Confissão resumida / Relendo… (E.M. Cioran)

“Os dois estudantes me perguntaram por que não parei de escrever, de publicar. Nem todos têm a sorte de morrer jovens, foi a minha resposta. Meu primeiro livro de título grandiloquente – Nos cumes do desespero – escrevi-o em romeno, com 21 anos, ao mesmo tempo em que prometia a mim mesmo nunca recomeçar. Depois cometi outro, com a mesma promessa em seguida. A comédia se repetiu por mais de 40 anos. Por quê? Porque escrever, por pouco que seja, me ajudou a passar de um ano ao outro, pois as obsessões expressas eram atenuadas e, parcialmente, superadas. Produzir é um alívio extraordinário. E publicar também. […] É mais ou menos o que fiz com relação a mim mesmo e ao mundo. Extraí o Breviário de minhas profundezas para injuriar a vida e para me injuriar. O resultado? Suportei-me melhor, assim como suportei melhor a vida. Cada um se cuida como pode.”

CIORAN, “Relendo…”, Exercícios de admiração (1986)

Os dois últimos textos do penúltimo livro de Cioran, Exercícios de admiração (1986), que sacramentaria a sua “agridoce” glória literária de escritor francês, não são – à diferença dos demais – retratos ou perfis literários de figuras presentes ou passadas que Cioran admirava. Como assinala o título do primeiro deles, transcritos aqui, tratam-se de textos “confessionais”, autorreferenciais, releituras em perspectiva de sua própria (des)obra e, particularmente, de um livro no conjunto dela: o Précis de décomposition (1949). Em se tratando de uma obra fragmentária, paradoxal e radicalmente polifônica, e uma vez que cada aforismo não só pode contradizer como amiúde contradiz, com efeito, os demais, assim como cada livro parece rivalizar, estar em franco conflito, com os demais no conjunto da “obra” (fruto de um fracasso poético magistral, triunfo do désoeuvrement), nada mais bem-vindo, mais aconselhável do que ler e desler Cioran comentado pelo próprio Cioran, numa confissão (resumida) em retrospectiva, uma anamnese feita ao final da vida e dessa “carreira na heresia” à qual se dedicou com tanto rigor e com tanta paixão.


CONFISSÃO RESUMIDA

Só tenho vontade de escrever num estado explosivo, na excitação ou na crispação, num estupor transformado em frenesi, num clima de ajuste de contas em que as invectivas substituem as bofetadas e os golpes. Em geral, começa assim: um ligeiro tremor que se torna cada vez mais forte, como depois de um insulto que se recebeu sem responder. Expressão equivale à réplica tardia ou à agressão adiada. Escrevo para não passar ao ato, para evitar uma crise. A expressão é alívio, desforra indireta daquele que não consegue digerir uma vergonha e que se revolta em palavras contra os seus semelhantes e contra si mesmo. A indignação é menos um gesto moral que literário, é mesmo a mola da inspiração. E a sabedoria? É justamente o oposto. O sábio em nós arruína todos os nossos élans, é o sabotador que nos enfraquece e nos paralisa, que espreita em nós o louco para dominá-lo e comprometê-lo, para desonrá-lo. A inspiração? Um desequilíbrio súbito, volúpia inominável de se afirmar ou de se destruir. Não escrevi uma única linha na minha temperatura normal. E, no entanto, durante muitos anos, me julguei o único indivíduo livre de taras. Esse orgulho me foi benéfico: me permitiu escrever. Parei praticamente de produzir quando, apaziguado o meu delírio, me tornei vítima de uma modéstia perniciosa e funesta para esta exaltação de que emanam as intuições e as verdades. Só consigo produzir quando, tendo desaparecido subitamente o sentido do ridículo, me considero o começo e o fim.

Escrever é uma provocação, uma visão felizmente falsa da realidade, que nos coloca acima do que existe e do que nos parece existir. Competir com Deus, ultrapassá-lo mesmo apenas pela força da linguagem, esta é a proeza do escritor, espécime ambíguo, dilacerado e enfatuado que, livre da sua condição natural, se entregou a uma vertigem magnífica, sempre desconcertante, algumas vezes odiosa. Nada mais miserável do que a palavra e, no entanto, é através dela que atingimos sensações de felicidade, uma dilatação última em que estamos completamente sós, sem o menor sentimento de opressão. O supremo alcançado pelo vocábulo, pelo próprio símbolo da fragilidade! Pode-se alcançá-lo também, curiosamente, através da ironia, com a condição de que esta, levando ao extremo sua obra de demolição, cause arrepios de um deus às avessas. As palavras como agentes de um êxtase invertido… Tudo o que é realmente intenso participa do paraíso e do inferno, com a diferença de que o primeiro só podemos entrevê-lo, enquanto o segundo temos a sorte de percebê-lo e, mais ainda, de sentilo. Existe uma vantagem ainda mais notável de que o escritor tem o monopólio: a de se livrar de seus perigos. Sem a faculdade de encher as páginas me pergunto o que eu viria a ser. Escrever é desfazer-se de seus remorsos e rancores, vomitar seus segredos. O escritor é um desequilibrado que utiliza essas ficções que são as palavras para se curar. Quantas angústias, quantas crises sinistras venci graças a esses remédios insubstanciais!

