“Angústia dialeticamente determinada no sentido de destino” – Søren Aabye KIERKEGAARD

Costuma-se geralmente dizer que o paganismo jaz no pecado, porém seria talvez mais justo afirmar que ele reside na angústia. De modo geral, o paganismo é sensualidade, porém uma sensualidade que possui certa relação com o espírito, sem que, contudo, o espírito no sentido mais profundo esteja posto como espírito. Mas essa possibilidade é justamente angústia.

Se perguntarmos mais concretamente qual o objeto da angústia, há que responder, aqui como em toda parte, que é nada. Angústia e nada correspondem constantemente um ao outro. Tão logo a realidade da liberdade e do espírito é posta, é abolida a angústia. Mas o que significa então mais concretamente, no paganismo, o nada da angústia? O destino.

Destino é uma relação com o espírito, como relação exterior; ele é uma relação entre espírito e uma outra coisa que não é espírito, porém com a qual, mesmo assim, o espírito deve permanecer numa relação espiritual. Destino pode significar coisas exatamente opostas, dado que ele é unidade de necessidade e contingência. Isso nem sempre tem sido levado em consideração. Tem-se falado sobre o fatum pagão (que, por sua vez, é caracterizado diferentemente na concepção oriental ou na dos gregos) como se fosse a necessidade. Um resíduo dessa necessidade acabou ficando na visão cristã, onde passou a significar o destino, isto é, o casual, aquilo que é incomensurável no tocante à providência. Contudo, as coisas não se passam assim, pois destino é justamente unidade de necessidade e casualidade. Isso se exprime de modo engenhoso quando se diz que o destino é cego, pois quem avança cegamente, tanto anda de maneira necessária como casualmente. Uma necessidade que não tem consciência de si mesma é eo ipso, “por essa mesma razão” casual com relação ao momento seguinte. O destino é então o nada da angústia. Ele é nada, pois, uma vez posto o espírito, a angústia é abolida, mas igualmente o destino, porque justamente assim fica posta também a providência. Do destino pode-se então dizer o que São Paulo diz dos ídolos: não há nenhum ídolo no mundo, e, contudo, o ídolo é o objeto da religiosidade dos pagãos.

A angústia do pagão tem no destino seu objeto, seu nada. Ele não pode entrar numa relação com o destino, pois, assim como neste mesmo instante o destino é o necessário, no instante seguinte é o contingente. E, contudo, ele está numa relação com o destino, e esta relação é a angústia. Mais próximo do destino o pagão não consegue chegar. A tentativa que o paganismo empreendeu nesse rumo foi suficientemente profunda para jogar uma nova luz sobre a questão. Quem deve explicar o destino tem de ser tão ambíguo quanto o destino. Assim era também o oráculo. Do mesmo modo que o destino, o oráculo podia, por sua vez, significar coisas inteiramente opostas. A relação do pagão com o oráculo é mais uma vez angústia. Aqui reside o trágico profundo, insondável, que há no paganismo. O trágico não consiste, contudo, no fato de as sentenças do oráculo serem ambíguas, mas, isso sim, em não ousar o pagão dispensar buscar conselho nelas. Ele está numa relação com o oráculo, não tem coragem de deixar de o consultar; mesmo no momento da consulta, conserva uma relação ambígua com ele (de simpatia e de antipatia). E o que dizer então das interpretações do oráculo!

O conceito de culpa e pecado não surge no sentido mais profundo no paganismo. Se chegasse ao primeiro plano, o paganismo afundaria por causa da contradição de alguém se tornar culpado pelo destino. Pois esta é a suprema contradição, e nessa contradição irrompe o cristianismo. O paganismo não a percebe, para isso ele é leviano demais na definição do conceito de culpa.

