Reflexões sobre a vaidade dos homens, ou discursos moraes sobre os effeitos da vaidade (Matias Aires)

Matias Aires Ramos da Silva de Eça (São Paulo, 27 de março de 1705 — Lisboa, 10 de dezembro de 1763) foi um filósofo e escritor luso-brasileiro. É patrono da cadeira 6 da Academia Brasileira de Letras. Irmão de Teresa Margarida da Silva e Orta, considerada a primeira mulher romancista em língua portuguesa. Escreveu obras em francês e latim e foi também tradutor de clássicos latinos. É considerado por muitos o maior nome da Filosofia de Língua Portuguesa do século XVIII.

Segundo Carvalho dos Reis (2019), o pai de Matias, homem ambicioso, foi à Portugal com o objetivo de conquistar a nobilitação: o último degrau da hierarquia da vaidade social. Com este objetivo, no ano de 1716, acomodou-se com tanta pompa quanta a ambição, procurando reconduzir a si os holofotes de Lisboa. Contudo, não encontrou a mesma sorte que no Brasil (Aires: 2005, p.218, apud CARVALHO REIS), pelo contrário, foi recebido com inimizade. O mesmo se terá passado com o filho Matias, igualmente habituado à deferência com que era tratado no Brasil, «agora, era apenas o filho de um dos tais mineiros que o povo da corte invejava mas não estimava nem acatava.». Estas experiências terão ensinado, posteriormente, ao filho que a vaidade própria tende a ofender a alheia dando inicio ao seu interesse e reflexões sobre a Vaidade.

Tais reflexões seriam publicadas em 1752: Reflexões sobre a Vaidade dos Homens, onde o autor tece suas ponderações a partir do trecho bíblico extraído do Eclesiastes: Vanitas vanitatum et omnia vanitas, ou seja, “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. Este período de grande produtividade corresponde também a uma fase de maior recolhimento, sem dúvida induzido pelas crescentes dificuldades econômicas mais do que por um genuíno desgosto com a vida em sociedade em Portugal, e ao progressivo adensamento de uma misantropia e de um ceticismo que se revelam inclusive na relação com a obra. Sua linguagem é clara e inspirada em Vauvenargens. Aliás, Reflexões sobre a vaidade dos homens, do primeiro filósofo moralista brasileiro, apresenta inúmeros exemplos, em linguagem clara e fluente, em que os períodos compostos por subordinação raramente assumem estrutura labiríntica, o que parece decorrência da feição sentenciosa da sua frase: muitas orações ou períodos simples de Matias Aires são verdadeiras máximas. Além disso, conforme Prado Coelho, Matias não tinha ao seu dispor palavras como pensador, moralista, pessimista – que hoje servem para o caracterizar. Esse é um problema de língua, do século XVIII.

Seguem as estas, Philosofia rationalis (Filosofia Racional); Via ad campum sophie seu physicae subterranae (O caminho para o campo da sabedoria ou da física subterrânea); Lettres bohémiennes (Cartas boêmias); Discours panégyriques sur la vie de Joseph Ramos da Silva (Discursos Panegíricos sobre José Ramos da Silva); Discurso congratulatório pela felicíssima convalescença e real vida d’el rei D. José; Carta sobre a fortuna; e Problema de Arquitectura Civil, único texto, dentro deste último grupo, que subsistiu até aos dias atuais. Deixou trabalhos sobre as ações de Alexandre e César e traduções de Quinto Curcio e Lucano. Aos poucos opta por abandonar a língua materna na redação dos seus escritos, anunciada no prólogo das Reflexões e de facto levada a efeito nas edições subsequentes, utilizando-se de outra grafia, e experienciando principalmente uma profunda descrença relativamente ao mérito intrínseco de suas composições (caracterizadas como meros esboços inconclusos) e o profundo desencanto quanto à sua capacidade para influenciar e agir sobre a realidade. Em 1761, as desinteligências como o Marquês de Pombal conduzem ao seu afastamento do cargo de Provedor, o que se reflete sobre a sua já premente situação econômica. E neste contexto que escreve a um amigo a muito pessimista a Carta sobre a Fortuna, desde 1778 habitualmente incluída nas edições de as Reflexões. Eis un trexo da Carta sobre a Fortuna incluída nas Reflexões a partir de 1778:

“ E assim nada espero da fortuna, nem a fortuna de mim pode esperar nada; porque o meu talento foi discursivo sempre, operativo nunca, e a fortuna quer obras e não palavras. […l Alguns há que o que discorrem, obram: eu só debuxo e não sei pintar o que eu mesmo debuxei; sei delinear, executar não, e sempre na execução me perco, semelhante ao Náutico imperito que, sabendo a carta e sabendo os rumos, em largando as velas logo se perde. De que serve, pois, a arte que só na imaginação se mostra e fora dela se desvanece? Muitos sabem idear, praticar poucos.» (p. 189) «Tudo sei para dizer, mas para fazer só sei que não sei nada. As minhas artes são todas em pensamento e por isso são justamente desgraçadas, porque a fortuna não pode fazer milagres; e que pode fazer de uma matéria que não se move e que, sendo inteligente, é sem acção, inútil inteligência e semelhante à árvore frondosa que, produzindo flores, não sabe produzir frutos” (id., p. 190.).

