“Ela não era daqui…” – Susana Soca por E.M. Cioran

Em Exercícios de admiração: ensaios e perfis (1986), seu penúltimo livro, um dos perfis literários é o de uma mulher inominada, a quem Cioran alude misteriosamente: “Ela não era daqui…”

Quem era ela? Trata-se de Susana Soca (1906–1959), escritora, editora e promotora cultural (mecenas), uma importante intelectual uruguaia que viveu muito tempo na Europa, notadamente na França, onde conheceu e conviveu com diversos intelectuais e artistas da época, como Valentine Hugo, Pablo Picasso, Roger Caillois, e Paul Eluard, entre outros. De Picasso, ganhou um retrato pintado.

Por volta de 1938, conheceu o escritor russo Boris Pasternak. Viajar tornava-se cada vez mais difícil naqueles anos na Europa, tanto que a amizade entre os dois se manteve através de correspondências epistolares, mesmo à distância, o que ajudaria Susana Soca a aprimorar o seu russo. Ela desempenhou um papel decisivo na ocultação do manuscrito do Doutor Jivago, de Pasternak, cuja publicação havia sido censurada na União Soviética.

Nascida em Montevideo, Susana Soca fundou a Entregas de la Licorne (ou simplesmente La Licorne), uma publicação literária na qual editava textos de autores tão diversos como Maurice Blanchot, Jorge Luis Borges, Pablo Neruda e Jules Supervielle. A revista foi um conceituado ponto de encontro literário dos destinos cruzados de escritores europeus e sulamericanos, o que lhe confere um estatuto pioneiro em nosso continente.

De pais católicos, foi batizada na catedral de Notre-Dame, em Paris, poucos dias antes de seu segundo aniversário, durante uma viagem em família à Europa. Susana Soca recebeu sua educação formal em casa, em francês, sob a tutela de diferentes preceptores. Tornou-se uma poliglota precoce, vindo a dominar várias línguas: espanhol, francês, inglês, alemão, latim, italiano, grego e, posteriormente, também o russo.

Susana Soca morreu tragicamente, em 1959, num acidente de avião cujo destino era o Rio de Janeiro. Cioran comenta o falecimento nos Cahiers:

12 janvier 1959
Mort de Susanna Socca

I am not sorrowful but t am tired
Of everything that I ever desired
Combien de fois, grands Dieux! ne me suis-je pas répété ces vers
de Dowson ! Ma vie en est remplie.

Cahiers: 1957-1972

ELA NÃO ERA DAQUI…

Encontrei-a apenas duas vezes. É pouco. Mas o extraordinário não se mede em termos de tempo. Fui imediatamente conquistado pelo seu ar de ausência e de desorientação, pelos seus sussurros (ela não falava), seus olhares que não se fixavam nas pessoas nem nas coisas, sua aparência de espectro adorável. “Quem é você? De onde vem?”, era a pergunta que se tinha vontade de fazer a ela à queima-roupa. Não teria conseguido respondê-la, de tanto que se confundia com o seu mistério ou se recusava a traí-lo. Ninguém nunca saberá como fazia para respirar, por qual aberração cedia aos prestígios da respiração, nem o que procurava entre nós. O que é certo é que não era daqui e que só compartilhava de nossa degradação por gentileza ou por alguma curiosidade mórbida. Só os anjos e os incuráveis podem inspirar um sentimento análogo ao que sentíamos em sua presença. Fascinação, inquietação sobrenatural.

No mesmo instante em que a vi me apaixonei pela sua timidez, uma timidez única, inesquecível, que lhe dava a aparência de uma vestal esgotada a serviço de um deus clandestino ou então de uma mística devastada pela nostalgia ou pelo excesso de êxtase, para sempre incapaz de reintegrar as evidências!

Cheia de bens, satisfeita conforme o mundo, parecia entretanto destituída de tudo, no limite de uma mendicidade ideal, condenada a murmurar sua miséria no seio do imperceptível. De resto, o que podia possuir e proferir quando o silêncio lhe servia de alma e a perplexidade, de universo? E não lembrava aquelas criaturas da luz lunar de que fala Rozanov? Quanto mais se pensava nela, menos se era inclinado a julgá-la segundo as preferências e pontos de vista do tempo. Um gênero inatual de maldição pesava sobre ela. Felizmente, mesmo seu encanto se inscrevia no passado. Deveria ter nascido em outro lugar e em outra época, no meio das charnecas de Haworth, na neblina e na desolação, ao lado das irmãs Brontë…

Quem sabe decifrar os rostos lia facilmente no seu que não estava condenada a durar, que o pesadelo dos anos lhe seria poupado. Viva, parecia tão pouco cúmplice da vida, que não podíamos olhá-la sem pensar que jamais tornaríamos a vê-la. O adeus era o sinal e a lei de sua natureza, o brilho de sua predestinação, a marca de sua passagem sobre a Terra. Por isso, portava-o como uma auréola, não por indiscrição, mas por solidariedade com o invisível.


E.M. CIORAN, “Ela não era daqui…”, Exercícios de admiração: ensaios e perfis. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

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