“Heterotanatografia” – Juliano Garcia PESSANHA

Rapsódia – Almanaque de Filosofia e Arte, nr. 2, USP, 2002.

A desolação da terra pode ser acompanhada da obtenção do mais alto padrão de vida para o homem e, igualmente, da organização de um estado uniforme de felicidade para todos os homens. A desolação pode ser a mesma coisa nos dois casos, e assombrar do modo mais sinistro, a saber, ocultando-se.
A desolação não é a mera destruição. A desolação é, na cadência máxima, o banimento da Mnemosyne.

Martin Heidegger

Introdução
Esse-menino-aí

Meteoro incandescente na terra caído por desastre obscuro. (Mallarmé)

Minha mãe se “apaixonou” pelo meu pai porque ele usava meia 3/4s e tinha uma “bolsa de fígado” para os EUA. Foram agenciados em um grupo de psicanálise nos anos 60, grupo dirigido por um homem chamado Marcos Piva. Quando este bebê chegou ao mundo, o primeiro rosto que ele encontrou fazia parte do minotauro gelado da objetivação. A entidade que estava no lugar de minha mãe estudava os livros indicados pelo referido senhor a fim de produzir um bebê são. Fui um bebê abordado pelo cálculo. Quando eu tinha 27 anos minha mãe contou-me, com bastante orgulho, como eu “fora um bebê amado”: ela havia lido que aos 6 ou 7 meses não se podia deixar o bebê sozinho para ele não ficar esquizofrênico! Entrava no quarto e, indo até o berço, esboçava um sorriso, isto é, de tempo em tempo ia até o meu lugar na cela e imitava o gesto facial de um sorriso. Penso que esta experiência foi decisiva para minha vida futura. Uma vida que sempre quis escapar da superfície iluminada do mundo administrado para poder encontrar a consangüinidade do mistério das coisas. […]

E a palavra que aqui eu digo é a palavra disso e é, portanto, a palavra necessária e eu preciso da palavra ne-ces-sá-ria para derrotar, para triturar a palavra morta, a palavra bom senso, a palavra psi, a palavra língua ordinária, a palavra jornal, a palavra divã, a palavra belas-letras, a palavra homem-de-letras, a palavra amiga, a palavra diversão, a palavra talk-show, a palavra toda-TV e todarádio, a palavra táxi-Habermas, a palavra comunica-Apel, a palavra tísica-Rorty,
a palavra associa-Freud, a palavra materna, a palavra ciência, a palavra diagnóstico, a palavra humanista, a palavra moral-polícia; é um bando, é um séquito interminável o das palavras que eu preciso silenciar. [+]

Do livro Certeza do agora (Ateliê Editorial, 2002).

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