Cioran: “Política da Heresia Permanente” – Patrice BOLLON

“O jovem Cioran não é menos herético no plano político. Se a vontade de grandeza à qual ele incita parece encontrar sua ilustração ‘natural’ no hitlerismo dos anos 1933-35, ela pode muito bem comportar, para ele, um bolchevismo ‘bem compreendido’. Todo Schimbarea [Transfiguração da Romênia] ressoa declarações de admiração a Lenin e à revolução russa, sendo esta apresentada de maneira escandalosa aos seus compatriotas ao mesmo tempo como ‘uma barbárie sem precedentes’ e ‘um triunfo étnico singular’, escreve Cioran, em virtude de sua ‘afirmação absoluta da justiça social.’ A Romênia, assegura ele, tem muito a aprender com a Rússia’, e acrescenta: ‘Tenho a impressão de que, não tivesse me interessado pela revolução soviética e pelo niilismo russo do século XIX, teria caído na armadilha funesta de um nacionalismo tacanho à la Daudet e Maurras.”

Patrice BOLLON, Cioran, l’hérétique (1997)

“La fierté de n’avoir jamais marché derrière un drapeau.” [O orgulho de nunca ter marchado atrás de uma bandeira]

CIORAN, Cahiers : 1957-1972

Utopias, desesperos e descaminhos políticos de juventude à parte (e são inegáveis), a verdade é que, por sua própria personalidade, Cioran nunca chegou a se engajar inteiramente na Guarda de Ferro, o movimento político-religioso, ultraortodoxo e ultranacionalista, xenofóbico e nazifascista, de seu país de origem. Basta um “flerte” para viver com um estigma. Mas, por que não?

Justamente por se tratar de um movimento ultraortodoxo e ultranacionalista, um nacionalismo messiânico e milenarista, fundado no cristianismo ortodoxo — e no arquétipo de um “Novo Homem Cristão Ortodoxo” — que Cioran — filho de sacerdote, mas demasiado filósofo, decidido a fazer uma “carreira na heresia” — tanto desprezava.

Diferentemente de seu amigo e compatriota Mircea Eliade, um dos jovens mentores e líderes do movimento Criterion, e ele mesmo um cristão ortodoxo convicto (“homem de fé”), na crença messiânica (análoga à que se encontra na Rússia de Dostoiévski) de que o cristianismo ortodoxo salvaria ou redimiria o seu povo e a humanidade como um todo.

Eliade nunca se retratou de seu passado legionário, muito pelo contrário: permaneceu sempre convicto da justeza daquela causa, daquele ideal. Cioran se iludiu, deixando-se atrair e envolver pela sirena do legionarismo (doravante ilusão mortal), com todo o apelo carismático exercido por esse movimento sobre a juventude intelectual da época, mas nunca foi aceito, pelos próprios “capi” da Legião (Corneliu Codreanu, para começar), como um “insider”, “um dos nossos”, em virtude justamente de sua verve herética, cética, niilista, pouco favorável à causa ortodoxa (fato atestado por comentadores como Marta Petreu e Patrice Bollon, entre tantos outros que conhecem a fundo a biografia romena de Cioran).

Textos de Cioran da época de sua juventude romena, como “Reflexões sobre a miséria”, e mesmo partes de Transfiguração da Romênia, como o capítulo “Coletivismo nacional”, denotam uma preocupação de orientação socialista em relação ao problema da desigualdade, da miséria e das diversas injustiças sociais, abundantes na Romênia, como no Brasil.

Além de Patrice Bollon, Vincenzo Fiore é outro intérprete de Cioran que assinala a posição política de Cioran, de natureza híbrida, contraditória, heterodoxa, deslocada — nos anos 30 de sua juventude insone e desesperada, e fanática — tanto à direita quanto à esquerda. Segundo Fiore:

Cioran, neste período, nutre um total desinteresse por essa “imensa porcaria” que é a política, declarando que lhe é impossível engajar-se sendo “um homem cheio de orgulho com o sentido da eternidade muito desenvolvido”. O filósofo denuncia ainda através de artigos a deriva política da “nova geração” que, abandonando os interesses filosóficos e teológicos iniciais, constrange a escolher “com um absolutismo escandaloso uma alternativa política e social: esquerda ou direita”. Não sabemos o que aconteceu exatamente ao filósofo que considerava a Guarda de Ferro uma organização “arruinada” e os jovens de esquerda, vítimas sacrificiais de um ideal histórico “efêmero”, para que viesse a elaborar uma teoria política contendo pontos de programa tanto do nazismo quanto do comunismo.

FIORE, Cioran: la filosofia come de-fascinazione e la scrittura come terapia (2018)

Para saber mais sobre a complicada identidade romena de Cioran, conforme percebida e representada pelo próprio, cf. o trecho de um dos capítulos da biografia crítica de Ilinca Zarifopol-Johnston (compatriota do autor e tradutora de alguns dos seus livros à lingua inglesa), “Paixão negativa, identidade negativa“.

Na foto: Cioran e Petre Tutea, um de seus melhores amigos, à época (1930), de orientação marxista e comunista, diferentemente de Cioran. Seria encarcerado anos depois, num contexto turbulento de alternância e vácuos de poder, golpes de estado e convulsões sociais e na prisão se converteria ao cristianismo ortodoxo. Na entrevista abaixo, Cioran fala de Tutea, e Tutea de Cioran, com o pretexto de sua duradoura amizade, mesmo à distância e com o passar dos anos. Tutea se queixa do ateísmo e do pessimismo do amigo expatriado, que ele aproxima da filosofia de Schopenhauer, distanciando-o da espiritualidade e da fé cristãs.

SÁ MENEZES, R. I. R., “Cioran: política da heresia permanente”, Portal E.M. Cioran Brasil, 16/04/2021.

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