“Ditos & Contraditos”: Aforismos de Karl KRAUS

Apresentação

Para fazer uma excelente sátira, basta
dizer a maior parte das coisas como elas são.
Karl Kraus, Hüben und Drüben
(Do lado de cá e do lado de lá)

Karl Kraus não foi apenas o maior autor satírico de língua alemã do século XX, mas chegou a ser considerado um dos maiores satiristas de todos os tempos, digno de figurar — no entender de outro grande escritor, Elias Canetti — ao lado dos nomes de Aristófanes, Juvenal, Quevedo, Swift e Gogol. Sua obra é vasta e multifacetada: milhares de páginas de ensaios, aforismos, poemas, peças teatrais e adaptações, cujas primeiras versões foram em boa medida publicadas no jornal Die Fackel (A tocha), que o escritor fundou em 1899 e passou a redigir sozinho a partir de 1911 até poucos meses antes de sua morte, em 1936.

Kraus nasceu na cidade de Jičin, na Boêmia, em 1874; três anos depois, a família, cujo pai fizera fortuna no ramo da fabricação de papel, mudou-se para Viena, onde Kraus passaria toda a sua vida. De início, estudou direito e, a partir de 1894, contrariando a vontade paterna, filosofia. Entre 1892 e 1899 escreveu artigos para vários jornais, apartando-se bruscamente do meio literário e jornalístico de que fazia parte para fundar seu próprio jornal. Sobre esse momento, Kraus diria anos depois num aforismo: “Logo se completarão dez anos que não recobro mais a consciência. A última vez que a recobrei, fundei um jornal polêmico”.

A primeira obra de Kraus publicada em forma de livro foi a coletânea de ensaios Sittlichkeit und Kriminalität (Moralidade e criminalidade), de 1908, em que denunciava sobretudo os abusos cometidos pelo Estado nos processos envolvendo os chamados crimes sexuais, como adultério, pederastia e proxenetismo. Num dos ensaios do livro, Eros und Themis (Eros e Têmis), o autor afirma, por exemplo, que em tais processos se liam cartas de amor em audiência secreta — tão secreta que os cães de caça da opinião pública conseguiam abocanhar os nacos mais picantes… Essa denúncia receberia expressão aforística numa obra posterior: “O escândalo começa quando a polícia lhe dá um fim”.

O autor não considerava essa coletânea de ensaios uma mera reprodução de textos já publicados em Die Fackel, mas uma obra completamente nova, pois, segundo ele, os ensaios em que estava baseada foram inteiramente reelaborados quase linha por linha, procurando conservar aquilo que, na condição de valor duradouro, pôde ser salvo das garras dos interesses do dia. Nesse processo de “eternizar o dia”, o polemista se contrapunha de maneira evidente ao jornalismo de sua época, que, no seu entender, “jornalizava a eternidade”.

Esse processo é ainda mais evidente em sua obra seguinte, Sprüche und Widersprüche (Ditos e contraditos, de 1909; literalmente: Ditos e contradições), a primeira das três coletâneas de aforismos que publicou. Se nos ensaios ainda havia referências claras a fatos e pessoas, nos aforismos a mordacidade de Kraus se volta em especial contra estados de coisas — a vida em sociedade, a situação da cultura, a petrificação da língua sob a forma de chavões — e contra tipos: o jornalista, o político, o esteta, o folhetinista, o caixeiro, o filisteu e outros mais; raros são os nomes e raros são os fatos do dia.

É essa condensação extrema que confere ao aforismo as arestas cortantes que inevitavelmente ferem o leitor. Exprimindo o que à primeira vista muitas vezes parece ser uma generalização abusiva, o aforismo requer reflexão; ele desestabiliza as certezas cotidianas cristalizadas em frases feitas e, à luz de seu brilho repentino, apresenta aspectos da realidade até então ignorados. Talvez também valha aqui uma ideia de outro mestre do gênero, Nietzsche, que afirmou no prefácio de Zur Genealogie der Moral (A genealogia da moral): “Um aforismo, devidamente cunhado e moldado, ainda não foi ‘decifrado’ pelo fato de ser lido; ao contrário, é só então que deve começar a sua interpretação, para a qual uma arte da interpretação se faz necessária”.

