A propósito de Nietzsche: Carta a Angèle (XII) – André GIDE

Revista Capivara. Tradução, apresentação e notas de André Martins

Apresentação

Entre 1898 e 1900, André Gide publicou na revista literária L’Ermitage uma série de cartas, reimpressas em 1903 como a mais extensa das seis partes da coletânea Prétextes (Ed. Mercure de France). As outras são “Duas conferências”, três ensaios “Em torno de M[aurice] Barrès”, seis ensaios sobre “Alguns livros”, quatro “Suplementos”, cada um dedicado a um escritor, e finalmente três textos “In memoriam”, igualmente monográficos. As doze Cartas a Angèle são, na prática, assim como o restante dos Prétextes, estudos de crítica literária, com a diferença de que nelas um missivista ficcional – que guarda algumas características em comum com André Gide – se dirige, de forma um tanto condescendente, a uma destinatária chamada Angèle. Angèle é também o nome de uma personagem de Paludes, um dos primeiros romances de Gide, cujo protagonista se chama Títiro, em alusão às Bucólicas de Virgílio. Uma comentadora de quem não há motivos para desconfiar – trata-se de uma ex-secretária de Gide – cuida que a Angèle de Paludes, “doce criatura conformista”, seria, por sua vez, “uma imagem dura e caricatural” de Madeleine Rondeaux, a prima em primeiro grau de Gide com quem teve um casamento nunca consumado. Béatrix Beck aventa a hipótese de que Gide teria escolhido o nome de Angèle por conta do “angelismo” de Madeleine e de sua condição de “virgo intacta”. Também entraria na escolha do nome ser Angèle uma versão “inacabada” de Angélique (“Angélica”), irrealizada em seu destino. Finalmente, sugere Beck, o nome convida a um trocadilho que implica uma acusação de frigidez: “Angèle, on gèle!” (em português, aplicando-se à versão “acabada” do nome, poderia ser algo como “Angélica? Ai, gélida!”) [1]. Aqui, traduzimos a última carta [2], provavelmente a mais famosa, que tem um lugar de destaque não apenas na obra de Gide, mas na fortuna crítica de seu objeto: Friedrich Nietzsche. Pode-se constatar a partir da carta, sem qualquer investigação mais minuciosa de seu contexto, que ela é apenas um de muitos documentos de um verdadeiro tsunami nietzschiano que então invadia a cultura francesa. Nietzsche era ainda vivo quando o texto que se vai ler apareceu pela primeira vez em L’Ermitage.


Considerando o especial interesse que esse texto poderá suscitar a quem estuda a obra de Nietzsche e sua recepção, indicou-se, nas notas, a procedência das citações da obra do filósofo. Diante da disponibilidade de diferentes traduções avulsas e coletâneas, por um lado e, por outro, da inexistência, por ora, de edição crítica completa da obra de Nietzsche em língua portuguesa, indicou-se, em português, apenas o título da obra e a seção, de modo que o trecho possa ser encontrado sem maiores dificuldades em qualquer exemplar à mão. Entre parênteses, está a chamada para a Kritische Studienausgabe (KSA) de Colli e Montinari (Ed. Walter de Gruyter), indicando volume e paginação (p. ex.: vol. 1, p. 50 = KSA 1.50). É bom lembrar que as traduções francesas de Nietzsche transcritas por Gide são de fidelidade um tanto duvidosa, e não são as de Henri Albert (responsável pelo primeiro esforço sistemático de tradução de Nietzsche na França), muito mais precisas do que as efetivamente citadas. São as traduções de Albert, aliás, que o missivista faz questão de elogiar como um remédio contra a “falsificação” da influência de Nietzsche que então tomava curso, segundo ele, na França. A presente tradução procura reproduzir versões usadas ou adaptadas por Gide, independentemente de sua qualidade. 