O conceito de pecado e de culpa constitui o indivíduo como o indivíduo. Não vem ao caso aqui qualquer relação com o mundo inteiro, com todo o passado. Trata-se apenas de que ele é culpado e, contudo, deve ser culpado em razão do destino, em razão, pois, de tudo quanto não vem ao caso, e ele deve com isso vir a ser algo que justamente supera o conceito de destino, e ele vem a sê-lo pelo destino.

Essa contradição, se concebida numa maneira equivocada, fornece o conceito equivocado de pecado hereditário, e corretamente compreendida dá o conceito verdadeiro, de tal modo, com efeito, que cada indivíduo é ele mesmo e o gênero humano, e o indivíduo posterior não é essencialmente diferente do primeiro. Na possibilidade da angústia, a liberdade esmorece, sobrepujada pelo destino, agora a sua realidade se soergue, mas com a explicação de que se tornou culpada. A angústia, em seu ponto extremo, quando parece que o indivíduo se tornou culpado, ainda não é a culpa. O pecado não surge nem como uma necessidade nem como algo casual, e por isso corresponde ao conceito de pecado: a providência.

No interior do cristianismo encontramos a angústia do paganismo em relação ao destino onde quer que o espírito decerto esteja presente, mas ainda não tenha sido posto essencialmente como espírito. Esse fenômeno se mostra com mais nitidez quando nos propomos a observar um gênio. O gênio é imediatamente, enquanto tal, uma subjetividade predominante. Ainda não está posto como espírito, pois, como tal, somente é posto pelo espírito. Como imediato, ele pode ser espírito (aqui reside a ilusão, como se suas qualidades extraordinárias fossem espírito instituído como espírito), mas neste caso tem fora de si algo de diferente, que não é espírito, e está mesmo numa relação exterior com o espírito. Por isso, o gênio descobre constantemente o destino e, quanto mais profundo é o gênio, mais profundamente o descobre. Para os carentes de espírito isso, naturalmente, é uma tolice, mas na realidade isso é que é o grandioso, pois com a ideia de providência ninguém nasce, e aqueles que acham que a educação nos dá, de forma sucessiva, tal ideia, erram gravemente, sem que com isso eu pretenda negar a importância da educação. Com isso, justamente, ao descobrir o destino, o gênio revela sua potência de força original, e em seguida ele revela, por sua vez, sua impotência. Para o espírito imediato, que o gênio sempre é, só que ele é espírito imediato sensu eminentiori “no sentido mais elevado” – o destino é o limite. Só com o pecado se porá a providência. Por isso, o gênio tem uma tremenda batalha para alcançá-la. Se não a alcançar, então poderemos usá-lo para estudar melhor o destino.

O gênio é um Ansich “em si” todo-poderoso que, como tal, poderia abalar o mundo inteiro. Por uma questão de ordem, surge por isso junto com ele uma outra figura, que é o destino. Este é nada; e o é para ele mesmo, que o descobre, e quanto mais profundo o gênio, tanto mais profundamente ele o descobre; pois esta figura nada mais é do que a antecipação da providência. Se ele prossegue então sendo apenas gênio e se volta para fora, pode realizar o assombroso e, contudo, permanecerá o tempo todo submetido ao destino, senão externamente, de modo palpável e visível para todos, ao menos internamente. Por isso a existência de um gênio será sempre igual a uma aventura, se ele não conseguir voltar-se para dentro de si mesmo, no sentido mais profundo. O gênio é capaz de tudo e, no entanto, é dependente de uma insignificância que ninguém percebe, uma coisa sem importância a que o próprio gênio, por sua vez, com sua onipotência, dá uma importância todo-poderosa. Por isso, um segundo-tenente, quando é gênio, é capaz de se tornar imperador, recriar o mundo de modo que não fique senão um único império e um único imperador. Mas, pela mesma razão, um exército pode estar ordenado em linha de combate, as condições da batalha absolutamente favoráveis, talvez no próximo minuto desperdiçadas, um reino de heróis implorando pela palavra de comando para o ataque, porém ele não pode, ele tem necessidade de aguardar o 14 de junho, e por quê? – Porque é essa a data da Batalha de Marengo. Por isso, tudo pode estar pronto, ele próprio parado diante das legiões, apenas aguardando que o sol se levante e com isso intima ao discurso que eletrizará os soldados, e o sol pode raiar mais esplendoroso do que nunca, uma cena que entusiasma e inflama a qualquer um, menos a ele, pois tão esplendoroso não era o sol de Austerlitz, e só o sol de Austerlitz dá a vitória e arrebata. Daí a inexplicável paixão com a qual um tal homem, tantas vezes, pode enfurecer-se contra uma pessoa completamente insignificante, embora em outras ocasiões possa mostrar humanidade e amabilidade mesmo frente aos inimigos. Sim, ai do homem, ai da mulher, ai da inocente criança, ai do animal do campo, ai do pássaro cujo voo e ai da árvore cujos ramos se atravessarem em seu caminho no instante em que ele deve receber seu presságio.

