Divina Impotência e a “Carreira Triunfal do Mal”: Cioran e o Ateísmo Místico como Sabedoria da Insegurança

Cioran concorda com Arthur Schopenhauer em que a filosofia não tem o seu ponto de partida em um eventual maravilhamento, cheio de graça e júbilo, diante do “milagre” do Ser, da evidência de que “algo é“, “há seres e ser“, sempre em devir, devindo, fluindo, confluindo, em sua ininterrupta duração (la durée, segundo Bergson).

O Mal é o grande problema metafísico “que não quer calar”, a Grundfrage originalmente teológica (cristã) que será herdada pelo pensamento filosófico moderno, em formas mais ou menos secularizadas. Para não correr o risco de permanecer num puro flatus vocis, mais vale assinalar os efeitos e as consequências do que está em em jogo, mesmo no plano puramente humano, social, político e histórico, do que pretender definir e conceituar o Mal; “Se designar algo como mau é uma maneira de assinalar o fato de que aquilo abala nossa crença no mundo, é esse efeito, mais do que a causa”, que queremos, como Susan Neiman, examinar.
Como observa Franklin Leopoldo e Silva, o que caracteriza essencialmente a questão do Mal, no que diz respeito à nossa necessidade racional de compreendê-lo, enfrentá-lo e resolvê-lo, é a sua incompreensibilidade mesma. De onde a impotência, o fracasso da Razão em dar conta dele, em liquidá-lo de uma vez por todas; por uma perspectiva gnóstica, o Mal condiciona inclusive o funcionamento da Razão, a atividade do pensar, se admitirmos que o “espírito” (pneuma), na medida em que encontra-se como que misturado à razão (logos), nesse amplo complexo anímico denominado “alma” (psykhé), desde suas instâncias mais inferiores (vegetativa e apetitiva; irracionais, em todo caso) até as superiores (racional, intelectiva, noética), encontra-se submetido ao reino do “mau Demiurgo”, isto é, ao “mundo criado”, à Criação imperfeita do “Harpagão demiurgo, O Altíssimo avarento e segedista.” (Breviário) Ainda segundo Susan Neiman, no âmbito do pensamento filosófico moderno, poder-se-ia classificar os pensadores, no que concerne ao tema do Mal, em dois grupos antitéticos:

“Um deles, de Rousseau a Arendt, insiste em que a moralidade exige que tornemos o mal inteligível. O outro, de Voltaire a Jean Améry, insiste em que a moralidade exige que não o façamos.”

O mal no pensamento moderno, p. 20.

Fica a dúvida, que não será abordada aqui, sobre qual dos grupos seria o de Cioran. À primeira vista, seria de parecer que está junto de Voltaire e Jean Améry, longe de Rousseau e Arendt, mas a questão se complica, torna-se exponencialmente incerta, conforme nos aprofundamos na leitura dos seus textos. Tudo vai depender do critério da “inteligibilidade” em questão: se deve ser rigorosamente filosófico-sistemática, tão objetiva e “científica” (epistêmica) quanto possível, quase como uma Matemática do Mal, ou se — e aqui poderia entrar Cioran — metáforas, alegorias, mitos, e todo um leque de recursos poéticos proporcionados pela linguagem, não filosófico-conceitual, também se enquadrariam no critério de inteligibilidade admitido. Ademais, não se pode deixar de reconhecer que pensamento cioraniano parece esbarrar logo na suposição de Susan Neiman, no axioma de que é próprio do Mal, no tocante aos seus efeitos, abalar nossas crenças e nossa confiança no mundo. O autor romeno amiúde dá a entender o contrário: o Mal é o que nos liga ao mundo, o que nos faz tomá-lo pelo que ele não é, esperar dele o que nunca poderá nos dar; “mundo” não comunica, não explica, não revela, não resolve nada… Por uma perspectiva gnóstica, Mal e Mundo conformam um binômio muito desanimador, se não desesperador, a equação (e a unidade negativa): (o) “Mundo” = (o) “Mal” (Mal-Mundo).

Kant esperou até a velhice para dar-se conta dos aspectos sombrios da existência e assinalar “a falência de toda teodiceia racional”.
Outros, mais afortunados, compreendem-no antes mesmo de começar a filosofar.