Parece ser precisamente isso que Kraus expressa numa sentença de sua segunda coletânea aforística, Pro domo et mundo (“Em defesa dos meus interesses e dos interesses do mundo”), de 1912: “O aforismo requer o fôlego mais longo”. E não só o fôlego do autor para redigi-lo, mas também o do leitor para lê-lo — e interpretá-lo… Daí também a exigência, ainda da primeira coletânea: “Meus trabalhos devem ser lidos duas vezes para serem bem compreendidos. Mas tampouco me oponho a que sejam lidos três vezes. Prefiro, porém, que não sejam lidos do que o sejam apenas uma vez. Não pretendo me responsabilizar pelas congestões de um imbecil que não tem tempo.”

No intervalo entre essas duas coletâneas de aforismos, em 1910, Kraus inaugurou uma terceira frente de batalha na luta contra o seu tempo: além de redigir um jornal e publicar livros, começou a fazer leituras públicas de seus textos. No segundo volume de sua autobiografia, Die Fackel im Ohr (A tocha no ouvido, publicado no Brasil como Uma luz em meu ouvido), Elias Canetti nos dá um vivo retrato dessas conferências. Em 1924, quando pela primeira vez assistiu a uma delas, o satirista já tinha um público cativo que o idolatrava com veneração incondicional; mais do que tudo, chamou inicialmente a atenção de Canetti o comportamento de massa desse público, sua reação uniforme aos ditos e vereditos que emanavam de uma instância que parecia “pressupor uma lei intocável, estabelecida e absolutamente segura”, para citar as palavras de outro texto de Canetti (o ensaio Karl Kraus, escola da resistência, incluído na coletânea A consciência das palavras). Aliás, esse aspecto jurídico, por assim dizer, também foi observado com precisão por Walter Benjamin em seus Ästhetische Fragmente (Fragmentos estéticos): “Nada se compreende desse homem enquanto não se reconhece que tudo, necessária e absolutamente tudo — a língua e as coisas — se passa para ele na esfera do direito”. Ou ainda: “Em torno dele, os processos se acumulam. Não aqueles que ele precisa conduzir nos tribunais de Viena, mas sim aqueles cujo tribunal é Die Fackel.”

No entanto, a despeito da agressividade, da violência verbal e da verdadeira fúria assassina com que perseguia seus adversários (sobretudo jornalistas, políticos e figuras prestigiadas do meio cultural vienense), Kraus era pacifista. O que hoje pode parecer natural, nada tinha de óbvio nos tempos que precederam a Primeira Guerra. Em meio ao entusiasmo belicista generalizado, Kraus foi a voz dissonante que alertou para o perigo de confundir patriotismo com interesses comerciais. Na sua terceira coletânea de aforismos, Nachts (De noite), concluída em 1916, mas só publicada em 1919, ele afirma: “Há lugares em que pelo menos se deixam os ideais em paz quando a exportação corre perigo, onde se fala tão honestamente dos negócios que eles não seriam chamados de pátria e em que por precaução se renuncia a ter uma palavra para ela. Nós, idealistas da exportação, chamamos tal povo de ‘nação de negócios’.”

O repúdio de Kraus à guerra, contudo, alcançou sua expressão mais veemente na gigantesca peça Die letzten Tage der Menschheit (Os últimos dias da humanidade). Renunciando às formas convencionais — não há herói, não há trama e, dada a sua extensão, a peça não é encenável —, seu conteúdo, nas palavras do prólogo do autor, é “irreal, inimaginável, impensável, inacessível a qualquer dos sentidos despertos, a qualquer lembrança, um conteúdo apenas conservado num sonho sangrento, uma vez que figuras de opereta representavam a tragédia da humanidade”. E ainda: “Os fatos mais improváveis de que aqui se dá notícia realmente aconteceram; eu retratei o que outros apenas fizeram. Os diálogos mais improváveis aqui travados foram pronunciados literalmente; as invenções mais chocantes são citações.” Citações, sobretudo, da imprensa da época, que Kraus julgava não ser apenas uma instigadora da guerra, mas a responsável por ela.