Escrever é um vício de que podemos cansar-nos. Na verdade, escrevo cada vez menos e acabarei sem dúvida não escrevendo mais, por já não achar a menor graça neste combate com os outros e comigo mesmo.

Quando nos dedicamos a um assunto, qualquer que seja, experimentamos um sentimento de plenitude acompanhado de uma ponta de arrogância. Fenômeno mais estranho ainda: essa sensação de superioridade quando evocamos um personagem que admiramos. No meio de uma frase, com que facilidade nos consideramos o centro do mundo! Escrever e venerar não andam juntos: quer se queira ou não, falar de Deus é olhá-lo do alto. A escrita é a desforra da criatura e sua resposta a uma Criação sabotada.


RELENDO….

Relendo este livro, que remonta há mais de 30 anos, tento reencontrar o personagem que era e que foge, que me escapa, pelo menos em parte. Meus ídolos eram Shakespeare e Shelley. Ainda leio o primeiro; o segundo, raramente. Cito-o para mostrar de que gênero de poesia estava intoxicado. O lirismo desenfreado combinava com as minhas inclinações. Infelizmente reconheço seus vestígios em todas as minhas tentativas daquela época. Quem ainda consegue ler um poema como Epipsychidion? Eu o lia, em todo caso, com grande prazer. O platonismo histérico de Shelley me repugna e, à efusão, sob qualquer forma que se apresente, prefiro agora a concisão, o rigor, a frieza proposital. Minha visão das coisas não mudou fundamentalmente. O que mudou, certamente, foi o tom. É raro que o conteúdo de um pensamento se modifique realmente. Além disso, o que sofre uma metamorfose é a forma, a aparência, o ritmo. Envelhecendo, percebi que a poesia me era cada vez menos necessária: o gosto que temos por ela estaria ligado a um excedente de vitalidade? Tenho cada vez mais – a fadiga deve ser em grande parte responsável por isso – uma tendência para a secura, para o laconismo, em detrimento da explosão. Ora, o Précis era uma explosão. Escrevendo-o, tinha a impressão de escapar de um sentimento de opressão com o qual não teria podido continuar por muito tempo: era preciso respirar, era preciso explodir. Sentia a necessidade de um esclarecimento decisivo, não tanto com os homens mas com a existência enquanto tal, que gostaria de desafiar para um combate singular, nem que fosse para ver quem venceria. Sejamos francos, tinha quase a certeza de que levaria vantagem, de que era impossível que ela triunfasse. Agarrá-la, encurralá-la, reduzi-la a pó com argumentos frenéticos e inflexões que lembrassem Macbeth ou Kirilov – esta era minha ambição, meu propósito, meu sonho, o projeto de cada um de meus instantes. Um dos primeiros capítulos se intitula O antiprofeta. De fato, eu reagia como profeta, me atribuía uma missão, dissolvente se quiserem, mas, ainda assim, missão. Atacando os profetas, atacava eu mesmo e… Deus, segundo o meu princípio, da época, de que deveríamos tratar só Dele e de nós mesmos. Daí o tom uniformemente violento de um ultimato (não sucinto como deveria ser, mas prolixo, difuso, insistente), de uma intimação dirigida ao céu e à Terra, a Deus e aos sucedâneos de Deus, em suma, a tudo. No furor desesperado dessas páginas em que inutilmente se buscaria um pouco de modéstia, de reflexão serena e resignada, de aceitação e de repouso, de alegre fatalismo, atingem o seu apogeu o arrebatamento e a loucura da minha juventude, assim como uma irrefreável volúpia de negar. O que sempre me seduziu na negação é o dom de tomar o lugar de tudo e de todos, de ser uma espécie de demiurgo, de dispor do mundo como se tivesse colaborado na sua aparição e depois tivesse o direito, e mesmo o dever, de precipitar a sua queda. A destruição, consequência imediata do espírito de negação, corresponde a um instinto profundo, a um tipo de inveja que cada um certamente sente no fundo de si mesmo com relação ao primeiro dos seres, à sua posição e à ideia que representa e simboliza. Embora frequentasse os místicos, no meu foro íntimo estive sempre do lado do Demônio: não podendo me igualar a ele pela força, tentei ser equivalente ao menos pela insolência, pela aspereza, pelo arbítrio e pelo capricho.

