Tédio como vazio de significado pessoal – Lars SVENDSEN

Beckett escolheu a distorção, isto é, a arte. A antítese que ele propõe entre isolamento honesto e sociabilidade desonesta e a inevitável falta de comunicação que resulta de ambas pode servir como definição de toda a sua obra. Como ele também diz: “Estamos sós. Não podemos conhecer e não podemos ser conhecidos.” Todo gesto extrovertido de união é vão. Mas temos também que continuar, na vã esperança de transgredir o próprio eu – que se desintegra cada vez mais.

Esta voz que fala, sabendo que mente, indiferente ao que diz, velha demais talvez e humilhada demais para algum dia dizer finalmente as palavras que a fariam cessar, sabendo-se inútil, vã, que não se ouve, atenta ao silêncio que rompe, por onde talvez lhe retorne um dia o longo e claro suspiro de advento e adeus, é ela uma voz? Não farei mais perguntas, não há mais perguntas, não as conheço mais; Ela sai de mim, me preenche, clama contra os muros, não é minha, não posso detê-la, não posso impedi-la de me despedaçar, torturando-me, atacando-me. Ela não é minha, não tenho nenhuma, não tenho voz e preciso falar, é apenas isso que sei, e é em torno disso que devo girar, sobre isto devo falar, com esta voz que não é minha…

“Tenho que falar, não tendo nada a dizer, apenas as palavras dos outros.” Uma preimssa básica nas obras de Beckett é que pronunciar uma palavra é pronunciar a palavra dos outros. Ou, em outro texto, a propósito da vida: “Palavras, palavras, minha vida nunca foi nada além de palavras.” Somos criados por palavras que não vêm de nós, e não temos escolha. Não podemos sequer simplesmente repetir as palavras dos outros, pois a cada repetição elas se distorcem e se distanciam cada vez mais de seu ponto de partida. É por isso que as citações nos textos de Beckett são frequentemente erradas: a linguagem não vale grande coisa nem para fazer citações.

Enquanto as palavras vierem, nada mudará, eis as velhas palavras ainda enunciadas. Falar, não existe senão isso, falar, esvaziar-se, aqui e sempre, só isso. Mas elas calam, é verdade, isso muda tudo, elas saem mal, mau, mau.

Todo significado consiste em cópias cada vez mais pálidas dos significados mais antigos. A única coisa certa é que “as palavras nos abandonam”. Durante a vida inteira as mesmas perguntas, as mesmas respostas.” Gosto das velhas perguntas, das velhas respostas, não há nada igual a elas!” É nisso que a obra de Beckett consiste: velhas perguntas e velhas respostas, quase nada mais. Esse é um tema muito conhecido, presente já na Bíblia, no Eclesiastes; mas, como Beckett diz em Malone morre: “As ideias se parecem tanto umas com as outras quando chegamos a conhecê-las!” Beckett não é, portanto, particularmente inovador sob esse aspecto. O elemento inovador nele seria o dar a entender que não crê em nenhuma das respostas, visto que elas não parecem funcionar. Como declara em Proust, “respiramos esse ar do verdadeiro paraíso, do único paraíso que não é o sonho de um louco, o paraíso que perdemos”.
Há uma relação entre o próprio Beckett e o artista louco de que Hamm fala em Fim de jogo:

Conheci um louco quee pensava que o fim do mundo havia chegado. Ele era pintor. Eu gostava muito dele. Costumava ir visitá-lo no asilo. Pegava-o pela mão e o arrastava até a janela. Veja! Ali! Todo aquele trigo crescendo! E ali! Olhe! As velas dos sardinheiros! Toda esta beleza! Ele puxava a mão e voltava para o seu canto. Horrorizado. Só tinha visto cinzas.

Beckett antecipa o fim do mundo, mas essa distopia também não é nada original.

Dizer é inventar. Errado, redondamente errado. Você não inventa nada, pensa que está inventando, pensa que está escapando, e está apenas gaguejando sua lição, os restos de uma lição aprendida e há muito esquecida.

Só o que foi dito existe. Afora o que é dito, nada existe.” Vivemos nas palavras, criados por palavras, as palavras dos outros. As palavras nunca são nossas. Nunca nos tornamos nós mesmos até que as palavras se silenciem, e então nós nos silenciamos também. “De onde vêm elas, essas palavras que escorrem de minha boca, e que significam?” “No entanto, tenho que falar. Nunca me calarei. Nunca.” A linguagem é um hábito de que somos incapazes de nos livrar, mesmo que “pouco reste a dizer”. “Eu uso as palavras que você me ensinou. Se elas já não significam mais nada, ensine-me outras. Ou deixe-me ficar calado.” Na medida em que a linguagem transmite significado, é o significado de outros que é expresso. “Que importa quem esteja falando, alguém disse que importa quem esta falando.” Mas quem está falando é decisivo, pois o decisivo é que não sou eu quem fala quando eu falo. “Todas essas vozes são deles, vozes que chocalham como correntes em minha cabeça.”

Já defini o tédio moderno através do conceito de ausência de significado pessoal. Em Beckett, essa ausência é total. Sua “teoria do significado” é essencialmente isto: não há signfiicado pessoal, e qualquer outro significado torna-se apenas cada vez mais tênue até não ser mais nada. Que mais há a fazer senão aguardar ou ter esperança de um novo significado? O problema é que a espera por significado, pelo momento, é infindável. Uma real compreensão da existência humana tem de ser baseada numa ausência fundamental de significado.

SVENDSEN, Lars, Filosofia do tédio. Trad. de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.

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