Cioran e o sonho ridículo de “recomeçar o Conhecimento”: uma questão de vida ou morte (e uma causa perdida de antemão)

Um livro de Cioran muito importante, parte integrante da sua produção francesa intermediária, é La chute dans le temps (1964). À diferença dos demais, talvez a maioria deles, pelos quais Cioran tornar-se-ia conhecido como um mestre do aforismo, do estilo aforismático (conciso, lapidar, epigramático), este é um livro de ensaios (essais), textos dissertativos (ou, melhor dizendo, meditativos, ruminativos) sobre os temas (as “obsessões”) que mais lhe interessavam ou preocupavam naquele momento da sua vida. A “queda no tempo” e na consciência nefasta da sua duração, do seu escoar (“Consciência do tempo, atentado contra o tempo”), de onde o drama da consciência, nostálgica de um “nada” original tragicamente perdido, anterior ao Tempo, o problema do conhecimento malsão (luciferino), princípio de queda, decadência ou corrupção, a História e o sentido profundo (e o valor real) da civilização, a relação ou oposição entre dúvida cética e negação niilista, a Doença e suas virtudes “gnosiológicas”, a “queda do tempo”, pior e ainda mais sofrível do que aquela primeira, entre outros…

Aqui, uma passagem que salta aos olhos pela generosidade da proposta, ainda que puramente hipotética, sem nenhuma real esperança de realização. Mesmo assim, uma proposição e tanto, a julgar por este que é, via de regra, lido ou como um simples cético ou como um “niilista passivo”, de uma negatividade definitiva e irremediável. Há muitos Ciorans, poder-se-ia dizer, ou muitas “vozes” no discurso fragmentário de Cioran, e por isso mesmo espantosamente polifônico, assombroso. “Recomeçar o Conhecimento” (com maiúscula), “recuperar a inocência perdida” (ou buscar uma outra, uma segunda inocência), dissociar a causa do conhecimento e da Ciência da necessidade de Queda, decadência, decomposição e corrupção… Cioran, um “niilista” inusitado.

Se estamos impedidos de recuperar a inocência primordial, podemos contudo imaginar uma outra, e tentar alcançá-la graças a um conhecimento destituído de perversidade, purificado de seus defeitos, profundamente alterado, “arrependido”. Tal metamorfose equivaleria à conquista de uma segunda inocência, que, ocorrida após milênios de dúvida e lucidez, teria, sobre a primeira, a vantagem de não se deixar levar pelo já desgastado prestígio da Serpente. Com a disjunção entre a ciência e a queda uma vez feita, o ato de saber não lisonjearia mais a vaidade de ninguém, nenhum prazer demoníaco acompanharia ainda a indiscrição inevitavelmente agressiva do espírito. Nós nos comportaríamos como se não tivéssemos desvendado nenhum mistério, e veríamos com indiferença, senão com desprezo, nossas façanhas de todo tipo. Não seria nem mais nem menos do que recomeçar o Conhecimento, isto é, construir uma outra história, uma história liberta da velha maldição, e em que nos fosse dado encontrar essa marca divina que possuíamos antes do rompimento com o resto da criação.

CIORAN, “Désir et horreur de la gloire”, La chute dans le temps (1964)

A propósito da polifonia cioraniana, que estaria mais para uma (de)composição de dissonâncias sinfônicas (o oximoro é proposital, inspirado em Heráclito), cumpre citar também esta anotação contida nos Cahiers de Cioran:

“Li alguns poemas de Aleksandr Blok. Ah! Esses russos, como eles me são próximos! Minha forma de ennui é totalmente eslava. Só Deus sabe de qual estepe vieram os meus ancestrais! Tenho em mim, como um veneno, a lembrança hereditária do ilimitado.
De resto, sou como os Sármatas, um homem com qual não se pode contar, um indivíduo duvidoso, suspeito e incerto, de uma duplicidade tão mais grave quanto é desinteressada. Milhares de escravos clamam em mim as suas opiniões e dores contraditórias.”

CIORAN, Cahiers : 1957-1972, p. 22.

Para concluir, uma vez que a proposição está feita, escrita e publicada, por mais que não possa ser levada a sério, cumpre colocar a pergunta: mas, por que uma causa perdida de antemão? Nada mais coerente e justo do que buscar a resposta, ou alguma pista de resposta possível, nos próprios textos de Cioran. No livro anterior a La chute dans le temps, no caso História e utopia (1960), ele escreve:

“Caídos irremediavelmente na eternidade negativa, nesse tempo desperdiçado que só se afirma por anulação, essência reduzida a uma série de destruições, soma de ambiguidades, plenitude cujo princípio reside no nada, vivemos e morremos em cada um de seus instantes, sem saber quando existe, pois na verdade não existe jamais. Apesar de sua precariedade, estamos tão apegados a esse tempo que, para afastar-nos dele, seria preciso mais do que uma alteração de nossos hábitos: teria que ocorrer uma lesão no espírito, uma rachadura no eu, por onde pudéssemos entrever o indestrutível e alcançá-lo, graça concedida apenas a alguns condenados como recompensa ao fato de haver consentido em sua própria ruína. O resto, a quase totalidade dos mortais, apesar de se confessarem incapazes de um sacrifício semelhante, não renunciam à busca de um outro tempo; ao contrário, dedicam-se a ela obstinadamente, mas buscando situar esse tempo neste mundo, segundo as recomendações da utopia, que tenta conciliar o eterno presente e a história, as delícias da idade de ouro e as ambições prometeicas, ou, para recorrer à terminologia bíblica, refazer o Éden com os meios da queda, permitindo assim ao novo Adão conhecer as vantagens do antigo. Não se pretende com isso corrigir a Criação?

CIORAN, “A idade de ouro”, III, História e utopia

Não seria a ideia de recomeçar o Conhecimento uma ilusão que consistiria em reincidir no erro de querer refazer o Déden com os meios da queda (conhecimento, ciência)? Não dá a entender que pretende, ele mesmo, que denuncia e critica a ideia, “corrigir a Criação”? Depende de como se concebe as condições reais de possibilidade de dissociar, de maneira absoluta, toda a atividade racional humana da vaidade, da soberba, da embriaguez de poder: enquanto vigorar o lema dos néscios, “Saber é poder”, a resposta é um não categórico.

Por fim, cumpre assinalar, que muitos livros de Cioran parecem conectar-se e complementar-se, formando pares ou tríades, por uma espécie de continuidade orgânica e (não tão) subreptícia, o que se deixa apreender especialmente pelas temáticas dos últimos aforismos ou ensaios de um livro, em relação as temáticas e inclusive os títulos dos livros seguintes. Assim, por exemplo, grande parte do Livro das ilusões (1936), e particularmente da metade para o final (sobretudo as últimas páginas), já contém a mesma temática religiosa e mística, e a obsessão pelas santas católicas, normalmente (e exclusivamente) associada a Lágrimas e santos (1937). História e utopia prefigura La chute dans le temps que, por sua vez, prefigura Le mauvais démiurge. Um temas-chave do livro de 1964, ainda inédito em português, é a experiência e a ideia filosófica de “cair do tempo…” (tomber du temps), em direção a uma “eternidade negativa” — tematizado já no livro anterior, de 1960, este sim disponível em língua portuguesa.

SÁ MENEZES, R. I. R., “Cioran e o sonho ridículo de ‘recomeçar o Conhecimento’: uma questão de vida ou morte (e uma causa perdida de antemão)”, Portal E.M. Cioran Brasil, 19 de abril de 2021. Disponível em: https://portalcioranbr.wordpress.com/2021/04/19/recomecar-conhecimento-cioran/

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