“Um argumento negligenciado”: Charles Peirce e a experiência do divino como “devaneio” – Alberto Augusto PERAZZO

Revista CULT, ano 11, n. 131, dezembro de 2008

O pragmaticismo de Charles Peirce aposta na experiência divina como “devaneio” e traz três argumentos para investigar a Realidade de Deus

Charles Sanders Peirce (1839-1914), conhecido como o fundador do pragmaticismo (em substituição do “pragmatismo”), apresenta uma reflexão vigorosa sobre o tema do conhecimento fundado na experiência. Com efeito, seu pensamento científico-filosófico é uma das poucas tentativas bem-sucedidas, na contemporaneidade, de revisar a compreensão dada pela filosofia moderna às noções de experiência e razão. E é por isso que ele pode, exatamente como um cientista-filósofo contemporâneo, afirmar a Realidade de Deus.

Assim, antes de tudo, Peirce respeita o ponto de partida científico moderno, ou seja, a “experiência”, mas não sem mostrar que, com relação a esse termo, a atitude mais coerente com a vida humana seria a de entendê-lo como o inteiro resultado cognitivo do viver: “O que é a experiência sobre a qual se baseia a filosofia? Para qualquer uma das ciências especiais, experiência é aquilo que é diretamente revelado pela arte observacional daquela ciência. (…) Mas, em filosofia, não existe uma arte observacional especial, e não existe conhecimento adquirido anteriormente, à luz do qual a experiência é interpretada. A interpretação em si mesma é experiência. (…) Em filosofia, a experiência é o inteiro resultado cognitivo do viver” – CP 7, 527 (CP indica Collected Papers of Charles Sanders Peirce, volume, parágrafo – PEIRCE, C. S. Collected Papers. Cambridge: Harvard University Press, 1958, 8 vols.).
Com base nessa noção de experiência, Peirce admitirá não apenas a razoabilidade, mas também a racionalidade de sua crença em Deus. Assume, entretanto, que a idéia de Deus é vaga. Vaga, porém, natural e indubitável.

Deus e experiência

O caráter vago da idéia de Deus deve-se justamente ao fato de que todo conhecimento se funde na experiência. Todavia, a experiência não pode associar-se apenas às primeiras impressões dos sentidos. Peirce dizia: “Alguns psicólogos irão me deter aqui para dizer que, enquanto admitem que a experiência é mais do que mera sensação, eles não podem estendê-la ao produto mental todo, pois isso incluiria alucinações, ilusões, imaginações supersticiosas e falácias de todas as espécies; e que eles limitariam experiência a percepções sensíveis. Mas replico que meu enunciado é o único lógico. Alucinações, ilusões, imaginações supersticiosas e falácias de todas as espécies são experiências, mas experiências mal-entendidas; por sua vez, relacionar todo nosso conhecimento meramente à percepção sensível é dizer que nada podemos saber – nem mesmo equivocadamente – acerca de assuntos mais elevados, como honra, aspirações e amor” (CP 6, 492).

Dessa perspectiva, aceitamos que temos algo como uma idéia de Deus, e “de onde viria uma tal idéia senão da experiência direta?” (CP 6, 493). Mas a experiência direta, neste caso, não está na origem de um processo que levaria ao raciocínio e produziria a idéia de Deus. “Não! Para Deus, abre teus olhos – e teu coração, que também é um órgão perceptivo – e tu o verás.” Trata-se de experiência instintiva, como também o é a experiência que está na raiz do conhecimento científico.

A experiência de Deus, então, será -possível por meio do que Peirce denomina musement, ou “devaneio”, um estado particular da mente e do coração, sem regra nenhuma, que percorre os níveis da experiência livremente, e que neste percurso, mais cedo ou mais tarde, defronta-se com a idéia de Deus tão fortemente que se constitui em uma crença instintiva, base mesma de todo raciocínio posterior.

Peirce admite ter ele mesmo vivido um maravilhamento: “Deixa um homem beber nesses pensamentos que lhe chegam ao contemplar o universo psicofísico sem nenhum propósito especial (…). A idéia de um Deus por cima de tudo isso certamente surgirá, e quanto mais a considere, mais o envolverá o amor por essa idéia. Perguntará a si mesmo se de verdade há um Deus ou não. Se se permite falar ao seu instinto, e se buscar em seu próprio coração, concluirá, no final, que não pode evitar crer n´Ele” (CP 6, 501).

A crença surge, assim, da própria vida, dando, também, ocasião a uma argumentação própria e racional. Nesse sentido, Peirce preferia a expressão “Realidade” de Deus à “existência” de Deus, evitando equipará-lo a tudo o que cai em nosso campo perceptivo. Tratar-se-ia de uma “presentidade” absoluta de Deus, uma Realidade independentemente de indivíduos que a captem como “real” (como, aliás, ocorre, analogamente, com um elemento químico ainda não descoberto e que, entretanto, não pode ser considerado não-real; ele é real, mas não determinado perceptivamente).

No seu artigo sobre o Argumento negligenciado, Peirce apresenta Deus, de saída, como o Ens Necessarium (o Ente Necessário), pois, no seu dizer, “a palavra ‘Deus’, escrita assim, com maiúscula (…), é o nome próprio definível, significando Ens Necessarium. Segundo minha crença, Deus é Realmente criador (…)” (CP 6, 452).

Esse trecho permite uma correlação direta do pensamento de Peirce com o conhecido argumento ontológico de Anselmo de Cantuária (1033-1109). É notória a convergência entre os dois autores quando se pensa que a serena meditação sobre a idéia de Deus pode conduzir, com certeza, à conclusão do Ser que deve ser real. A diferença estaria em que, para Peirce, o argumento é de ordem experiencial, de maneira que a realidade de Deus é pragmaticamente indubitável, e não uma conclusão dedutiva. Trata-se de uma experiência viva… [+]

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