Mesmo os últimos dias da humanidade, porém, não foram os últimos; menos de uma década e meia após o fim da guerra, Hitler chegaria ao poder. A exemplo do que ocorrera depois de declarada a Primeira Guerra Mundial, Die Fackel deixou de circular durante vários meses depois que Hitler foi nomeado chanceler, em janeiro de 1933. A razão: Kraus gestava outra obra, o monumental ensaio Dritte Walpurgisnacht (Terceira noite de Valpúrgis), no qual, invocando o auxílio do Fausto de Goethe — o título é uma alusão a duas cenas da tragédia —, tentou apreender o fato incomensurável da chegada dos nazistas ao poder. A famosa frase de abertura do ensaio é característica da perplexidade do satirista: “Nada me ocorre acerca de Hitler”. Tal perplexidade, no entanto, é apenas retórica, pois Kraus tinha noção clara do que estava acontecendo e das conclusões a tirar desses fatos: já em fevereiro de 1933, foram abertos os primeiros campos de concentração; notícias de maus-tratos infligidos a prisioneiros eram divulgadas abertamente; políticos se gabavam sem constrangimento dos milhares de detentos em prisão preventiva nos seus estados; intelectuais como Gottfried Benn e Martin Heidegger manifestavam publicamente suas adesões ao regime; Hitler e seus asseclas não faziam segredo algum dos planos expansionistas de criar uma Grande Alemanha.

Embora só tenha sido publicado na íntegra postumamente, em 1952, trechos desse ensaio chegaram a ser publicados em Die Fackel. Mais uma vez, Kraus foi uma voz dissonante; mais uma vez, tinha razão ao alertar para o pior. Aliás, num aforismo escrito com clareza profética ainda durante a Primeira Guerra Mundial, ele já afirmara: “Não, a alma não fica com cicatrizes. A bala entrará por um ouvido da humanidade e sairá pelo outro.”

Algumas palavras ainda sobre a tradução. Os critérios para a seleção dos aforismos ora traduzidos foram basicamente dois: percuciência e traduzibilidade. Embora isso signifique dizer que quase sempre privilegiamos os aforismos mais breves — os mais afiados — e aqueles que não exigissem longas notas de rodapé explicando tudo o que fosse perdido na tradução, ainda assim a presente coletânea traz um bom número de aforismos longos, quase ensaios, e outro bom tanto de aforismos em que só por muito pouco não se perderam as ideias do original (ou aquilo que entendemos que sejam essas ideias…). Dessa forma — e desafiando o implacável juízo do nosso autor sobre a tradução: “Uma obra da língua traduzida em outra língua: alguém que atravessa a fronteira sem sua pele e do outro lado veste o traje típico do país” —, buscamos apresentar um panorama o mais representativo possível da criação aforística de Kraus.

Renato Zwick


A moral, o cristianismo

Quando a natureza quer estar a salvo de perseguições, trata de se refugiar na imundície.

Um mendigo foi condenado por estar sentado num banco e “olhar tristemente”. Nesta ordem do mundo, os homens de olhar triste e as mulheres de olhar alegre se tornam suspeitos. Em todo caso, essa ordem prefere os mendigos às mulheres de vida alegre. Pois as mulheres de vida alegre são aleijões ilegítimos que tiram vantagem do defeito físico da beleza.

O erotismo é a superação de obstáculos. O obstáculo mais sedutor e mais popular é a moral.

Dizemos “amante” e não vemos mais a altura do páthos da qual essa palavra desceu até as planícies da ironia — muito abaixo da respeitada condição intermediária das mulheres que não amam. Quer o espírito da língua que a amante seja uma decaída. Mas se mulheres que amam fossem chamadas de “elevadas”, nossa cultura logo também envolveria essa palavra com os tentáculos do escárnio.

A virtude e o vício são aparentados como o carvão e o diamante.

Uma prostituição moralmente aceita se baseia no princípio da monogamia.


O homem e o seu próximo

O super-homem é um ideal prematuro que pressupõe o homem.

O cão é fiel, não há dúvida. Mas será por isso que devemos tomá-lo como exemplo? Afinal, ele é fiel ao homem e não ao cão.

A honra é o apêndice do organismo psíquico. Sua função é desconhecida, mas pode provocar inflamações. Nas pessoas inclinadas a se sentirem ofendidas, devemos extirpá-la sem receio.