O exterior, como tal, nada significa para o gênio, e por isso ninguém consegue compreendê-lo. Tudo depende de como ele mesmo o compreende na presença de seu amigo secreto (o destino). Pode tudo estar perdido, o homem mais simplório e o mais sábio podem estar de acordo em dissuadi-lo de sua infrutífera tentativa. Contudo, o gênio sabe que ele é mais forte do que o mundo inteiro, contanto que, nesse exato momento, não descubra nenhum comentário duvidoso para o escrito invisível, em que ele lê a vontade do destino. Se a lê de acordo com seus desejos, então exclama com sua onipotente voz para o piloto: “Solta as velas, tu transportas César e sua sorte”. Pode tudo estar conquistado e, no mesmo momento em que ele recebe a notícia, ressoa talvez uma palavra, cujo significado nenhuma criatura, nem Deus nos céus compreende (pois, num certo sentido, nem mesmo Ele entende o gênio) e este sucumbe impotente.

Desse modo, o gênio está posto fora do universal. Ele é grande por sua fé no destino, quer ele vença, quer ele caia; pois ele vence por si mesmo e cai por si mesmo, ou melhor, ambas as coisas ocorrem pelo destino. Em geral, só se admira a sua grandeza quando vence e, contudo, jamais é maior do que quando cai por si mesmo. Com efeito, isso se deve entender da maneira seguinte: que o destino não se anuncia de um modo exterior. Ao contrário, justo no momento em que humanamente falando tudo está ganho, ele descobre a versão duvidosa e então afunda, nesse exato momento todos podem por certo exclamar: que gigante não seria necessário para o abater! Mas, por isso, ninguém o conseguiria, a não ser ele mesmo. A fé que submetia reinos e nações da terra à sua mão poderosa, enquanto os homens acreditavam estar assistindo a um conto de fadas, essa mesma fé o derrubou, e a sua queda é uma história ainda mais indecifrável.

Por isso, o gênio se angustia numa hora diferente da dos homens comuns. Esses só descobrem o perigo no instante do perigo, até então se sentem seguros, e uma vez passado o perigo estão seguros de novo. O gênio está mais forte que nunca no instante do perigo (já a sua angústia situa-se no instante anterior e no instante posterior), nesse momento tremendo em que ele precisa ter uma conversa com aquele grande desconhecido que é o destino. Talvez a maior de todas as suas angústias se dê justamente no instante seguinte, porque a impaciência da certeza cresce sempre numa proporção inversa à curteza da distância, já que sempre há mais a perder à proporção que se está mais próximo de vencer e principalmente no próprio instante da vitória, mas também porque a lógica do destino justamente não tem nenhuma lógica.

O gênio, enquanto tal, não é capaz de se entender religiosamente e, assim, não chega nem ao pecado nem à providência; e, por essa razão, fica numa relação da angústia com o destino. Jamais existiu algum gênio sem essa angústia, a não ser que, concomitantemente, tivesse sido religioso.

