Cioran, Dalí e “o livro mais caro do mundo”

Em entrevista ao Le Point (14/02/2003), Peter Sloterdijk afirmou que Cioran foi “o último verdadeiro cínico de nossa época”, tendo levado uma “vida monástica informal. Mas ser o monge de um desespero privado custa caro, pois você está sendo o tempo todo confrontando por refutações de sua escolha, à prova de que a felicidade não está tão longe assim, tão transcendente.”

O “monge secular de um desespero privado” afirmou numa entrevista, com seu típico humor romeno: “Sou o homem mais desocupado de Paris. Só uma puta sem clientes é mais ociosa do que eu.” (Entretiens) Mas é preciso desmitificar certas lendas construídas em torno do escritor romeno de expressão francesa, e desconstruir certo preconceito burguês segundo o qual só autores de bestsellers conseguem viver de literatura, ao passo que aqueles fadados à “de penumbra”, como seria o caso de Cioran, estes não passam de pobres-diabos e mortos de fome, como o personagem kafkiano, “forçados da pena” que precisariam parasitar o mundo para sobreviver.

Apresenta-se aqui uma obra colaborativa, provavelmente desconhecida da maioria dos leitores e estudiosos de Cioran: um projeto megalomaníaco escrito a 7 mãos e ilustrado por outras 7. A obra, uma releitura do livro do Apocalipse de João, foi exposta ao público em 1961 e anunciada no Jornal do Brasil (28/03/1961) como “o livro mais caro do mundo” (sic).

Este é apenas um de tantos trabalhos feitos a pedido, sob encomenda, que Cioran realizou por encomenda, não apenas de Joseph Foret como de outros editores ou mesmo amigos escritores, dentro e fora da França (como Mario Andrea Rigoni, especialista em Leopardi, para cujo livro Cioran escreveu um prefácio), sem falar em muitos de seus ensaios regularmente publicados na Nouvelle Revue Française, a pedido de Jean Paulhan.

Apesar da pose de escritor de penumbra, maldito e fracassado, Cioran se tornou um escritor francês de renome internacional, editado pela prestigiada Gallimard, para quem a escrita – não só de seus próprios livros – era uma profissão, um ofício, um ganha-pão, de modo que ele encontrou uma maneira útil (remunerada) de exercer sua paixão pela inutilidade.

• O texto “Un nihiliste au Panthéon”, de Frederic Schiffter, desapareceu da Internet.
• SLOTERDIJK, Peter. “Le scandaleux – Entretien avec Elisabeth Lévy”, Le Point, 14/02/2003. Disponível em: http://1libertaire.free.fr/sloterdijk04.html
• Inéditos de Cioran: “Retrato do homem civilizado” – https://youtu.be/kWuAbfDfMSc
• CIORAN, E.M. “Urgência do pior” (Urgence du pire), Écartèlement. Paris: Gallimard, 1979. In: (n.t.) Revista Literária em Tradução, no. 9, novembro de 2014. Tradução de Luiz Cláudio Gonçalves e Rodrigo Inácio Ribeiro Sá Menezes. Disponível em: https://portalcioranbr.wordpress.com/2014/11/01/urgencia-do-pior/

Música: “Cético”, de Luiz Caldas


Ernst Jünger & Salvador Dalí: O Apocalipse de Joseph Foret

O Apocalipse de São João é um livro único concebido em 1959 pelo editor Joseph Foret, com a colaboração de 7 pintores/ilustradores plásticos e 7 escritores, dentre os quais Emil Cioran. Foi considerado (e anunciado no Jornal do Brasil) como “o livro mais caro do mundo”.

A peça foi produzida ao longo de 3 anos, em 150 folhas de pergaminho, cobertas por uma capa de bronze, decorada a ouro e pedras preciosas, pesando 150 kg. O peso total da obra é 210 kg.

São 3 ilustrações por artista, representando as diferentes tendências da arte moderna: Salvador Dalí, Mathieu Mathieu, Bernard Buffet, Leonor Fini, Léonard Foujita, Pierre- Yves Tremois, Ossip Zadkine. 7 escritores de estilos e áreas diversas colaboraram com comentários, meditações e reflexões acerca do Apocalipse de São João: Jean Cocteau, Jean Rostand, Daniel-Rops, Jean Guitton, Emil Cioran, Jean Giono and Ernst Jünger.

Os textos são ilustrados com gravuras. A capa de bronze foi produzida pelo próprio Dalí. Curiosidade: um dos escritores que participaram do projeto, Daniel-Rops, havia sido jurado do prêmio Rivarol, entregue, em 1950, ao Précis de Décomposition. Daniel-Rops não apreciou o texto e foi contrário a conceder o prêmio ao autor romeno. Antes mesmo de o Précis ser publicado pela Gallimard, no segundo semestre de 1949, ele já havia escrito uma crítica ao livro, traduzida e publicada, no mesmo ano, no jornal carioca A Manhã, em 22 de maio de 1949, com o título: “Irradiação da língua francesa“.

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