Cioran: Trapista Negativo, ou a Desforra da Criatura Inconformada

Portal E.M. Cioran Brasil: 1 ano de (in)existência no YouTube… Mas, ironicamente, o vídeo mais visto não é sobre Cioran e não tem nada a ver com ele, diretamente. Die Grosse Stille (2005), de Philip Gröning, é um primoroso documentário alemão, de 3h de duração, quase todo em silêncio, que retrata a rotina do mosteiro cartuxo La Grande Chartreuse, nos alpes franceses. O filme teria agradado sobremaneira ao filósofo romeno. Como La Trappe (A Trapa, monges trapistas), o monasticismo cartuxo é austero, observando uma rigorosa lei de silêncio. São as ordem religiosas católicas mais ascéticas, ambas surgidas na França. Sobre La Trappe, Cioran escreve:

Que a Trapa tenha nascido na França, antes que na Itália ou na Espanha, não é um acaso. Os espanhóis e os italianos falam pelos cotovelos, mas não se escutam falar, ao passo que o francês saboreia sua eloquência, não esquece jamais que está falando, não poderia ser mais consciente disto. Apenas ele poderia considerar o silêncio como uma prova de ascese.”

Do inconveniente de ter nascido (1973)

Ora, a “obra” de Cioran é uma provocação, uma afronta ao Silêncio (com maiúscula alegórica), que a sua écriture (“demiurgia verbal”) rechaça, exorcisa e tangencia, com o qual ela flerta, sem nunca coincidir, sem nunca identificar-se com ele. Como poderia?

“Não há escritor que não repita, a seu nível, os vícios do mau demiurgo, e Cioran mais do que os outros. […] Ele tenta nos comunicar o seu saber funesto, lançando sob os nossos olhos essa parcela de trevas que predomina e se perpetua até no traço material da sua écriture, pelo excesso da forma sobre o sentido, que nomearemos literatura. As palavras permanecem, continuam a despejar sua cólera, quando aquele que a desencadeou já fora há muito esquecido, fazem ruído como um mecanismo absurdo abandonado pelo seu inventor. A obra de Cioran, animada de uma vitalidade autônoma, é por si só uma figuração do mal.”

Silvye Jaudeau, Cioran ou le dernier homme, p. 212.

Não só o francês, o homem enquanto tal (criatura demiúrgica e verborrágica) pode ser reputado o “tagarela” (bavard) da Natureza, um animal dotado de consciência e de linguagens, tão simbólicas e tão abstratas quanto utilitárias e pragmáticas (ou não tanto, não necessariamente), um animal que tem necessidade de comunicar-se (ou ao menos nutrir a ilusão da comunicação), que precisa falar, escutar, ser escutado, escutar-se, que mantém com a Palavra uma relação de dependência vital, análoga à que mantém com a Esperança e a ideia do Bem.

Comunicar-se serve para humanizar o “deserto do real”, em toda a sua crueza fundamental, para povoá-lo desses seres onomásticos que são as palavras, essas entidades linguísticas animadas (se não mágicas); para tornar o mundo cada vez mais antropomórfico e familiar, como se feito sob medida para o uso do animal racional e verbal. O mundo nos diz o que queremos ouvir, responde aos nossos chamados e questionamentos, fala conosco, e nós respondemos. Mas, escreve Cioran, “as coisas que tocamos e as que concebemos são tão improváveis quanto nossos sentidos e nossa razão; só estamos seguros em nosso universo verbal, manobrável a nosso bel-prazer, e ineficaz. O ser é mudo e o espírito, tagarela. Isso se chama conhecer.” (Breviário de decomposição)

Aí onde a maioria dos indivíduos acredita encontrar um apoio, um fundamento, um porto seguro, um instrumento de salvação (pedir socorro), e uma fachada para o nada, Cioran vê abismo sem fundo nem utilidade, beco sem saída, entrave, aporia, obstáculo, por fim, um apego (attachement) a mais, um pretexto de queda e de decadência, logo (para o bem e para o mal), um princípio de humanização.