Aveux et Anathèmes

É pela persistência lancinante do enigma-desafio do Mal na consciência, leia-se, da evidência do absurdo, do horror, da insânia e do sofrimento universal, do injustificável estado de coisas que faz deste mundo, segundo Voltaire (e então Schopenhauer), o pior dos mundos possíveis” (pois se fosse só um pouquinho pior, intrinsecamente, se dissolveria no ato), é pela natureza misteriosamente insuperável e, em última instância, perfeitamente ininteligível, da presença do Mal no mundo e na existência, de modo que, pelo Homem, o Mal entra no mundo e tende a contaminar todo o universo, todos os seres, até os objetos, enfim, por essa consciência desesperada do Insolúvel, que Cioran se declara, desde muito cedo (ainda criança), incapaz de ter fé, de crer em Deus. Que desgosto para Emilian, o seu pai, sacerdote cristão ortodoxo, que talvez sonhasse em ver o filho seguir, como ele, a carreira religiosa…

Um documento que atesta esse ateísmo resoluto, como posição filosófica lucidamente crítica em matéria de teodiceia, face à presença do Mal no mundo, é uma monografia acadêmica de Cioran, ainda estudante universitário em Bucareste, na qual Schopenhauer é citado ao final: “O teísmo como solução do problema teológico”. Entre crer em Deus, entre julgá-lo minimanente hábil ou digno de confiança, ou, por, outro lado, reconhecer a gravidade da nossa situação mundana e humana, a nossa condição de afogados no Mal, Cioran não hesita em optar pela segunda alternativa. Nem se trata de uma deliberação, mas antes uma questão instintiva, intuitiva, espontânea. É, apesar dos pesares, uma forma de “filantropia”, uma declaração de parti-pris pela humanidade sofredora, condenada, aprisionada neste Mal-Mundo ici bas (“aqui embaixo”), que está mais para um altar sacrificial em escala planetária. Cioran assume o papel de promotor-acusador no processo contra um Criador que, a julgar por ele, mal se distingue do Diabo, se não é que é “apenas a sua face visível.” (História e utopia)

Se este mundo é o produto de um Ser supremo, se foi fabricado por um “Criador”, um “Arquiteto” divino, é inevitável acusá-lo pela precariedade e pela confusão magistral da sua “obra”. “Mundo”: este lugar onde o Mal corre solto, sentindo-se mais à vontade, mais em casa, aqui, do que o Bem. Por isso a clássica interrogação, típica das teodiceias ocidentais, “Unde malum?“, se inverte, para os gnósticos, em “Unde bonum?

Se o crente rezasse a si mesmo, ou ao Diabo, ou simplesmente se não rezasse, alcançaria a mesma graça que aquela conquistada, supostamente, por intermédio divino, atendendo suas orações. No fundo, nem o santo saberia demonstrar que a sua oração não se dirige ao Diabo, ou a ninguém (Blake chamava Deus “Nobodaddy”). Todo “milagre” é autopoiético: é a potência divina do Ser, por assim dizer, autogerando-se, atualizando-se, em pleno devir, em um “prodígio” encarnado, em um favor extraordinário da “Natureza demente”, para falar como Cioran.

Apegar-se à Religião nos momentos difíceis, nesses momentos de crise do sentido, equivale recorrer à causa mesma de todos as crises de sentido, na esperança de que, com ela, enfrentaremos melhor a dificuldade, a crise da vez. Apenas mais lenha na fogueira… como lançar Cruzadas para matar heréticos após um terremoto, um maremoto, ou outro cataclisma natural. A perenidade da Religião é uma comprovação de que, no fundo, não queremos deixar de irritar as feridas, de que necessitamos regozijar em nossos males e padecimentos de toda natureza, e não queremos em hipótese alguma nos ver livres deles; Religião significa garantia e perpetuidade de nossa enfermidade.

O que “Deus” significa para Cioran, e por que lhe é indispensável, ao menos puramente no plano do pensamento e da linguagem, do logos? Porque, inversamente à significação e à função normalmente atribuídas pelos crentes e pelos sacerdotes cristãos, Deus é para ele “um desespero que começa onde terminam todos os outros”. O que outros veem como princípio de salvação, e fonte de esperança, a lucidez cioraniana enxerga como pretexto de queda e perdição, uma pletora negativa de desesperos deliciosos, de quedas inefáveis e inauditas… para o alto. E uma vez que, para o espírito infinitamente carente de abismos, o mundo deixa sempre a desejar, ele precisa inventar-se outros, maiores, mais profundos, mais convincentes… Avançar sempre a graus mais elevados de insegurança.

Se a humanidade se apegou por tanto tempo ao absoluto, é que ela não podia encontrar em si mesma um princípio de saúde. A transcendência possui virtudes curativas: sob qualquer disfarce que se apresente, um deus significa um passo em direção à cura. Até o diabo representa para nós um recurso mais eficaz do que os nossos semelhantes.

“L’arbre de vie”, La chute dans le temps

“Deus” é o luxo incerto de uma alma negativamente mística e poética, noturna; é a piscina sem fundo de um metafísico indolente do Desastre, cavada no quintal do seu maldito e abandonado “Eu”…

Bottomless pit [Poço sem fundo]: instalação artística de Anish Kapoor. Um visitante do museu, que passava ao lado desatentamente, caiu dentro do abismo criado pelo artista britânico.