https://pt.wikipedia.org/wiki/Matias_Aires#Obras

Reflexões sobre a Vaidade dos Homens

Offereço a Vossa Magestade as Reflexões sobre a vaidade dos homens; isto he o mesmo que offerecer em hum pequeno livro aquilo de que o mundo se compoem, e que só Vossa Magestade não tem: feliz indigencia, e que só em Vossa Magestade se acha. Declamey contra a vaidade, e não pude resistir à vaidade innocente de pôr estes discursos aos Reaes pés de Vossa Magestade; para que os mesmos pés, que heroicamente pizão as vaidades, se dig-nem proteger estas Reflexões. Mas que muito, Senhor, que as vaidades estejão só aos pés de Vossa Magestade, se as virtudes o occupaõ todo? Alguma vez se havia de ver a vaidade sem lugar.

Tem os homens em si mesmos hum espelho fiel, em que vem, e sentem a impressão, que lhes faz a vaidade: Vossa Magestade só neste livro a póde sentir, e ver; e assim para Vossa Magestade saber o que a vaidade he, seria necessario que a estudasse aqui. Quando derão os homens, e quanto valerião mais, se podessem, ainda que fosse por estudo, alcançar huma ignorancia tão ditosa. Não he só nesta parte, Senhor, em que vemos hum prodígio em Vossa Magestade. As gentes penetradas de admiração, e de respeito, achaõ unidos em Vossa Magestade muitos attributos gloriosos, que raramente se puderão unir bem; e com effeito, quando se vio senaõ agora, sentarse no mesmo Throno a Soberania e a Benignidade, a Justiça e a Clemencia, o Poder supremo e a Rarão? Em Vossa Magestade ficarão concordes, e
faceis aquelles impossíveis.

A mesma Providencia quiz manifestar o Rey, que preparava para a sua Lusitania; assim o mostrou logo, porque o Oriente, ou Regio berço, em que Vossa Magestade amanheceo, nunca vio figura tão gentil; nesta se fundou o primeiro annuncio da felicidade Portugueza, e foy a voz do Oraculo por onde a natureza se explicou. Não foy preciso que os sucessos verificassem aquelle vaticínio, por- . que Vossa Magestade assim que veyo ao mundo, só com se mostrar, disse o que havia de ser. Hum semblante augusto, mas cheyo de bondade, e agrado, foy o penhor precioso das nossas esperanças: venturoso, e claro pre-sagio, pois se fez entender até pela mesma fórma exterior.

Chegou finalmente o tempo, em que os acertos de Vossa Magestade persuadem, que há huma arte de reinar, essa não podem os Monarcas aprender, Deos a infunde, não em todos, mas naquelles só, a quem as virtudes mais sublimes fizeraõ merecer hum favor celeste: isto dizem as resoluções de Vossa Magestade; ellas mostraõ que naô foraõ aprendidas, inspiradas sim. Por isso as primeiras acções de Vossa Magestade não se distinguem das que se vão seguindo; todas são iguaes, e todas grandes; aquelles preludios, ou ensayos, não cedem na perfeição a nenhuma parte da obra: daqui vem o parecermos, que Vossa Magestade não só nasceo para reinar, mas que já sabia reinar quando nasceo.

Pelas maões da idade recebem os Soberanos a experiencia de mandar. Vossa Magestade sem depender dos annos, logo com o poder, recebeo a sciencia de usar delle: o que os mais devem ao exercicio, Vossa Magestade só o deve à Omnipotencia; por isso as disposições de Vossa Magestade todas são justas, porque com ellas se justifica Deos. Aos outros Reys servem os homens por força do preceito; a Vossa Magestade servem por obrigação da ley, e tambem por obrigação do amor; destes dous vínculos, não sey qual he mayor, mas he certo, que hum delles he violento às vezes, o outro he suave sempre; por que as cadeas, ainda as que são mais prezadas, ficaõ sendo leves, quando he o amor quem as faz, e as supporta. Todos sabem, Senhor, que antes que as nossas vozes acclamassem a Vossa Magestade já o tinhão acclamado os nossos corações; nestes levantou o mesmo amor o primeiro throno a que Vossa Magestade subio; e se he certa aquella memoravel profecia, que promette a hum Rey de Portugal o ser senhor de toda a terra, já podemos crer que chegou o tempo de cumprirse, e esta fé deve fundarse nas virtudes de Vossa Magestade: e em quanto não chega a feliz hora de vermos na maõ de Vossa Magestade o Cetro universal, já vemos que Vossa Magestade he digno delle; sendo que he mais glorioso o merecer, do que o alcançar. A Real Pessoa de Vossa Magestade guarde Deos infinitos annos.

