Itinerarium Musicae in Delirium: “What You Don’t Know Is Frontier”, a música drone de ASVA

“Eu abuso da palavra Deus. Utilizo-a com frequência, demasiada frequência. Faço-o toda vez que toco um limite e preciso de uma palavra para designar o que vem depois. Prefiro Deus ao inconcebível.”

CIORAN, Aveux et anathèmes (1987)

ASVA é um projeto de música experimental criado nos EUA por G. Stuart Dahlquist, com uma formação rotativa de músicos que se alternam a cada álbum, cujo estilo é uma combinação de música drone e vertentes sombrias do heavy metal, de onde o gênero híbrido drone metal.

Que tipo de música é essa — drone — que leva o mesmo nome dos objetos voadores controlados? É um gênero minimalista de música experimental e ambiente que explora longos períodos (e grandes massas, blocos, paredes) de sons (produzidos por guitarras distorcidas e sintetizadores), notas ou grupos tonais sustenidos, produzindo as mais variadas atmosferas, paisagens e texturas sonoras. Parece antes a trilha incidental de um filme de suspense ou de terror, do que as estruturas e formas convencionais de composição musical a que estamos acostumados, com acordes, melodias, frases, refrão e outros recursos líricos que tornam a música popular contemporânea tão “antropomórfica” e,por isso mesmo, de fácil assimilação e consumo.

A música de ASVA não é para dançar, não estimula a extroversão e a agitação; em vez disso, a introversão e o insight, o debruçar-se sobre si, reflexão, contemplação sonora. Música “difícil”, em grande medida instrumental, sem canto nem letras, embora o instrumento humano por excelência que é a voz também se faça presente, sendo incluído em algumas faixas (sempre com um resultado de arrepiar).

Uma explicação possível para a coincidência entre o nome do gênero musical e o nome do objeto voador é que a música drone, particularmente a de ASVA, parece sobrevoar, pairar em pleno ar, flutuando, suscitando no ouvinte uma sensação etérea e inquietante de leveza e vertigem. As composições são longas faixas que chegam a ultrapassar 20 minutos de duração, num desenvolvimento nada convencional que muitos considerariam monótono ou mesmo inaudível; são como longas distâncias a percorrer em terra firme (pensemos no deserto) ou em alto-mar (imagine-se a imensidão do oceano por todos os lados, sem nenhuma terra à vista).

Aqui, o álbum What you don’t know is frontier, de 2008. Para além ou aquém da música que ele contém, o título em si é bastante significativo em alusão ao pensamento de Cioran: “O que você não conhece/sabe é fronteira” poderia ser um comentário à obsessão cioraniana por Deus, a julgar pela explicação que ele mesmo — pensador ateu, cético e niilista — oferece para o sentido em que costuma usar e abusar desta palavrinha tão desgastada: “Deus” significa para ele um “limite último”, “um interlocutor passageiro do qual se tem necessidade”, conforme responde a um entrevistador alemão (Fritz J. Raddatz).

Por fim, uma curiosidade: o nome vem do sânscrito, aśva, que significa “cavalo” e, mais propriamente,” cavalo de batalha”.

TRACKLIST:

1. What You Don’t Know Is Frontier 0:00
2. Christopher Columbus 15:56
3. A Game in Hell, Hard Work in Heaven 29:09
4. A Trap for Judges 45:06

Holly Johnson: Vocals
Trey Spruance: Baritone guitar
Milky Burgess: Guitars
G. Stuart Dahlquist / G. Subharmonium: Bass, Guitars
B.R.A.D.: Drums, Percussion, Vocals
Troy Swanson: Organ, Synthesizer

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