“Deus”: um grande malentendido dos sentidos; no fundo, uma simples questão de olhar para dentro, ou, simplesmente, de olhar. “Considerando as coisas segundo a natureza, o homem foi feito para viver voltado ao exterior”, mas a verdade é que o homem não parece lá muito afeito à “natureza”, à simplicidade natural; com efeito, Cioran endossa, à sua maneira (heterodoxa), certa concepção antropológica do homem como homo duplex, um animal tragicamente marcado por uma dualidade constitutiva, um “ser” ontologicamente dual, dividido ou dilacerado entre realidades ou tendências que se excluem, a começar pela coexistência de corpo e alma (Cioran põe em questão, por uma perspectiva gnóstica “acosmista”, a assunção platônica de uma harmonia ideal entre corpo e alma, indivíduo e sociedade, a parte e o todo, etc.). Em todo caso:

Considerando as coisas segundo a natureza, o homem foi feito para viver voltado ao exterior. Se quiser olhar para si mesmo, deve fechar os olhos, renunciar a empreender, sair da corrente. O que se denomina “vida interior” é um fenômeno tardio que só foi possível por uma diminuição das nossas atividades vitais, sendo que a “alma” só pôde emergir e desaborchar à custa do bom funcionamento dos órgãos.

De l’inconvenient d’être né

E, contudo, o Homem é essencialmente um “fenômeno tardio”, no que concerne a toda essa dimensão interior que, não obstante inverificável, é parte integrante, para cada um, de sua experiência humana básica e ampliada, individual e socialmente compartilhada mediante a linguagem, os símbolos, a “cultura”. O Homem, Animal Enfermo: notadamente de autoconsciência, de saberes e opiniões, falsas ou verdadeiras, de nostalgias e ansiedades, de preocupações e afetações, de caprichos e carências, nada do que ocorre ao animal saudável, dir-se-ia “normal”, cultivar. “A saúde vem do ser” e, idealmente, se possível, “do ser tão puro quanto o vazio“, ou, por que não do Vazio mesmo; em hipótese alguma dos seres, pois “ninguém se cura dos seus males em contato com outros males.” (La chute dans le temps)

Empanturro-me de todas as drogas da solidão; as do mundo foram fracas demais para me fazer esquecê-lo. Tendo matado o profeta em mim, como terei ainda um lugar entre os homens?”

“O Antiprofeta”, Breviário de decomposição

Enfim, permanecemos sem saber direito o que fazer com a presença obsedante de tão fantástica, tão fantasmática figura nos textos de Cioran, desta palavrinha, “Deus”, com toda a milenar densidade e obscuridade semântica, que o autor romeno não parece preocupado em depurar, afim de apresentar-nos uma visão simples e única, e que seria, afinal, a sua visão, a versão final, a visão cioraniana de Deus, o Deus segundo Cioran… Há tantos deuses, tantas facetas de um mesmo deus, quanto há uma multiplicidade insana de tendências e temperamentos, doenças e dores, no princípio da mínima frase escrita por Cioran, em romeno e em francês. “Deus” é o fundamento sem fundo da sua criação filopoética, dessa “filosofía lírica” que tem “raízes tão profundas quanto as da poesia”; “Deus” é o abismo-fonte de suas metamorfoses negativas e criativas:

Estamos longe da literatura: mas longe só na aparência. Palavras apenas, pecados do Verbo. Recomendei-lhe a dignidade do cepticismo: e eis-me às voltas com o Absoluto. Técnica da contradição? Lembre-se antes do que dizia Flaubert: «Sou místico e não acredito em nada.» Vejo nessas palavras a divisa do nosso tempo, de um tempo infinitamente intenso, e sem substância. Existe uma volúpia que é realmente nossa: a do conflito enquanto tal. Espíritos convulsivos, fanáticos do improvável, despedaçados entre o dogma e a aporia, estamos tão prontos a saltar para Deus por raiva como cientes de que nele não poderíamos sequer vegetar.

“Cartas a propósito de certos impasses”, A Tentação de existir

SÁ MENEZES, R. I. R., “Divina impotência e a ‘Carreira triunfal do Mal’: Cioran e o ateísmo místico como sabedoria da insegurança”, Portal E.M. Cioran Brasil, 17/05/2021


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“Deus não criou nada que odeie tanto quanto este mundo, e tanto o odeia que uma vez criado nunca mais tornou a olhá-lo. Não sei quem foi o místico muçulmano que proferiu estas palavras, ignorarei para sempre o nome deste amigo.” Trata-se de um exercício de pensamento e de interpretação, no intuito de apresentar a obra de Cioran como a expressão de uma alma fundamentalmente lírica, musical, e que, não podendo realizar-se propriametne pela Música, busca exprimir em sua prosa o ritmo, a harmonia, a cadência, os timbres, a coloração, os altos e baixos, a pura duração da arte musical, esse “Infinito capturado no tempo”, segundo o escritor romeno de expressão francesa.

“Não se pode eludir a existência com explicações, só se pode suportá-la, amá-la ou odiá-la, adorá-la ou temê-la, nessa alternância de felicidade e de horror que exprime o ritmo mesmo do ser, suas oscilações, suas dissonâncias, suas veemências amargas ou alegres.”

Breviário de decomposição
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