MATHIAS AIRES RAMOS DA SILVA DE EÇA.

PROLOGO

AO LEITOR

Eu que disse mal das vaidades, vim a cahir na de ser Author: verdade he que a mayor parte destas Reflexões escrevi sem ter o pensamento naquella vaidade; houve quem a suscitou, mas confesso que consenti sem repugnancia, e depois quando quiz retroceder, não era tempo, nem conseguir o ser Anonymo. Foy preciso por o meu nome neste livro, e assim fiquey sem poder negar a minha vaidade. A confissão da culpa costuma fazer menor a pena.

Não he só nesta parte em que sou reprehensi-vel: he pequeno este volume, mas pode servir de campo largo a huma censura dilatada. Huns hão de dizer que o estylo oratorio, e cheyo de figuras, era improprio na materia; outros haõ de achar que as descripções, com que às vezes me afasto do sujeito, eraõ naturaes em verso, e não em prosa; outros diraõ, que os conceitos naõ saõ justos, e que alguns já foraõ ditos; finalmente outros haõ de reparar, que affectei nas expressões alguns termos desusados, e estrangeiros. Bem sey que contra o que eu disse, há muito que dizer; mas he taõ natural nos homens a defesa, que naõ posso passar sem advertir, que se os conceitos neste livro naõ saõ justos, he porque em certo genero de discursos, estes naõ se devem tomar rigorosamente pelo que as palavras soaõ, nem em toda a extensaõ, ou significação delias. Se os mesmos conceitos se achaõ ditos, que haverá que nunca o fosse? E além disto os primeiros principios, ou as primeiras verdades, saõ de todos, nem pertencem mais a quem as disse antes, do que a aquelles que as disseraõ depois. Se o estylo he improprio, tambem póde ponderarse que no modo de escrever, às vezes se encontraõ humas taes imperfeições, que tem naõ sey que gala, e brio: a observancia das regras nem sempre he prova da bondade do livro; muitos escreverão exactamente, e segundo os preceitos da arte, mas nem por isso o que disserão foy mais seguido, ou aprovado: a arte leva comsigo huma especie de rudeza; a formosura attrahe só por si, e naõ pela sua regularidade, desta sabe afastarse a natureza, e entaõ he que se esforça, e produz cousas admiraveis; do fugir das proporções, e das medidas, resulta muitas vezes huma fantasia tosca, e impolida, mas brilhante, e forte. Nada disto presumo se ache aqui; o que disse, foy para mostrar, que ainda em hum estylo improprio se póde achar alguma
propriedade feliz e agradável.

Escrevi das vaidades, mais para instrucção minha, que para doutrina dos outros, mais para distinguir as minhas paixões, que para que os outros distingaõ as suas, por isso quiz de alguma forma pintar as vaidades com cores lisonjeiras, e que as fizessem menos horriveis, e sombrias, e por consequencia menos fugitivas da minha lembrança, e do meu conhecimento. Mas se ainda assim fiz mal em formar das minhas Reflexões hum livro, já me naõ posso emendar por esta vez, senaõ com prometter, que naõ hey de fazer outro; e esta promessa entro a cumprir já, porque em virtude delia ficaõ desde logo supprimidas as traduções de Quinto Curcio, e de Lucano. As acções de Alexandre, e Cesar, que esta-vaõ brevemente para sahir à luz no idioma Portuguez, ficaõ reservadas para serem obras posthumas, e tal vez que entaõ sejaõ bem aceitas; porque os erros facilmente se desculpaõ em favor de hum morto; se bem que pouco vale hum livro, quando para merecer algum suffragio, necessita que primeiro morra o seu Author; e com effeito he certo que então o applauso não procede de justiça, mas vem por compaixão e lastima.

Naõ me obrigo porém a que (vivendo quasi retirado) deixe de occupar o tempo em escrever em outra lingua; e ainda que a vulgar he um the-souro, que contém riqueza immensa para quem se souber servir delia, com tudo naõ sey que fatalidades me tem feito olhar com susto, e desagrado para tudo quanto nasceo comigo; além disto, as letras parece que tem mais fortuna, quando estão separadas do lugar em que nasceraõ; a mudança de linguagem he como huma
arvore que se transplanta, não só para fructificar melhor, mas tambem para ter abrigo.

Vale.

Aires, Matias (1752). Reflexões sobre a vaidade dos homens, ou discursos moraes sobre os effeitos da vaidade. Oferecido à D. José o I. Lisboa: Officina Francisco Luiz Ameno. 373 páginas 

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