Salvador Dalí e a Antropologia da Excentricidade, segundo Sloterdijk

A julgar pela antropologia filosófica da excentricidade elaborada por Peter Sloterdijk, a partir dos estudos de Helmut Plessner, no início do século XX, Salvador Dalí não é o perfeito excêntrico por se comportar e agir de modo bizarro e nada convencional, contra os costumes, como uma exceção à regra. De acordo com a antropologia da excentricidade, o ser humano deixou de ser criatura divina (platonismo cristão) para tornar-se animal (Nietzsche) e, então, um animal “doente”, “enlouquecido”, “antinatural” e naturalmente “fora de si”, colocado “ao lado de si”, mas nunca em si mesmo, nunca concêntrico em relação a si: excêntrico, fora do centro, fora do eixo. Dalí é o perfeito excêntrico porque teria consumado o verdadeiro “telos” (propósito, fim último, se “telos” há) dos indivíduos da espécie humana, qual seja, atualizar e aprofundar sua tendência a uma singularidade tão singular que já não coincide com nada, nem consigo mesma. Aniquilar todo princípio de identidade e já não identificar-se com nada, tornar-se uma absoluta não-identidade, um nada idêntico a si mesmo. Quando a máscara se (con)funde com a pele, já não há “máscara” (mentira, falsidade), já não há “pele” (verdade, “essência”), apenas uma natural, espontânea e genuína impostura…


A antropologia filosófica, que começou a definir seu perfil a partir da década de 1920, exerceu um papel de destaque na neutralização da hipocrisia. Foi Helmuth Plessner que, mais do que qualquer outro, construiu umaplataforma para o aplainamento da crítica à hipocrisia ao contribuir a sua doutrina da “posicionalidade excêntrica”, apresentada desde 1928. Nela ouvimos, pela primeira vez, entretons como composições explícitas.

Como era comum na época, Plessner se baseou nos discursos sobre a diferença entre animal e ser humano. Nietzsche tinha definido o ser humano como o “animal não determinado” [das noch nicht festgestellte Tier1]. Plessner ousou agora o passo para a tese de que o ser humano era o ser vivo “colocado” ao lado dele mesmo. Enquanto os animais sempre permanecem numa concentricidade natural e assim permanecem abrigados num estar-consigo-mesmos imperdíveis em meio aos seus ambientes (mesmo que um animakl torturado também possa “enlouquecer”), o que caracteriza o ser humano é a excentricidade existencial. Isso não se refere a uma tendência para uma conduta estranha, a não ser no sentido de que a raça humana como tal sempre povoa um polo excêntrico do universo. Desde que começaram a enterrar seus mortos, a negociar com o além, a frequentar bailes e a refletir sobre números primos, “os seres humanos” são criaturas que ontologicamente se desviaram de seu rumo.

SLOTERDIJK, Peter, Pós-Deus. Trad. de Markus A. Hediger. Petrópolis: Vozes, 2019.


1 Tal como citado por Cioran, ipsis litteris, no original alemão, em “L’arbre de vie”, o primeiro ensaio de La chute dans le temps, citado aqui abaixo.

“Percebemos primeiro a anomalia do fato bruto de existir, e só depois a de nossa situação específica: o espanto de ser precede o espanto de ser humano. Contudo, a natureza insólita de nossa condição deveria constituir o fator principal de nossas perplexidades: é menos natural ser homem do que simplesmente ser. Isso nós percebemos instintivamente; de onde esse deleite toda vez que nos apartamos de nós mesmos para identificar-nos com o bem-aventurado sono dos objetos. Só somos realmente nós mesmos quando, diante de nós mesmos, não coincidimos com nada, nem mesmo com a nossa singularidade.”

CIORAN, “L’arbre de vie”, La chute dans le temps (1964)

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