Chestov e a “tradição do pensamento humilhado” – Albert CAMUS

A inteligência também me diz, à sua maneira particular, que este mundo é absurdo. Seu contrário, que é a razão cega, prefere pretender que tudo está claro; eu esperava provas e desejava que ela tivesse razão. Mas, apesar de tantos séculos pretensiosos e acima de tantos homens eloquentes e persuasivos, sei que isto é falso. Nesse plano, pelo menos, não há felicidade se eu não puder saber. Essa razão universal, prática ou moral, esse determinismo, essas categorias que explicam tudo fazem o homem honesto dar risada. Não têm nada a ver com o espírito. Negam sua verdade profunda, que é a de estar acorrentado. Nesse universo indecifrável e limitado, o destino do homem ganha doravante seu sentido. Uma multidão de irracionais se ergue para rodeá-lo até o fim. Em sua clarividência recuperada e agora ajustada, o sentimento do absurdo se esclarece e torna-se mais preciso. Eu dizia que o mundo é absurdo, mas ia muito depressa. Este mundo não é razoável em si mesmo, eis tudo o que se pode dizer. Porém o mais absurdo é o confronto entre o irracional e o desejo desvairado de clareza cujo apelo ressoa no mais profundo do homem. O absurdo depende tanto do homem quanto do mundo. Por ora, é o único laço entre os dois. Ele os adere um ao outro como só o ódio pode juntar os seres. É tudo o que posso divisar claramente neste universo sem medida onde minha aventura se desenrola. Paremos por aqui. Se considero verdadeiro esse absurdo que rege minhas relações com a vida, se me deixo penetrar pelo sentimento que me invade diante do espetáculo do mundo, pela clarividência que me impõe a busca de uma ciência, devo sacrificar tudo a tais certezas e encará-las de frente para poder mantê-las. Sobretudo, devo pautar nelas minha conduta e persegui-las em todas as suas consequências. Falo aqui de honestidade. Mas, antes, quero saber se o pensamento pode viver nesses desertos.

Já sei que o pensamento pelo menos entrou nesses desertos. Ele encontrou ali seu pão. Compreendeu que até então se nutria de fantasmas. Deu pretexto para alguns dos temas mais prementes da reflexão humana.

A partir do momento em que é reconhecido, o absurdo é uma paixão, a mais dilacerante de todas. Mas toda a questão é saber se podemos viver com nossas paixões, se podemos aceitar sua lei profunda, que é queimar o coração que elas ao mesmo tempo exaltam. Mas ainda não é disso que trataremos. Essa questão está no centro dessa experiência, haverá tempo para voltar a ela. Antes, reconheçamos esses temas e impulsos nascidos do deserto. Será suficiente enumerá-los. Hoje em dia são conhecidos por todos. Sempre houve homens para defender os direitos do irracional. A tradição do que podemos chamar de pensamento humilhado nunca deixou de estar viva. A crítica ao racionalismo foi feita tantas vezes que parece não haver mais o que dizer. Mas nossa época vê renascer esses sistemas paradoxais que se empenham em fazer a razão tropeçar, como se na verdade ela sempre tivesse andado com passos firmes. Mas isto não é prova da eficácia da razão, como tampouco da vivacidade de suas esperanças. No plano da história, essa constância de duas atitudes ilustra a paixão essencial do homem dilacerado entre sua atração pela unidade e a visão clara que pode ter dos muros que o encerram.

