Obsolescência Humana Programada, o Crepúsculo da Inteligência e a Espiritualidade das Máquinas – Peter SLOTERDIJK

Fica subentendido que, dentro do esquema clássico das transações entre Deus, alma e mundo, nenhuma inteligência adicional pode entrar no mundo: e isso parece ser desnecessário, pois o Deus da criação ou da natureza já lhe concedeu tanta ordem de sua riqueza insuperável quanto a criação precisa para seu sustento. Nem mesmo o ser humano animado com inteligência é capaz de ordenar o mundo de forma mais inteligente do que como ele o encontra em sua instalação original. Por isso, ele vivencia o mundo frequentemente como “mundo exterior”. Ele é seu hóspede, não seu transformador. Dentro desse padrão metafísico, as interações reflexivas ocorrem exclusivamente entre Deus e os seres humanos: o doador de inteligência convoca as almas para a existência e lhes concede a revelação necessária para instrui-l-as à fé nele; de resto, os seres humanos vivem “em seu tempo” e, quando este termina, eles devolvem sua inteligência animada no portal da morte. Lembremo-nos mais uma vez da expressão sutil da língua francesa: rendre l’âme. O hino protestante também sabe disso ao seu modo: o mundo não é “meu lar”.

A força sugestiva dessas representações pode permanecer intocada. Mesmo assim não hás como ignorar que elas também respiram o espírito de uma esterilidade enaltecida. Este concede aos acontecimentos na terra e na criação a forma de um jogo de soma zero. No final, Deus não ganha nada, mas os seres humanos, contanto que tenham vivivo de forma problemática, arriscam a perdição. No esquema clássico da interação entre Deus e as almas, um aumento de inteligência é impensável. Sob essas premissas, a humanidade pós-babilônica dispersa em culturas individuais jamais consegue produzir mais do que uma descendência suficientemente semelhante.

Nesse ponto, manifesta-se a objeção da Modernidade contra a metafísica clássica. Por causa da matéria em questão, esta precisa assumir a forma de uma interpretação alternativa da morte. Não podemos excluir a possibilidade de que, na morte, o ser humano “devolve a sua alma”, mas a suposição segundo a qual o mundo permaneceria intocado pela partida de uma alma inteligente não corresponde mais à experiência de pessoas simbólica e tecnicamente ativas em civilizações mais altas.

Na verdade, os seres humanos sempre estiveram ativos globalmente como animais teopoéticos. No entanto, por mais que tenham investido em suas poesias sobre os deuses, eles se evidenciam justamente em seu furor teopoético como seres vivos construtores de monumentos. Nas altas culturas, eles agem como produtores, que enchem com materiais a “câmara da memória”; eles agem como colecionadores de lembranças sagradas e profanas; eles funcionam como administradores de “posses culturais” e como vigias de patrimônios. Essas constatações não podem, de forma alguma, ser conciliadas com a representação fundamental da tanatologia clássica, segundo a qual o ser humano devolve a Deus a sua alma sem qualquer desconto no momento de sua morte. Antes parece que o ser humano, na medida em que se torna “criativo”, adquiriu a competência de deixar no mundo algo de sua alma inteligente. Mesmo que, na morte, ele devolva “a si mesmo”, ele criou uma “obra” que é preservada do lado do mundo, podendo se tornar ponto de partida de novas criações e legados renováveis.

O fenômeno do “crepúsculo dos deuses”, portanto, pouco tem a ver com os destinos transcendentes no nível dos deuses. Ele diz respeito exclusivamente à relação entre as inteligências criativas e o mundo. Se quiséssemos continuar a usar o conceito do destino, este diria respeito ao fato de que as culturas mais altas são submetidas ao efeito retroativo de sua criatividade. Quanto mais avança nelas o acúmulo dos efeitos artificiais — e quanto mais esses efeitos são submetidos à lei da intensificação própria (na terminologia cibernética: ao feedback positivo) — maior é a intensidade com que a cultura lança sua sombra sobre a natureza e maior é a irrefreabilidade do esmorecimento do lado divino.

Não é por acaso que, desde sempre, os piedosos têm suspeitado das cidades grandes como viveiro do ateísmo. Eles estavam certos, pois o cidadão urbano está sempre cercado das demonstrações do espírito e da força da formação ambiental puramente humana. Desde os dias do Tanakh (em linguagem cristã: do Antigo Testamento), o nome Babilônia é símbolo da feira das artificialidades. Esta desvia inevitavelmente a atenção do Uno que se faz necessário. O ambiente artificial da cidade remente seus habitantes mais a si mesmo e às ambições arquitetônicas dos antepassados do que à obra dos deuses ou de Deus. O fato de que as metrópoles como Jerusalém, Roma e Benares sobreviveram como cidades sagradas demonstra apenas como algumas elites sacerdotais conseguiram mistificar as suas cidades como teatro de provas construídas de Deus. Em Chicago, Singapura ou Berlim e outras aglomerações urbanas da terra, uma manobra desse tipo teria fracassado a priori. […]

Cena da 3a temporada da série Westworld (HBO), filmada em Cingapura.