“Não há salvação possível fora da imitação do silêncio. Mas nossa loquacidade é pré-natal. Raça de tagarelas, de espermatozoides verbosos, estamos quimicamente ligados à Palavra.”

Silogismos da amargura (1952)

Aquele que escreve, afirmando a impossibilidade de toda “salvação” fora da “imitação do silêncio”, se trai e se condena à medida que escreve, quanto mais o faz, insistentemente, sem querer ou poder deter-se, sem dar sinal de parar, de silenciar de uma vez por todas. Cioran diz, em suas entrevistas, ter prometido a si mesmo que não tornaria a escrever mais nenhum livro além do primeiro, Nos cumes do desespero, após o qual chegaria a cogitar pôr um fim aos seus dias, como o fizera Philipp Mäinlander, filósofo alemão pessimista da escola de Schopenhauer.

“Meu primeiro livro de título grandiloquente – Nos cumes do desespero – escrevi-o em romeno, com 21 anos, ao mesmo tempo em que prometia a mim mesmo nunca recomeçar. Depois cometi outro, com a mesma promessa em seguida. A comédia se repetiu por mais de 40 anos. Por quê? Porque escrever, por pouco que seja, me ajudou a passar de um ano ao outro, pois as obsessões expressas eram atenuadas e, parcialmente, superadas. Produzir é um alívio extraordinário. E publicar também. Um livro que se publica é sua vida ou parte de sua vida que se torna exterior a você, que não lhe pertence mais, que parou de atormentá-lo. A expressão diminui, empobrece, alivia você do seu próprio peso, a expressão é perda de substância e liberação. Esvazia, logo salva, priva você de um excesso incômodo. Quando detestamos alguém a ponto de querer liquidá-lo, o melhor é pegar uma folha de papel e escrever várias vezes que X é um canalha, um crápula e imediatamente percebemos que o odiamos menos e que quase não pensamos mais em vingança. É mais ou menos o que fiz com relação a mim mesmo e ao mundo. Extraí o Breviário de minhas profundezas para injuriar a vida e para me injuriar. O resultado? Suportei-me melhor, assim como suportei melhor a vida. Cada um se cuida como pode.”

Exercícios de admiração (1986)

Por mais que ame e que reverencie o silêncio, por mais que demonstre não só uma inclinação, mas como que sua necessidade vital e espiritual, toda a a “obra” de Cioran contradiz, em bloco, essa necessidade, essa inclinação, na contramão da ideia mesma do Silêncio. Como ocupar-se ao mesmo tempo da expressão e do silêncio, essa ausência de palavras e de sons? É possível dizer o Silêncio, comunicar a total ausência de um querer-dizer, significar, atribuir sentido, valor, existência? É possível negar a Palavra com palavras? São questões que a écriture cioraniana — a sua escritura fragmentária e ensaística, discontínua, assistemática e polifônica, a meio-caminho entre a objetividade conceitual do discurso filosófico e a subjetividade existencial, poética e estética do indivíduo de carne e osso — nos coloca, a nós leitores e intérpretes, e que o próprio Cioran não cessou de abordar, de ruminar à sua maneira, em seus textos franceses (tome-se por exemplo A tentação de existir).

Escrevendo em francês, diferentemente da sua produção intelectual romena, dita “de juventude”, Cioran torna-se hiperconsciente, como observa José Luis Álvarez Lopeztello, do ato de escrever, do caráter métodico e arquitetônico, sumamente meticuloso e calculista, do fazer literário em geral. O francês, esse “idioma emprestado” que funciona para ele como uma “camisa de força”, se presta muito bem a essa experiência terrivelmente lúcida da atividade do escritor. Ainda mais se for um usuário externo, um escritor estrangeiro (um “meteco”), um “bárbaro”, “troglodita” oriundo das Estepes, como Cioran gostava de se retratar, às voltas com um idioma demasiado rigoroso, demasiado perfeito para o seu gosto, para o seu temperamento balcânico…