A estupidez também possui honra em suas veias, e inclusive se defende do escárnio com maior energia do que a baixeza se defende da censura. Pois esta sabe que a crítica tem razão; aquela, porém, se recusa a acreditar.

Com que soberania um imbecil trata o tempo! Ele simplesmente o mata. E o tempo tolera isso. Pois nunca ouvimos falar que o tempo tenha matado um imbecil.

Ouvi um alemão ligeiramente bêbado gritar as seguintes palavras atrás de uma garota que dobrou a esquina, declamando-as humoristicamente: “Lá vai ela, a vadiazinha!”. Não se pode supor que algum dia se aprove uma lei que permita abater a tiros os alemães que tenham provado com uma só frase a sua completa inutilidade neste planeta.

A religião, a moral e o patriotismo são sentimentos que só se manifestam quando feridos. Quando se diz de alguém que se ofende facilmente que ele “gosta” de se ofender, tal expressão está correta. Esses sentimentos nada amam tanto quanto serem magoados, e se revigoram a valer na queixa contra ateus, amorais e apátridas. Tirar o chapéu diante do ostensório não é de longe uma satisfação tão grande quanto arrancá-lo da cabeça daqueles que têm outra crença ou que são míopes.

Em caso de igual estupidez, importa a diferença de volume corporal. Um imbecil não deveria ocupar espaço demais.

A vida em família é uma invasão da vida privada.

Mesmo um homem decente, desde que isso nunca seja descoberto, pode conseguir um nome respeitado hoje em dia.

Há homens que conseguem unir as vantagens do mundo com os benefícios de serem perseguidos.

Aquele suicídio foi cometido durante um acesso de clareza intelectual. Às vezes, as pessoas cheias de alegria de viver refletem; e em alguma delas poderia ter havido tantas vidas que ela sacrifica uma sem hesitação. O suicídio pode significar a sangria de uma natureza puro-sangue. Quem se limpa a boca dos deleites da vida tão calmamente a fim de fechá-la para sempre por certo se destaca de seus companheiros de mesa. Não me livro da suspeita, sobretudo, de que hoje alguém já deve ser um homem se a vida atual o derruba. Aquilo que tiver fogo e um ímpeto ligeiro, queima. Apenas homens sem medula e mulheres com cérebro estão à altura da ordem social.

Mas que amigo da vida em sociedade era aquele rei bávaro que se sentava sozinho no teatro! Quanto a mim, também atuaria.

A solidão seria um estado ideal se pudéssemos escolher que pessoas evitar.

O mundo é uma prisão em que é preferível a solitária.


Escrever e ler

Há duas espécies de escritores. Aqueles que são e aqueles que não são. Nos primeiros, a forma e o conteúdo se harmonizam como corpo e alma; nos segundos, a forma e o conteúdo se ajustam como a roupa sobre o corpo.

Que a palavra escrita seja a corporificação naturalmente necessária de um pensamento, e não o invólucro socialmente aceitável de uma opinião.

Quem emite opiniões não pode se deixar apanhar em contradição. Quem tem pensamentos também pensa entre as contradições.

As opiniões se reproduzem por divisão; os pensamentos, por brotação.

Um escritor que eterniza um fato cotidiano compromete apenas a atualidade. Porém, quem jornaliza a eternidade tem perspectiva de ser reconhecido nas altas rodas.

A linguagem é o material do artista literário; porém, ela não pertence só a ele, enquanto a cor pertence exclusivamente ao pintor. Por essa razão, as pessoas deveriam ser proibidas de falar. A linguagem de sinais basta perfeitamente para os pensamentos que têm para comunicar entre si. É permitido lambuzar nossas roupas sem cessar com tinta a óleo?

O jogo de palavras, desprezível como fim em si mesmo, pode ser o recurso mais nobre de uma intenção artística na medida em que serve para abreviar uma intuição espirituosa. Ele pode ser um epigrama de crítica social.

Meus trabalhos devem ser lidos duas vezes para serem bem compreendidos. Mas tampouco me oponho a que sejam lidos três vezes. Prefiro, porém, que não sejam lidos do que o sejam apenas uma vez. Não pretendo me responsabilizar pelas congestões de um imbecil que não tem tempo.

Devemos ler todos os escritores duas vezes, os bons e os ruins. Uns serão reconhecidos, e os outros, desmascarados.