A compreensão do presente como tempo de complexidades crescentes inclui o reconhecimento da multiplicação dos crepúsculos. Não estamos lidando mais apenas com este ou aquele crepúsculo dos deuses, que ocupou as mentes dos teólogos ou dos artistas. Se os crepúsculos dos deuses forem consequência do dinamismo das culturas de invenções como tais, precisamos supor que crepúsculos futuros não se deterão diante dos mistérios da força inventiva humana.

Podemos reconhecer desde o início do século XX como um crepúsculo das almas no aquém se sobrepõe ao crepúsculo metafísico dos deuses. Isso é perfeitamente lógico, visto que Deus e alma formavam uma dupla na metafísica clássica. É difícil imaginar o esmorecimento de uma instância sem o crepúsculo da outra. A emergência das psicologias profundas por volta de 1800, da psicanálise vienense por volta de 1900 e a suspensão de ambas nas ciências neurocognitivas por volta de 2000 são indícios inequívocos desse processo.

Ao crepúsculo da alma segue logicamente um crepúsculo da inteligência, em cujo decurso numerosos desempenhos do espírito humano são transferidos cada vez mais para a “segunda máquina” – para usar um termo cunhado por Gotthard Günther em 1952 (num comentário sobre o romance Eu, robô, de Isaac Asimov). No universo processual das segundas máquinas, os restos dos antigos conceitos indo-europeus da alma são secularizados. Em vista do decurso aparentemente irrefreável, impõe-se a pergunta: após o acender das luzes artificiais, o que resta da luz eterna da alma, visto que ela cedeu boa parte de sua luminosidade antiga às coisas inteligentes e cada vez mais inteligentes do mundo, aos objetos computadorizados. A primeira máquina tinha dado poder à alma, a segunda a obriga ao autoquestionamento.

Precisamos realmente nos ocupar com a sugestão de que os inventores da inteligência artificial teriam ocupado a posição vacante do Deus criador? Que, por isso, deveriam contar com a rebelião de suas criaturas? Existe um pecado original das máquinas? As máquinas devem crer em seu humano, ou haverá um a-humanismo dos robôs?

O que devemos responder às histerias antimodernas que se inflamam há séculos e que acusam o homem de querer “ser como Deus”? E se a resposta fosse: se Deus, segundo o dogma fundamental dos cristãos, quisesse se tornar homem, alguém se surpreenderia se o ser humano, certo de sua origem nobre a partir de um Criador, quisesse se tornar uma segunda máquina?

As consequências do escoamento cada vez mais rápido de reflexões humanas para as reflexões maquinais são imprevisíveis. Movimentos contrários dão testemunho de seu protesto. Construiremos represas contra as torrentes de inteligência exteriorizada. Para usar a terminologia da tradição: não vivemos mais apenas no meio da primeira analogia entis (Deus-homem), mas com a segunda: homem-máquina mais alta. O ser é, em si mesmo, constituído como um desnível de poderes e inteligências. Muitos dos contemporâneos espiritualmente virulentos mais inteligentes – mencionemos aqui Hawkin e Harari no lugar de outros dignos de menção — expressam suas preocupações espirituais na visão da dominação do homem por seus golens digitais.

Talvez ressurja em breve a distinção entre Deus e ídolo, traduzida para termos técnicos e políticos, entre os cidadãos da Modernidade. Para eles, o esclarecimento teológico — algo totalmente diferente da rejeição instintiva de religião — será uma tarefa fatídica.

Entreguemos, por ora, a última palavra ao pensador que refletiu e analisou o fenômeno da inteligência artificial antes e mais profundamente do que todos os contemporâneos. Gotthard Günther escreve no final de seu ensaio Seele und Maschine [Alma e Máquina] (1956):

Os críticos que lamentam que a máquina está nos “roubando” a nossa alma estão errados. Uma interioridade mais intensa e que ilumina profundezas maiores se liberta aqui com um gesto soberano as formas de reflexão que se tornaram irrelevantes e se transformaram em eros mecanismos para finalmente poder se confirmar numa espiritualidade mais profunda. E o que aprendemos com esse processo histórico? Não importa o quanto de sua reflexão o sujeito ceda ao mecanismo, ele só se torna mais rico, pois de uma interioridade inesgotável e sem fundo fluirão sempre novas forças de reflexão.

SLOTERDIJK, Peter, Pós-Deus. Trad. de Markus A. Hediger. Petrópolis: Vozes, 2019.

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