“Você é o que você come”: Cioran e a gula livresca

Quem me curará da minha terrível Bildungstrieb1? Meu amor pelos livros, a necessidade que tenho de me ‘cultivar’, a sede de aprender, de colecionar, de saber, de acumular bagatelas sobre todas as coisas — responsabilizar a quem? Prefiro, por razões de comodidade, colocar esses defeitos na conta de minhas origens: oriundo de uma nação onde o analfabetismo era a realidade dominante, não sou eu, por minha curiosidade insaciável, um fenômeno de reação? Ou melhor, não devo pagar por todos meus ancestrais, aos olhos dos quais só existia um único livro, que chamavam o livro, ou seja, a Bíblia? É ao mesmo tempo agradável e humilhante pensar que, há não mais que algumas gerações, os meus eram selvagens, indígenas. Juridicamente, eram escravos, na obrigação de tudo ignorar; e eu me sinto na de tudo aprender: é por isso que leio tudo ao ponto de não ter o tempo necessário para as minhsa próprias elucubrações. Eu as negligencio para ver o que disseram os outros. O consumo de livros de que sou capaz só é igualado pelo de comida: de fato, tenho fome constantemente, e nada me satisfaz — nem comendo, nem lendo. Bulimia e abulia caminham juntas. Tenho necessidade de devorar para me sentir existir, para ser. Eu me lembro, quando era criança, de comer sozinho tanto quanto a família toda. Uma antiga necessidade antiga, pois, de me reconfortar pela comida, de encontrar certezas mediante um ato bestial, de escapar às minhas instabilidades, ao vazio e ao indefinido nos quais vivo por algo de preciso, de animalesco. Quando vejo um cão ou um porco se lançar sobre a comida, compreendo-os fraternalmente. E pensar que faz meses e meses que minhas leituras versam essencialmente sobre a renúncia, e que os livros de que mais gosto são os de filosofia hindu.

1 Bildungstrieb, em alemão, “vontade”, “ânsia”, “impulso” (Trieb) de “instrução”, “conhecimento”, “ilustração”, “erudição”, “formação humanística” (Bildung)

Qui me guérira de mon terrible « Bildungstrieb » ? Mon amour des livres, le besoin que j’ai de me « cultiver », la soif d’apprendre, d’emmagasiner, de savoir, d’accumuler des vétilles sur toutes choses — qui en rendre responsable? J’aime mieux, pour des raisons de commodité, mettre ces défauts sur le compte de mes origines: issu d’une nation où l’analphabétisme était la réalité dominante, par ma curiosité insatiable ne suis-je pas un phénomène de réaction? ou mieux, ne dois-je pas payer pour tous mes ancêtres aux yeux desquels un seul livre existait, ce qu’ils appelaient le livre, c’est-à-dire la Bible? Il est à la fois agréable et humiliant de penser qu’il y a quelques générations les miens étaient des sauvages, des indigènes. Juridiquement ils étaient esclaves, dans l’obligation d’ignorer tout; je me sens moi dans celle de tout apprendre : c’est pour cela que je lis tout au point que je n’ai plus le temps nécessaire à mes propres élucubrations. Je les néglige pour voir ce qu’ont dit les autres. La consommation de livres que je puis faire n’a d’égale que celle d’aliments : j’ai en effet constamment faim, et rien ne me rassasie — en mangeant ni en lisant. Boulimie et aboulie vont ensemble. J’ai besoin de dévorer pour me sentir exister, pour être. Je me rappelle qu’étant enfant, il m’arrivait parfois de manger à moi seul autant que toute la famille. Un besoin ancien donc de me rassurer par la nourriture, de trouver des certitudes par un acte bestial, d’échapper à mes balancements, au vague et à l’indéfini où je vis par quelque chose de précis, d’animalique. Quand je vois un chien ou un cochon se précipiter sur la nourriture, je le comprends fraternellement. Et dire que depuis des mois et des mois mes lectures portent essentiellement sur le renoncement, et que les livres que j’aime le mieux sont ceux de philosophie hindoue.

CIORAN, E.M., Cahiers : 1957-1972. Paris : Gallimard, 1997, p. 334. Trad. de Rodrigo Inácio R. Sá Menezes, Portal E.M. Cioran Brasil, 19/06/2021.

2 comentários em ““Você é o que você come”: Cioran e a gula livresca”

  1. “Du Bist, Was du Isst”, a frase que intitula ao texto, me parece de Ludwig Feuerbach com base na declaração “Der Mensch ist, was er isst” no contexto da Materialismusstreit, sobre as reações a publicação Der Kreislauf des Lebens de Jacob Moleschott.

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