[*] O tradutor agradece, pelas sugestões e correções que recebeu na elaboração deste trabalho, a Maria Helena Franco Martins, Renata Sammer, Tito Marques Palmeiro, Pedro Motta e Antonio Kerstenetzky. A cuidadosa revisão de Clarisse Lyra melhorou significativamente o texto. A responsabilidade por eventuais erros cabe, é claro, exclusivamente ao tradutor.
[1] Beatrix Beck, Une signification cryptique de PaludesÉtudes Littéraires, Univ. de Laval., v. 2, n. 3, dez 1969, p. 305-6.
[2] Isto é, segundo a ordem em que são dispostas nos Prétextes. Em L’Ermitage, esta carta é a primeira entre as três “cartas a Angèle” publicadas no primeiro número de 1899. Nesse mesmo número foram publicadas cinco cartas de Angèle, essas, endereçadas simplesmente a um “querido amigo”, isto é, o autor ficcional das cartas de Gide. Essas cartas são atribuídas a “H. G.”, possivelmente Henri Ghéon, amigo íntimo de Gide e também colaborador assíduo de L’Ermitage. Elas não foram reimpressas nos Prétextes. A última carta a Angèle da autoria de Gide foi por ele incluída como a de número VIII na série reimpressa em livro, e apareceu originalmente no primeiro número de 1900 de L’Ermitage. As versões publicadas em livro sofreram pequenas alterações, em parte por causa dessa reorganização. Os números de L’Ermitage citados estão disponíveis para consulta em facsímile no portal Gallica da Biblioteca Nacional Francesa.
[3] Com uma exceção: há uma referência à quarta Consideração extemporânea, ensaio dividido em capítulos ou seções de várias páginas, de modo que pareceu oportuno indicar a paginação no exemplar do tradutor.


Querida Angèle,
 
Você receberá nesta mesma remessa dois grandes livros de Nietzsche. Você provavelmente não os vai ler; mas eu quero que você os tenha assim mesmo. É meu presentinho de janeiro.

E eu preferiria, é verdade, dos confins da Argélia, lhe enviar tâmaras, assim como eu fazia tão prazerosamente nos anos anteriores. Ai! Paris ainda me prende e, se eu pensasse nisso demasiado, a aproximação de um novo ano me entristeceria. – Pudera eu falar de areias e palmeiras! nisso eu me conheço, e melhor do que na filosofia… Mas estou longe, e aqui está Nietzsche, amiga querida; desculpe-me se estou sério.

É preciso que se agradeça ao Sr. Henri Albert, que nos dá enfim o nosso Nietzsche, e numa tradução muito boa. Fazia tanto tempo que a esperávamos! A impaciência já nos levava a investir, tateantes, sobre o texto – mas lemos tão mal os estrangeiros!

E talvez tenha valido a pena essa tradução ter tomado tanto tempo para chegar: graças a essa cruel lentidão, a influência de Nietzsche precedeu entre nós a aparição de sua obra; esta cai sobre terreno preparado; ela arriscaria, caso contrário, deixar de vingar; agora ela já não surpreende, ela confirma; o que ela ensina, sobretudo, é o seu esplêndido e entusiasmante vigor; mas ela quase não era mais indispensável; porque quase se pode dizer que a influência de Nietzsche importa mais do que a sua obra, ou mesmo que sua obra é só de influência.

Ainda mais, e apesar de tudo, a obra importa porque era a sua influência que estavam começando a falsificar. – É preciso, para bem compreender Nietzsche, experimentá-la, e só podem fazê-lo direito os cérebros preparados para ele há tempos por uma espécie de protestantismo ou jansenismo nativo; os cérebros aos quais nada causa tanto horror quanto o ceticismo, ou em quem o ceticismo, nova forma de crença que faz do amor o ódio, guarda todo o calor de uma fé. – Eis por que mentes tão engenhosas e flexíveis como a do Sr. de Wyzewa aí se enganaram: poucos estudos sobre Nietzsche (falo somente dos mais notáveis) traem Nietzsche tanto quanto o dele. Ele quis ver nele um pessimista: Nietzsche é antes de tudo um crente. Ele só soube ver em sua obra demolições e ruínas: elas estão lá, mas louvados sejam aqueles que nos permitem construir! Só arruínam aqueles que desencorajam e diminuem nossa crença na vida…:


Eu quero o homem mais orgulhoso, o mais vivo, o mais afirmativo; eu quero o mundo, e o quero COMO É, e quero mais dele, quero-o eternamente, e eu grito insaciavelmente: de novo! e não só para mim, mas para toda a peça, e para todo o espetáculo; e não só para todo o espetáculo, mas no fundo para mim, porque o espetáculo me é necessário – porque ele me faz necessário – porque eu lhe sou necessário – e porque eu o torno necessário. 

 
Sim, Nietzsche demole; ele mina, mas não é de jeito nenhum como um desanimado, é como um feroz; é nobremente, gloriosamente, sobre-humanamente, como um conquistador novo violenta coisas velhas. O fervor que aí deita, ele devolve a outros para construir. O horror do repouso, do conforto, de tudo quanto propõe à vida uma diminuição, um entorpecimento, um sono, é isso que o faz obliterar muralhas e abóbadas: Só se produz quando se é rico em antagonismos, ele diz; só se permanece jovem quando a alma não relaxa, não aspira ao repouso. Ele mina as obras exaustas e a partir delas não forma novas, ele – mas ele faz mais: ele forma operários. Ele demole para exigir mais deles; os encurrala… [+]

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