“Seria iniciar o relato de um pesadelo contar-lhe com minúcias a história de minhas relações com este idioma emprestado, com todas as suas palavras pensadas e repensadas, refinadas, sutis até a inexistência, transtornadas pelos rigores da nuança, inexpressivas por haver exprimido tudo, de precisão assustadora, carregadas de fadiga e de pudor, discretas até na vulgaridade.
Como querer que um cita as aceite, compreenda seu significado preciso e as maneje com escrúpulo e probidade? Não há uma só cuja elegância extenuada não me dê vertigem: nelas não existe nenhum vestígio de terra, de sangue, de alma. Uma sintaxe de uma rigidez, de uma dignidade cadavérica, as comprime e lhes designa um lugar de onde nem o próprio Deus poderia desalojá-las. Quanto café, quantos cigarros e dicionários para escrever uma frase mais ou menos correta nesta língua inabordável, demasiado nobre, demasiado distinta para o meu gosto! E só me dei conta disso depois, quando, infelizmente, já era tarde demais para afastar-me dela; de outra forma, nunca teria abandonado a nossa, da qual às vezes sinto saudades do cheiro de frescor e de podridão, da mistura de sol e de bosta, da feiura nostálgica, da soberba descompostura. Não posso mais voltar para ela; a língua que tive que adotar me prende e me subjuga por causa dos próprios incômodos que me custou.”

“Sobre dois tipos de sociedade: carta a um amigo longínquo”, História e utopia (1960)

Sendo a dualidade irredutível e insuperável, no ser e no pensar-dizer (logos) de Cioran, o discurso cioraniano — híbrido e inclassificável, característica de poetas e sofistas igualmente (logologia) — permite apreender uma dupla face, um duplo registro: de um lado, a expressão, a palavra (e o palavrório), a “demiurgia verbal”, a escrita como ato de caluniar copiosamente o mundo, o homem, Deus e todas as coisas, a começar pelo eu (“pensar contra si”), enfim, essa a verborragia efusiva e virulenta, ainda que em pequenas doses aforismáticas; do outro lado, a face do Silêncio, sua contemplação e sua imitação. No avesso da superfície da página branca, a ser preenchida pelas palavras, no fundo sem fundo da Palavra, no outro da expressão, geme o Silêncio, jaz um ruído que não quer calar…


A écriture terapêutica, farmacológica: a “literatura” como exercício de lucidez intelectual e limpidez formal, de onde o grande estilo cioraniano. Não tivesse a vocação e o talento da Palavra, da “demiurgia verbal”, desesperada e alucinada, talvez Cioran tivesse caído na mendicância e na miséria, se tornado o perfeito Raté, como tantos que conheceu e com os quais muito aprendeu, filosoficamente falando. E, além disso, não escrever de maneira funcional, como um “funcionário”, um “escrevente” (écrivant, segundo Barthes), preocupado em transmitir saberes pedagógicos e conteúdos edificantes diversos. Cioran escreve para suportar o dia e a noite, a vida e a obsessão atormentada da morte, para suportar-se a si mesmo, para livrar-se de um fardo, de um ódio ou de uma vergonha, para exorcisar fantasmas, para tornar mais habitável o inferno deste mundo. É o estetistmo, a atitude eminentemente estética de Cioran vis-a-vis a vida, a existência, o mundo, o tempo — como não poderia deixar de ser, em se tratando de um filósofo existencial trágico, não cristão, como Kierkegaard.

