NIETZSCHE: Reflexões sobre Estilo na Gaia Ciência

101. Voltaire. — Em todo lugar onde houve uma corte, ela estabeleceu a norma do bem falar e, com isso, também a norma do estilo para todos os que escreviam. A linguagem da corte, porém, é a linguagem do cortesão, que não tem profissão e que, mesmo em conversas sobre temas científicos, não se permite expressões técnicas convenientes, pois elas têm sabor de profissão. Por causa disso, a expressão técnica e tudo o que revela o especialista é, nos países de cultura cortesã, uma mancha de estilo. Agora que todas as cortes se tornaram caricaturas de ontem e de hoje, é uma surpresa achar o próprio Voltaire extremamente rígido e meticuloso nesse ponto (em seu julgamento sobre estilistas como Fontenelle e Montesquieu, por exemplo) — pois todos nós nos emancipamos do gosto cortesão, enquanto Voltaire o consumou!

226. Os desconfiados e o estilo. — Dizemos as coisas mais fortes de maneira singela, desde que estejamos rodeados de pessoas que acreditam em nossa força: um tal ambiente contribui para a “simplicidade do estilo”. Os desconfiados falam de modo enfático; os desconfiados também tornam enfático.

290. Uma coisa é necessária. — “Dar estilo” a seu caráter — uma arte grande e rara! É praticada por quem avista tudo o que sua natureza tem de forças e fraquezas e o ajusta a um plano artístico, até que cada uma delas aparece como arte e razão, e também a fraqueza delicia o olhar. Aqui foi acrescentada uma grande massa de segunda natureza, ali foi removido um bocado de primeira natureza: — ambas as vezes com demorado exercício e cotidiano lavor. Aqui o feio que não podia ser retirado é escondido, ali é reinterpretado como sublime. Muito do que era vago, resistente à conformação, foi poupado e aproveitado para a visão remota: — acenará para o que está longe e não tem medida. Por fim, quando a obra está consumada, torna-se evidente como foi a coação de um só gosto que predominou e deu forma, nas coisas pequenas como nas grandes: se o gosto era bom ou ruim não é algo tão importante como se pensa — basta que tenha sido um só gosto! — Serão as naturezas fortes, sequiosas de domínio, que fruirão sua melhor alegria numa tal coação, num tal constrangimento e consumação debaixo de sua própria lei; a paixão do seu veemente querer se alivia ao contemplar toda natureza estilizada, toda natureza vencida e serviçal; mesmo quando têm palácios a construir e jardins a desenhar, resistem a dar livre curso à natureza. — Inversamente, são os caracteres fracos, nada senhores de si, que odeiam o constrangimento do estilo: eles sentem que, se lhes fosse imposta essa maldita coação, debaixo dela viriam a ser vulgares: — eles se tornam escravos quando servem, eles odeiam servir. Tais espíritos — podem ser espíritos de primeira ordem — visam sempre configurar ou interpretar a si mesmos e ao seu ambiente como natureza livre — selvagem, arbitrária, fantástica, desordenada, surpreendente: e fazem bem ao fazê-lo, pois somente assim fazem bem a si próprios! Pois uma coisa é necessária: que o homem atinja a sua satisfação consigo — seja mediante esta ou aquela criação e arte: apenas então é tolerável olhar para o ser humano! Quem consigo está insatisfeito, acha-se continuamente disposto a se vingar por isso: nós, os outros, seremos as suas vítimas, ainda que tão só por termos de suportar sua feia visão. Pois a visão do que é feio nos torna maus e sombrios.

381. A questão da compreensibilidade. — Não queremos apenas ser compreendidos ao escrever, mas igualmente não ser compreendidos. De forma nenhuma constitui objeção a um livro o fato de uma pessoa achá-lo incompreensível: talvez isso estivesse justamente na intenção do autor — ele não queria ser compreendido por “uma pessoa”. Todo espírito e gosto mais nobre, quando deseja comunicar-se, escolhe também os seus ouvintes; ao escolhê-los, traça de igual modo a sua barreira contra “os outros”. Todas as mais sutis leis de um estilo têm aí sua procedência: elas afastam, criam distância, proíbem “a entrada”, a compreensão, como disse — enquanto abrem os ouvidos àqueles que nos são aparentados pelo ouvido. E, falando cá entre nós, sobre o meu próprio caso — não desejo que minha ignorância e a vivacidade de meu temperamento impeçam que eu lhes seja compreensível, meus amigos: não a vivacidade, por mais que ela me obrigue a lidar velozmente com algo, se chego a lidar com ele. Pois encaro os problemas profundos como um banho frio — entrando rapidamente e saindo rapidamente. Que assim não possamos chegar à profundidade, descer o suficiente, é uma superstição dos que temem a água, dos inimigos da água fria; eles falam sem experiência. Oh! o frio intenso torna veloz! — E pergunto de passagem: uma coisa permanece de fato incompreendida e não conhecida por ser apenas em voo tocada, avistada, relampejada? É preciso absolutamente ficar sobre ela? chocá-la como a um ovo? Diu noctuque incubando [Incubando-a dia e noite], como falou Newton de si mesmo? Pelo menos existem verdades de particular timidez e melindre, que não podem ser apanhadas senão de repente — que é preciso surpreender ou deixar de lado… Por fim, minha brevidade tem ainda outro valor: dadas as questões que me ocupam, tenho de dizer muita coisa brevemente, para que seja ainda mais brevemente ouvida. Pois, sendo imoralista, deve-se prevenir a corrupção da inocência, quero dizer, dos asnos e solteironas de ambos os sexos, que nada têm da vida senão a própria inocência; mais até, meus escritos devem arrebatá-los, elevá-los, encorajá-los a serem virtuosos. Eu não saberia de nada mais jocoso neste mundo do que ver arrebatados velhos asnos e solteironas, quando agitados pelos doces sentimentos da virtude: e “isto eu vi” — assim falou Zaratustra. Isso quanto à brevidade; a coisa é pior no que toca à minha ignorância, da qual a mim mesmo não faço segredo. Há momentos em que dela me envergonho; é certo que também há momentos em que me envergonho dessa vergonha. Talvez todos nós, filósofos, estejamos atualmente mal colocados em relação ao saber: a ciência cresce, os mais eruditos entre nós estão quase a descobrir que sabem muito pouco. Mas seria ainda pior se fosse diferente — se soubéssemos demais; nossa tarefa é e continua sendo, antes de tudo, não nos confundirmos com outros. Nós somos algo diferente de eruditos: embora seja inevitável que, entre outras coisas, também sejamos eruditos. Temos outras necessidades, outro crescimento, outra digestão: precisamos de mais, também precisamos de menos. Não existe fórmula para o quanto um espírito necessita para a sua nutrição; mas, se tem o gosto orientado para a independência, para o rápido ir e vir, para andanças, talvez para aventuras, de que somente os mais velozes são capazes, então prefere viver livre e com pouco alimento, do que preso e empanturrado. Não é gordura, mas maior flexibilidade e força, aquilo que um bom dançarino requer da alimentação — e eu não saberia o que o espírito de um filósofo mais poderia desejar ser, senão um bom dançarino. Pois a dança é o seu ideal, também a sua arte, e afinal sua única devoção também, seu “culto divino”…

NIETZSCHE, Friedrich, A Gaia Ciência. Trad. de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia de Bolso, 2001.

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