Se permanecer como imediatamente determinado e voltado só para o exterior, nesse caso até tornar-se-á grande, e suas façanhas surpreendentes, mas jamais chegará a si próprio e nunca chegará a ser grande por si mesmo. Todas as suas ações dirigem-se para fora, porém o núcleo, se me permitem dizer, planetário que ilumina tudo não chega a formar-se. A importância do gênio para si próprio é nenhuma, ou é de uma melancolia tão duvidosa quanto o seria a simpatia com que os habitantes de uma das ilhas Féroe se alegrariam, caso nessa ilha vivesse um conterrâneo que, com escritos em diferentes línguas europeias, assombrasse toda a Europa e transformasse as ciências graças a seus méritos imortais, mas, por outro lado, jamais redigisse uma única frase em feroico, e por fim até esquecesse de como é que se fala isso. O gênio jamais adquire importância para si próprio, no sentido mais profundo do termo, nem o seu alcance pode ser definido acima do destino, no que tange àquelas categorias que são todas temporais: fortuna, infortúnio, glória, honra, poder, renome imortal. Fica excluída qualquer determinação mais profundamente dialética da angústia. A última seria a de ser visto como culpado, de modo que a angústia não visasse à culpa, porém a sua simples aparência, que é uma determinação ligada à honra. Este estado de alma bem que mereceria um tratamento poético. Algo semelhante pode suceder a qualquer homem, mas o gênio já tomaria isso com tanta profundidade que não estaria lutando contra os homens, porém contra os mais profundos mistérios da vida.

Ora, que uma existência tão genial, apesar de seu brilho, sua glória e sua importância seja pecado, será que é preciso coragem para o compreender? E dificilmente se poderá compreendê-lo antes de se aprender a saciar a fome de sua alma cheia de desejos. No entanto, as coisas são assim mesmo. O fato de uma tal existência poder até um certo ponto ser feliz não prova nada. Podemos, afinal, conceber seus dotes como um meio de distração e ao percebermos isso em nenhum instante nos elevarmos acima das categorias que abarcam o temporal. Contudo, só por meio de um acerto de contas religioso ficam justificados no sentido mais profundo o gênio e o talento. Se tomarmos um gênio como Talleyrand, encontrava-se então nele afinal a possibilidade de um acerto muito mais profundo na sua existência. Ele o evitou. Ele seguiu a determinação que havia nele para o exterior. O seu admirado gênio de intrigante mostrou-se de modo magnífico, foi admirada a sua maleabilidade, o ponto de saturação de seu gênio (para usar um termo que os químicos empregam a respeito dos ácidos corrosivos), mas ele pertence à temporalidade. Se um tal gênio tivesse desdenhado a temporalidade como algo imediato, se tivesse se voltado para si próprio e para o divino, que gênio religioso não teria surgido daí! Mas, quantos tormentos ele não teria, igualmente, suportado! Seguir as disposições imediatas facilita a vida, quer se seja grande ou pequeno, mas a recompensa será também proporcional, seja-se grande ou pequeno, e quem não é tão maduro espiritualmente para entender que até uma honra imortal que perpassa todas as gerações não passa de uma categoria da temporalidade, não entende que aquilo cuja perseguição conserva a alma do homem insone no desejo e no apetite é algo tão imperfeito em comparação com a imortalidade que aguarda a cada um, e com toda razão despertaria a inveja justificada de todo o mundo se, porventura, tal imortalidade fosse reservada a um só homem – não avançará muito em sua explicação do espírito e da imortalidade.

KIERKEGAARD, Søren Aabye, O conceito de angústia: uma simples reflexão psicológico-demonstrativa direcionada ao problema dogmático do pecado hereditário. Trad. de Álvaro Luiz Montenegro Valls. Petrópolis, RJ: Vozes ; 2017. (Vozes de Bolso)

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