Acontece que o filósofo Cioran tem aspirações, ambições, dir-se-ia mesmo necessidades próprias de um escritor, de um artista em todo caso, preocupado em criar, em exprimir, seja pelo verso, pela pintura, pela música ou pelo aforismo — as mesmas questões, experiências, intuições, perplexidades que ocupam os filósofos profissionais, com os seus sistemas e as suas teorias. Cioran não quis, e nem tinha vocação, para fazer da filosofia um ofício (um métier), uma ocupação profissional, na qualidade de professor. A sua única experiência docente, ainda na Romênia, nos anos 1930, como professor de um liceu na cidade de Brasov, foi um verdadeiro fiasco, e Cioran nunca mais se atreveria a pisar, ao menos não como professor, em qualquer sala de aula. Por tudo isso, pode-se dizer que a obra e a écriture cioranianas são de natureza eminentemente autobiográfica (uma “canção do eu”, para falar como Harold Bloom), dir-se-ia confessional, na linha das Confissões, de Agostinho a Rousseau.

É também muito mais do que isso, o que a torna tão polivalente, dotada de múltiplas camadas de significação e leitura: em Cioran, o mundo, os seres e as coisas são pretextos para refletir e escrever sobre si (autobiografia filosófica); inversamente, debruçar-se e ruminar sobre si mesmo, sobre ese maldito yo que não cessa de assombrar e oprimir, é um pretexto para pensar o mundo, o ser humano, a história e o tempo enquanto tal, a vida e a morte, enfim, todas as coisas dignas de serem pensadas e ruminadas (filosofia autobiográfica). O que é importante, essencial, útil, válido? — E o que não é? Cabe a cada um decidir, determinar por si, e para si… À guisa de conclusão, esta passagem (um tanto longa) da “Confissão resumida” contida ao final de Exercícios de admiração:

Escrever é uma provocação, uma visão felizmente falsa da realidade, que nos coloca acima do que existe e do que nos parece existir. Competir com Deus, ultrapassá-lo mesmo apenas pela força da linguagem, esta é a proeza do escritor, espécime ambíguo, dilacerado e enfatuado que, livre da sua condição natural, se entregou a uma vertigem magnífica, sempre desconcertante, algumas vezes odiosa. Nada mais miserável do que a palavra e, no entanto, é através dela que atingimos sensações de felicidade, uma dilatação última em que estamos completamente sós, sem o menor sentimento de opressão. O supremo alcançado pelo vocábulo, pelo próprio símbolo da fragilidade! Pode-se alcançá-lo também, curiosamente, através da ironia, com a condição de que esta, levando ao extremo sua obra de demolição, cause arrepios de um deus às avessas. As palavras como agentes de um êxtase invertido… Tudo o que é realmente intenso participa do paraíso e do inferno, com a diferença de que o primeiro só podemos entrevê-lo, enquanto o segundo temos a sorte de percebê-lo e, mais ainda, de senti–lo. Existe uma vantagem ainda mais notável de que o escritor tem o monopólio: a de se livrar de seus perigos. Sem a faculdade de encher as páginas me pergunto o que eu viria a ser. Escrever é desfazer-se de seus remorsos e rancores, vomitar seus segredos. O escritor é um desequilibrado que utiliza essas ficções que são as palavras para se curar. Quantas angústias, quantas crises sinistras venci graças a esses remédios insubstanciais!
Escrever é um vício de que podemos cansar-nos. Na verdade, escrevo cada vez menos e acabarei sem dúvida não escrevendo mais, por já não achar a menor graça neste combate com os outros e comigo mesmo.
Quando nos dedicamos a um assunto, qualquer que seja, experimentamos um sentimento de plenitude acompanhado de uma ponta de arrogância. Fenômeno mais estranho ainda: essa sensação de superioridade quando evocamos um personagem que admiramos. No meio de uma frase, com que facilidade nos consideramos o centro do mundo! Escrever e venerar não andam juntos: quer se queira ou não, falar de Deus é olhá-lo do alto. A escrita é a desforra da criatura e sua resposta a uma Criação sabotada.

Exercícios de admiração (1986)

SÁ MENEZES, R. I., R., “Cioran: Trapista Negativo, ou a Desforra da Criatura Inconformada”, Portal E.M. Cioran Brasil, 24 de abril de 2021. Disponível em: https://portalcioranbr.wordpress.com/2021/04/24/cioran-trapista-negativo/

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