Há escritores que já conseguem dizer em vinte páginas aquilo para o que às vezes preciso de até duas linhas.

De onde tiro tanto tempo para não ler tanta coisa?

O leitor admite de bom grado que o autor o deixe confuso com sua cultura geral. Qualquer pessoa fica impressionada porque não sabia como a ilha de Corfu se chama em albanês. Pois a partir de então ela sabe, e pode brilhar diante dos outros que ainda não sabem. A cultura geral é a única premissa que o público não leva a mal, e um autor que humilha o leitor nesse ponto tem a sua fama presente garantida. Mas ai daquele que pressupõe faculdades que não possam ser recuperadas ou cuja aplicação esteja ligada a incomodidades! Tudo bem que o autor saiba mais que o leitor; mas que ele tenha pensado mais não lhe será perdoado tão facilmente. O público não pode ser mais tolo. Ele é inclusive mais inteligente do que o autor culto, pois fica sabendo através de sua revista como a ilha de Corfu se chama em albanês, enquanto aquele teve de consultar uma enciclopédia primeiro.

Empregar palavras incomuns é um vício literário. Devemos colocar apenas dificuldades de pensamento no caminho do público.

A ironia sentimental é um cão que ladra para a Lua enquanto mija sobre sepulturas.

“Escrever bem” sem personalidade pode bastar para o jornalismo. Na pior das hipóteses, para a ciência. Jamais para a literatura.

Por que muitos escrevem? Porque não têm caráter suficiente para não escrever.

Há cabeças ocas rasas e profundas.

O propósito do jovem Jean Paul era “escrever livros para poder comprar livros”. O propósito de nossos jovens escritores é ganhar livros de presente para poder escrever livros.

Um cérebro criativo também diz por conta própria aquilo que outro disse antes dele. Em compensação, outro pode imitar pensamentos que apenas mais tarde ocorrerão a um cérebro criativo.

Pensamentos próprios não precisam ser sempre novos. Mas quem tem um pensamento novo, pode facilmente tomá-lo de outro.

Há verdades cuja descoberta pode demonstrar que não se tem espírito.

Temas jornalísticos: não importa o tamanho do alvo, mas a distância.

Uma verdade desprovida de arte acerca de um mal é um mal. Ela deve ser valiosa por si mesma. Assim ela reconcilia com o mal e com a dor de que haja males.

Contar a piada inventada por uma pessoa engenhosa é o mesmo que apanhar uma seta do chão. A citação não diz como foi disparada.

Muitas vezes é difícil escrever um aforismo quando se é capaz de fazê-lo. Muito mais fácil é escrever um aforismo quando não se é capaz de fazê-lo.

Estou sempre disposto a publicar aquilo que contei a um amigo sob o selo do mais profundo sigilo. Mas ele não deve espalhá-lo.

Um bom autor sempre receará que o público perceba quais foram os pensamentos que lhe ocorreram tarde demais. Mas quanto a isso, o público é muito mais indulgente do que se acredita, e também não percebe os pensamentos que aí estão.

Devemos escrever sempre como se escrevêssemos pela primeira e pela última vez. Dizer tanto como se fosse uma despedida, e tão bem como se estivéssemos estreando.

Não domino a língua, mas a língua me domina completamente. Ela não é a criada de meus pensamentos. Vivo numa relação com ela em que concebo pensamentos, e ela pode fazer de mim o que bem quiser. Eu a obedeço à letra. Pois das letras salta o jovem pensamento ao meu encontro e dá forma retroativa à língua que o criou. Semelhante graça de gestar pensamentos me obriga a ficar de joelhos e transforma todo dispêndio de cuidado trêmulo em dever. A língua é uma senhora dos pensamentos; ela pode ser útil na casa de quem consegue inverter essa relação, mas lhe fecha o útero.

Que a palavra mais velha seja desconhecida nas redondezas, recém-nascida e inspire dúvidas sobre se vai viver. Então ela viverá. Ouvimos o coração da língua batendo.

KRAUS, Karl, Aforismos [Aphorismen: Sprüche und Widersprüche; Pro domo et mundo; Nachts] Seleção, tradução, glossário e apresentação de Renato Zwick. Porto Alegre: Arquipélago, 2010.

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