“Um Argumento Negligenciado para a Realidade de Deus” – Charles S. PEIRCE

Cognitio: Revista de Filosofia, PUC-SP, São Paulo, v. 4, n. 1, p. 98-133, jan.-jun. 2003

I [452] A palavra “Deus”, assim “em maiúscula” (como nós americanos dizemos), é o nome próprio definível, significando Ens necessarium : segundo minha crença, Realmente criador de todos os três Universos de Experiência.

Algumas palavras deverão aqui dentro ser escritas em maiúscula quando usadas, não segundo o vernáculo, mas como termos definidos. Assim, uma “idéia” é a substância de um pensamento ou fantasia unitários atuais; mas “Idéia”, – mais próxima das idéias de Platão de ίχέ [idea], – denota tudo cujo Ser consista em sua mera capacidade de ser completamente representado, sem considerar a faculdade ou a impotência de qualquer pessoa para representá-la.

[453] “Real” [Real] é uma palavra inventada no século XIII para significar ter Propriedades, isto é, ter características suficientes para identificar seu sujeito, e possuí-las quando forem ou não a ele atribuídas, de qualquer modo, por qualquer homem singular ou por qualquer grupo de homens. Assim, a substância de um sonho não é Real, já que, simplesmente em [o fato de] que um sonhador assim o sonhou, ele foi tal como foi; mas o fato do sonho é Real, se ele foi sonhado; uma vez que seja assim, sua data, o nome do sonhador etc., formam um conjunto de circunstâncias suficientes para distinguílo de todos os outros eventos; e estas pertencem a ele, isto é, seriam verdadeiras se predicadas dele, se A, B ou C Atualmente as assegurem ou não. O “Atual” é aquilo que é encontrado no passado, presente ou futuro.

[454] Uma “Experiência” é um efeito consciente brutalmente produzido que contribui para um hábito autocontrolado, por deliberação, e assim tão satisfatório, de modo que não seja destrutível por nenhum exercício positivo de vigor interno. Uso a palavra “autocontrolado” para “controlado pelo si próprio do pensador” [controlled by the thinker’s self], e não para “descontrolado” [uncontrolled], exceto em seu próprio autodesenvolvimento, isto é, automático, tal como o Professor J. M. Baldwin usa a palavra.
Tome-se por ilustração a sensação sofrida por uma criança que coloque seu dedo indicador em uma chama, com a aquisição de um hábito de manter todos os seus membros longe de todas as chamas. Uma compulsão “Bruta” é aquela cuja eficácia imediata de maneira alguma consista na conformidade à regra ou à razão.

[455] Dos três Universos de Experiência familiares a todos nós, o primeiro compreende meras Idéias, aqueles nadas aéreos aos quais a mente do poeta, do puro matemático ou outro qualquer poderia dar habitação local e um nome dentro dessa mente. A própria nadidade airosa [airy-nothingness] delas, o fato de seu Ser consistir na mera capacidade de ser pensado, não em serem pensadas Atualmente por alguém, preserva a sua Realidade. O segundo Universo é aquele da Atualidade Bruta de coisas e fatos. Confio que seu Ser consiste em reações contra forças Brutas, não obstante objeções temíveis até que sejam minuciosa e suficientemente examinados. O terceiro Universo compreende tudo cujo Ser consista no poder ativo para estabelecer conexões entre diferentes objetos, especialmente entre objetos em Universos diferentes. Assim é tudo o que é essencialmente um Signo, – não o mero corpo do Signo, que não é essencialmente assim, mas, por assim dizer, a Alma do Signo, que tem seu ser em seu poder de servir como intermediário entre seu Objeto e uma Mente. Assim, também, é uma consciência viva, e assim a vida, o poder de crescimento de uma planta. Assim é uma instituição viva, – um periódico diário, uma grande fortuna, um “movimento” social.

[456] Um “Argumento” é qualquer processo de pensamento razoavelmente tendente a produzir uma crença definida. Uma “Argumentação” é um Argumento procedente de premissas precisamente formuladas.

[457] Se Deus Realmente for, e for benigno, então, em vista da verdade geralmente aceita de que, se a religião, fora ela, não obstante, provada [were it but proved], [ela] seria um bem sobrepujando a todos os outros, deveríamos naturalmente esperar que houvesse algum Argumento para a Sua Realidade que devesse ser óbvio para todas as mentes, altas e baixas da mesma maneira, as quais deveriam sinceramente se empenhar para encontrar a verdade da matéria, e, por conseguinte, de que este Argumento deveria apresentar sua conclusão não como uma proposição de teologia metafísica, mas em uma forma diretamente aplicável à conduta da vida, e plena de nutrição para o mais alto crescimento do homem. Aquilo a que me referirei como o A. N. – o Argumento Negligenciado – parece-me preencher melhor essa condição, e eu não deveria me admirar se a maioria daqueles cujas próprias reflexões segaram a crença em Deus devesse abençoar a radiância do A. N. por aquela riqueza. Sua persuasividade é não menos do que extraordinária; simultaneamente, não é desconhecido de ninguém. Todavia, de todos aqueles teólogos (dentro da minha pouca amplitude de leitura) que, com assiduidade louvável, amontoam pouco a pouco, juntas, todas as razões sólidas que possam achar ou confeccionar para provar a primeira proposição da teologia, poucos mencionam esta, e estes, muito brevemente. Eles provavelmente compartilham daquelas noções correntes de lógica que
não reconhecem outros Argumentos além de Argumentações… [PDF]

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