Mas nunca, talvez, como em nosso tempo, o ataque à razão foi tão forte. Desde o grande grito de Zaratustra: “Por acaso, é a nobreza mais antiga do mundo. Eu a atribuí a todas as coisas quando disse que acima dela não havia nenhuma vontade eterna a querer”, desde a doença mortal de Kierkegaard, “esse mal que leva à morte sem mais nada depois dela”, os temas significativos e torturantes do pensamento absurdo se sucederam. Pelo menos, e este detalhe é capital, os do pensamento irracional e religioso. De Jaspers a Heidegger, de Kierkegaard a Chestov, dos fenomenólogos a Scheler, no plano lógico e no plano moral, toda uma família de espíritos, aparentados por sua nostalgia, opostos por seus métodos ou seus fins, teimaram em obstruir a via real da razão e recuperar os caminhos retos da verdade. Estou supondo aqui pensamentos conhecidos e vividos. Não importa quais sejam ou tenham sido suas ambições, todos eles partiram do universo indizível em que reinam a contradição, a antinomia, a angústia ou a impotência. E o que eles têm em comum são justamente os temas que até aqui abordamos. Sobre eles, também deve-se dizer que o que mais importa são as conclusões que puderam extrair dessas descobertas. Elas têm tanta importância que será preciso examiná-las à parte. Por enquanto abordamos somente suas descobertas e experiências iniciais. Trata-se apenas de constatar sua concordância. Seria presunçoso querer tratar de suas filosofias, mas é possível, e suficiente, em todo caso, expor o ambiente que lhes é comum.

Heidegger considera friamente a condição humana e anuncia que essa existência é humilhada. A única realidade é o “cuidado”, em toda a escala dos seres. Para o homem perdido no mundo e suas distrações, tal cuidado é um breve e fugidio medo. Mas eis que esse medo toma consciência de si mesmo e torna-se angústia, ambiente perpétuo do homem lúcido, “no qual se reencontra a existência”. Esse professor de filosofia escreve sem tremor e na linguagem mais abstrata do mundo que “o caráter finito e limitado da existência humana é mais primordial que o próprio homem”. Ele se interessa por Kant, mas é para reconhecer o caráter limitado de sua Razão pura. Tudo isso para concluir, ao cabo de suas análises, que “o mundo nada mais pode oferecer ao homem angustiado”. A verdade desse cuidado lhe parece ultrapassar tanto, em termos de verdade, as categorias do raciocínio, que ele não para de pensar nisso e só fala disso. E enumera suas faces: de tédio quando o homem banal procura nivelá-lo em si mesmo e atordoá-lo, de terror quando o espírito contempla a morte. Ele tampouco separa a consciência do absurdo. A consciência da morte é o apelo do cuidado e “a existência se lança então um apelo próprio por intermédio da consciência”. Ela é a própria voz da angústia e exorta a existência “a voltar a ser ela mesma depois de sua perda no Se anônimo”. Também para ele não é preciso dormir, e sim ficar insone até a consumação. Ele se mantém neste mundo absurdo, denunciando seu caráter perecível. Procura seu caminho no meio dos escombros.

Jaspers desiste de toda ontologia porque quer que percamos a “ingenuidade”. Sabe que não podemos atingir nada que transcenda o jogo mortal das aparências. Sabe que o fim do espírito é o fracasso. Percorre sem pressa as aventuras espirituais que a história nos oferece e desvenda impiedosamente a falha de cada sistema, a ilusão que salvou tudo, a pregação que nada ocultou. Neste mundo devastado onde foi demonstrada a impossibilidade de conhecer, onde o nada parece ser a única realidade e o desespero sem remédio, a única atitude, ele tenta encontrar o fio de Ariadne que conduz aos segredos divinos.

Chestov, por seu lado, ao longo de toda uma obra de admirável monotonia, sempre inclinado em direção às mesmas verdades, demonstra sem trégua que o sistema mais fechado, o racionalismo mais universal, sempre acaba batendo no irracional do pensamento humano. Não lhe escapa nenhuma evidência irônica, nenhuma contradição ridícula que desvalorize a razão. Apenas uma coisa lhe interessa, a exceção, seja na história do coração ou na história do espírito. Através das experiências dostoievskianas do condenado à morte, das aventuras exasperadas do espírito nietzschiano, das imprecações de Hamlet ou da amarga aristocracia de um Ibsen, ele rastreia, ilumina e magnifica a revolta humana contra o irremediável. Nega à razão suas razões e só no meio de um deserto sem cor, onde todas as certezas se transformaram em pedras, ele começa a dirigir seus passos com alguma decisão.

