar em Beirute, na Europa e até nos Estados Unidos.

COLEÇÃO COMPLETA

O achado só chegou realmente ao conhecimento das autoridades quando dois eruditos franceses, em visita ao Ciro, descobriram dois volumes à venda em bazares. Alertado o Ministério de Antiguidades egípcio, começou uma intensa busca nas lojas do Cairo. Todos os fragmentos encontrados foram confiscados, nacionalizados e depositados no Museu Copta, do Cairo. Ali estavam 12 volumes. Mas a quantos volumes chegaria o total do acervo? Identificada a procedência, as investigações estendiam-se até Nag Hammadi, onde se soube existirem originalmente 41 volumes. Os encarregados da busca, então, entraram em contato. com especialistas do mundo inteiro, procurando encontrar os 29 volumes restantes.

Agora, quase 30 anos depois, a coleção está praticamente completa. Falta apenas um volume, hoje uma das preciosidades da biblioteca do Instituto Jung, de Zurique, que o comprou há mais de 20 anos, de um comerciante de cereais de Nag Hammadi. O vendedor viajou dali até a Suiça para realizar a transação. A recuperação e restauração da coleção foi possível graças ao interesse da UNESCO, que, em colaboração com o Governo egípcio e o Claremont Institute for Antiquity and Christianity (uma Fundação norte-americana), organizou um comitê internacional, em 1970, para preparar uma edição fac-similada de toda a biblioteca.

OS GNÓSTICOS

A história mais remota dos Manuscritos começa no século IV, quando um grupo de monges cristãos, liderados por São Pachomius, fundou uma comunidade que vivia nas cavernas próximas de Gebel-el-Tarif, onde uma curva do Nilo, em forma de U, abriga um oásis no deserto. Os monges subsistiam com a agricultura e a realização de trabalhos manuais. Felizmente, para a posteridade, eles utilizavam peles de animais para fazer as capas de seus livros, pregando-lhes ainda cartas e paneis considerados sem importância, para endurecé-las.

As datas encontradas nesse material reutilizado revelam que os volumes, em sua maioria, foram concluídos 1 o g o depois do ano 350. Os estudiosos acreditam que nessa época São Pachomius já morrera e a comunidade sofria a infiltração de outros crentes, conhecidos hoje como cristãos gnósticos. Sua literatura herética desapareceu no curso dos cruzados entre eles empreendidos pela Igreja. Durante muito tempo se acreditou que nenhum de seus textos houvesse sobrevivido, a não ser nas duvidosas citacões dos processos e livros escritos contra esses hereges.

Segundo o professor James Robinson, do Claremont Institute e chefe da equipe de tradução dos textos para o inglês, o estudo detalhado da biblioteca indica que a comunidade monástica aderiu ao gnosticismo entre os séculos III e IV. Quando o núcleo herético foi descoberto, os monges, antes de sua expulsão, esconderam a biblioteca em uma das cavernas da região. Os volumes, medindo 35 cm de altura por 23 cm de largura, representam mais de meio século de trabalho de escribas. Mas nenhum dos textos é assinado e sua autoria permanece desconhecida. O conteúdo abrange interpretações mitológicas do Livro do Génesis, um relato sobre o hermetismo (forma de gnosticismo contemporâneo da antiga dinastia egípcia de Hermes Trismegistos), um relato sobre o zoroastrianismo e considerações sobre o Novo Testamento.

O tom dos códices é predominantemente sombrio, condenatório. Acham os especialistas que devem ser de autoria de velhos monges, esmagados pela melancolia, depois de décadas de solidão, escrevendo em cavernas, à luz de fracas lâmpadas de óleo, muito embora aquela atitude sombria seja característica do pensamento gnóstico, em geral.

OS EVANGELHOS

Um elemento particularmente indicativo do estado mental e espiritual daqueles monges é sua reinterpretação do Génesis. “Já que o mundo é Inferno, seu criador deve ser o demónio”. Para os monges, o Deus de Moisés transformara-se no mal, responsável por toda a desordem em que o homem se achava envolvido. Na história de Adão e Eva, a serpente é o próprio Criador. Deus, segundo sua crença, tentara exterminar todos o s gnósticos com o Dilúvio, poupando apenas o servil Noé.

O mais velho volume da biblioteca de Nag Hammadi, O Apocalipse de Adão, parece ter sido escrito no primeiro século da era cristã, em qualquer lugar dos atuais Estados da Síria, Jordania e Israel, talvez no mesmo em que foram escritos alguns textos da coleção do Mar Morto. Trata-se de uma interpretação gnóstico-judaica do Génesis, anunciando a vinda do Redentor à Terra, seus sofrimentos e seu triunfo. Na opinião do professor Robinson, este trabalho é o melhor exemplo de como a importância dos códices de Nag Hammadi ultrapassa a dos Manuscritos do Mar Morto. Apesar de toda a excitação causada pela descoberta dos Manuscritos do Mar Morto, o conteúdo desses documentos chegou a ser desapontados, principalmente por um motivo de ordem física: a maioria dos textos estava destruída. A biblioteca de Nag Hammadi, pelo contrário, está quase intacta. Entre os 53 títulos catalogados, quatro são Evangelhos. As palavras atribuídas a Cristo, nas 114 citações, soam quase sempre familiares aos cristãos, sem diferenças formais das que se encontram nos quatro Evangelhos que integram o Novo Testamento. Algumas, contudo, são estranhas e chocantes:

Jesus disse: Ateei fogo ao inundo, e observo. E ficarei olhando, até vê-lo totalmente em chamas.

Em certa fase dos estudos, surgiu a hipótese de que o Evangelho de Tomás seria uma das fontes dos Evangelhos Sinóticos (os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, assim qualificados pela coerência de estrutura que mostram entre si). Mas essa possibilidade — conforme o Dr R. M. Wilson, professor de Novo Testamento na St. Andrew’s University e único membro inglês do comitê de Hammadi — está inteiramente afastada, embora continuem os debates sobre a origem do texto. Na opinião dos especialistas que trabalham no Museu Copta, do Cairo, a maioria dos textos é de pura origem gnóstica, mas muitos trechos dos Manuscritos de 1 mil 600 anos de idade vêm referendar várias passagens do Novo Testamento.

Jornal do Brasil, ano LXXXIV, n. 323, 1º de março de 1975. Fonte: Biblioteca Nacional Digital.

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