Após a publicação do Breviário em espanhol, dois estudantes andaluzes me perguntaram se era possível viver sem fundamentación. Respondi-lhes que era verdade não ter encontrado nunca uma base sólida em lugar nenhum e, no entanto, ter conseguido subsistir porque, com os anos, a gente se habitua a tudo, até a vertigem. E depois não estamos despertos e não nos interrogamos o tempo todo, sendo a lucidez absoluta incompatível com a respiração. Se estivéssemos, a cada momento, conscientes do que sabemos, se, por exemplo, a sensação da falta de fundamento fosse ao mesmo tempo contínua e intensa, cometeríamos suicídio ou cairíamos na idiotia. Só existimos graças aos momentos em que esquecemos certas verdades e isso porque durante esses intervalos acumulamos a energia que nos permite enfrentar as ditas verdades. Quando me desprezo, digo a mim mesmo, para recuperar a confiança, que, no final das contas, consegui me manter na existência ou num simulacro de existência com uma percepção das coisas que bem poucos poderiam suportar. Vários jovens na França confessaram que o capítulo que mais os atraiu foi O autômato, esta quintessência do intolerável. À minha maneira, devo ser um lutador,já que não sucumbi às minhas ruminações.

Os dois estudantes me perguntaram também por que não parei de escrever, de publicar. Nem todos têm a sorte de morrer jovens, foi a minha resposta. Meu primeiro livro de título grandiloquente – Nos cumes do desespero – escrevi-o em romeno, com 21 anos, ao mesmo tempo em que prometia a mim mesmo nunca recomeçar. Depois cometi outro, com a mesma promessa em seguida. A comédia se repetiu por mais de 40 anos. Por quê? Porque escrever, por pouco que seja, me ajudou a passar de um ano ao outro, pois as obsessões expressas eram atenuadas e, parcialmente, superadas. Produzir é um alívio extraordinário. E publicar também. Um livro que se publica é sua vida ou parte de sua vida que se torna exterior a você, que não lhe pertence mais, que parou de atormentá-lo. A expressão diminui, empobrece, alivia você do seu próprio peso, a expressão é perda de substância e liberação. Esvazia, logo salva, priva você de um excesso incômodo. Quando detestamos alguém a ponto de querer liquidá-lo, o melhor é pegar uma folha de papel e escrever várias vezes que X é um canalha, um crápula e imediatamente percebemos que o odiamos menos e que quase não pensamos mais em vingança. É mais ou menos o que fiz com relação a mim mesmo e ao mundo. Extraí o Breviário de minhas profundezas para injuriar a vida e para me injuriar. O resultado? Suportei-me melhor, assim como suportei melhor a vida. Cada um se cuida como pode.

A primeira versão do livro foi redigida muito rapidamente em 1947 e se chamava Exercícios negativos. Mostrei-a a um amigo, que me devolveu alguns dias depois, dizendo: “Isso precisa ser reescrito integralmente.” Recebi muito mal o seu conselho mas, felizmente, segui-o. Na verdade, escrevi-o quatro vezes, porque não queria de modo algum que fosse considerado produto de um estrangeiro. O que pretendia era, nem mais nem menos, competir com os autóctones. De onde poderia tirar tamanha presunção? Meus pais, que sabiam apenas o romeno, o húngaro e um pouco de alemão, de palavras francesas só conheciam bonjour e merci. Este era o caso da quase totalidade dos Transilvanos. Quando, em 1929, fui a Bucareste para vagos estudos, constatei que, lá, a maioria dos intelectuais falava o francês fluentemente. Eis por que, voltando para casa, eu que apenas o lia alimentei uma cólera que deveria durar muito tempo e que ainda dura, já que, uma vez em Paris, nunca consegui me livrar do meu sotaque valáquio. Se não posso pronunciar como os autóctones, pelo menos vou tentar escrever como eles, este deve ter sido meu raciocínio inconsciente, se não como explicar minha obstinação em querer escrever tão bem quanto eles e mesmo, pretensão insensata, melhor do que eles?

Os esforços que fazemos para nos afirmar, para nos igualar aos nossos semelhantes e, se possível, superá-los, têm razões vis, inconfessáveis, logo profundas. As resoluções nobres, ao contrário, provenientes de uma vontade de retraimento, carecem inevitavelmente de vigor e as abandonamos rapidamente, com ou sem arrependimento. Tudo pelo que sobressaímos procede de uma origem obscura e suspeita, de nossas profundezas verdadeiras.

Ainda há isso: deveria ter escolhido qualquer outro idioma, menos o francês, porque não combino com o seu aspecto distinto, está nos antípodas da minha natureza, das minhas explosões, do meu eu verdadeiro e dos meus tipos de miséria. Por sua rigidez, pela soma de coações elegantes que representa, ele me parece um exercício de ascese ou antes uma mistura de camisa de força e camisa social. Ora, é precisamente por causa dessa incompatibilidade que me afeiçoei a ele, a ponto de exultar quando o grande cientista nova-iorquino Erwin Chargaff (nascido, como Paul Celan, em Czernowitz) me confidenciou um dia que, para ele, só merecia existir o que estava expresso em francês…

Hoje, que essa língua está em pleno declínio, o que me entristece mais é constatar que os franceses não parecem sofrer com isso. E sou eu, refugo dos Bálcãs, que me angustio por vê-la desaparecer. Pois bem, desaparecerei, inconsolável, junto com ela!

CIORAN, E.M., Exercícios de admiração: ensaios e perfis. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

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