Kierkegaard, talvez o mais interessante de todos, pelo menos durante parte de sua existência fez melhor do que descobrir o absurdo: ele o viu. O homem que escreve: “O mais seguro dos mutismos não é calar-se, mas falar”, de partida se assegura que nenhuma verdade é absoluta e não pode tornar satisfatória uma existência impossível em si mesma. Don Juan do conhecimento, ele multiplica os pseudônimos e as contradições, escreve os Discursos edificantes ao mesmo tempo em que esse manual de espiritualismo cínico que é O diário do sedutor. Rejeita os consolos, a moral, os princípios de todo repouso. Não pretende acalmar a dor do espinho que sente cravado no coração. Pelo contrário, ele a desperta e, com a alegria desesperada de um crucificado contente de sê-lo, constrói, peça por peça, lucidez, rejeição, comédia, uma categoria do demoníaco. Esse rosto ao mesmo tempo terno e zombeteiro, essas piruetas seguidas de um grito surgido do fundo da alma, eis o próprio espírito absurdo às voltas com uma realidade que o ultrapassa. E a aventura espiritual que leva Kierkegaard aos seus queridos escândalos também começa no caos de uma experiência despojada de seus cenários e entregue à sua incoerência primeira.

Num plano completamente diferente, o do método, por seus próprios exageros, Husserl e os fenomenólogos restituem o mundo na sua diversidade e negam o poder transcendente da razão. O universo espiritual se enriquece com eles de maneira incalculável. A pétala de rosa, o marco da quilometragem ou a mão humana têm tanta importância quanto o amor, o desejo ou as leis da gravidade. Pensar já não é mais unificar, tornar familiar a aparência sob o rosto de um grande princípio. Pensar é reapreender a ver, a ser atento, é dirigir a própria consciência, é fazer de cada ideia e de cada imagem, à maneira de Proust, um lugar privilegiado. Paradoxalmente, tudo é privilegiado. O que justifica o pensamento é sua extrema consciência. Mesmo sendo mais positivo que em Kierkegaard ou em Chestov, o procedimento husserliano, em sua origem, nega, contudo, o método clássico da razão, decepciona a esperança, abre à intuição e ao coração toda uma proliferação de fenômenos cuja riqueza tem algo de desumano. Tais caminhos levam a todas as ciências ou a nenhuma. Isto quer dizer que o meio, aqui, tem mais importância que o fim. Trata-se apenas “de uma atitude para conhecer” e não de um consolo. Mais uma vez, pelo menos na origem.

Como não perceber o parentesco profundo entre esses espíritos? Como não ver que eles se agrupam em torno de um espaço privilegiado e amargo onde a esperança não tem lugar? Quero que tudo me seja explicado, ou nada. E a razão é impotente diante desse grito do coração. O espírito, despertado por essa exigência, procura e nada encontra além de contradições e disparates. O que eu não entendo carece de razão. O mundo está povoado por tais irracionalidades. Aquele cujo significado único eu não entendo não passa de uma imensa irracionalidade. Pudesse dizer uma vez só: “isto está claro”, e tudo se salvaria. Mas esses homens proclamam à porfia que nada é claro, tudo é caos, que o homem só mantém sua clarividência e o conhecimento preciso dos muros que o cercam.

Todas essas experiências concordam e se recobrem. O espírito que chega aos confins deve emitir um juízo e determinar suas conclusões. Aí se localizam o suicídio e a resposta. Mas quero inverter a ordem da investigação e partir da aventura inteligente para voltar aos gestos cotidianos. As experiências que evocamos aqui nasceram no deserto que não devemos abandonar. Pelo menos é preciso saber até onde elas chegaram. Neste ponto do seu caminho, o homem se encontra diante do irracional. Sente em si o desejo de felicidade e de razão. O absurdo nasce desse confronto entre o apelo humano e o silêncio irracional do mundo. Isto é o que não devemos esquecer. A isto é que devemos nos apegar, porque toda a consequência de uma vida pode nascer daí. O irracional, a nostalgia humana e o absurdo que surge de seu encontro, eis os três personagens do drama que deve necessariamente acabar com toda a lógica de que uma existência é capaz.

CAMUS, Albert, O mito de Sísifo. Tra. de Ari Roitman e Paulina Watch. 1. ed. Rio de Janeiro : Record, 2019.

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